TOP10 SPOILER
1. Ratatouille
2. Paris, Te Amo
3. Treze Homens e um Novo Segredo
4. Harry Potter e a Ordem do Fênix
5. O Despertar de uma Paixão
6. Zodíaco
7. Lady Vingança
8. Shrek Terceiro
9. Ventos da Liberdade
10. Homem-Aranha 3

TOP3 JANEIRO
1. Babel
2. Apocalypto
3. Diamante de Sangue

TOP3 FEVEREIRO
1. Pecados Íntimos
2. Cartas de Iwo Jima
3. A Rainha

TOP3 MARÇO
1. Notas Sobre um Escândalo
2. O Cheiro do Ralo
3. 300

TOP3 ABRIL
1. Vermelho como o Céu
2. Ventos da Liberdade
3. Miss Potter

TOP3 MAIO
1. Lady Vingança
2. Homem-Aranha 3
3. Nome de Família

TOP3 JUNHO
1. O Despertar de uma Paixão
2. Zodíaco
3. 13 Homens e Outro Segredo


TOP10 CURTAS
1. O Nosso Livro
2. As Coisas que Moram nas Coisas
3. Alguma Coisa Assim
4. Balada das Duas Mocinhas de Botafogo
5. Yansan
6. Crisálidas
7. Tyger
8. Aquele Cara
9. Lady Christhiny
10. Meu Namorado é Michê

27.6.07

Cinema sem fim


Os 100 maiores filmes de todos os tempos




Difícil ordenar o pensamento com este tema tão complexo. O retrocesso faz lembrar o envolvimento de milhares de seres que contribuíram com suas criações em filmes, sonhos e manifestos que tanto nos estimularam. A história do cinema, graças aos seus inventores e obstinados criadores, foi a razão dessa lista da American Film Institute que este ano completa um ciclo ininterrupto de 10 anos. Escrevem-se histórias como se quer. As histórias podem ser manipuladas e aceitam a dialética e os caprichos de cada tempo. Mas o cinema é outra história. Ele é único e tem história própria. Só precisa de ajuda para chegar às suas platéias. Para resgatar auto-estimas. O cinema é a nossa motivação e energia para compreender um mundo que segue espantando por suas injustiças e pela falta de soluções. O cinema nos ensina e nos guia. Por suas luzes passamos a ser um pouco menos cegos. O cinema abre nossos olhos, enche-nos de sabedoria e energia. Transforma-nos em super-heróis sem que sejamos personagens de exceção. Com o cinema conseguimos viver histórias inesquecíveis. E, o melhor de tudo, vivemos histórias de cinema sem fim.

Comemorando 40 anos de vida, o AFI resolveu revisar seus conceitos. "Cem anos, Cem filmes, Décimo aniversário" é o nome da premiação realizada. Críticos, historiadores e especialistas votaram para escolher os melhores filmes já realizados no cinema americano. Primeiro chegaram a 400 filmes e, destes, selecionaram os 100 mais importantes. E pela segunda vez, CIDADÃO KANE assumiu o primeiro lugar. O filme é baseado na vida do empresário William Randolph Hearst, que chegou a processar o cineasta Welles, então com 25 anos de idade. Indicado em nove categorias do Oscar, incluindo melhor filme e direção, levou apenas o de roteiro (Welles e Herman J. Mankiewicz).

Logo atrás de CIDADÃO KANE aparece O PODEROSO CHEFÃO, assinado por Francis Ford Coppola. O interessante é que o filme estava em terceiro lugar há uma década. E roubou a posição que pertencia a outro clássico, CASABLANCA. Aliás, a lista do AFI neste ano foi um verdadeiro sobe-e-desce. TOURO INDOMÁVEL, de Martin Scorsese, antes ocupava o 20º posto e agora subiu para o quarto lugar da lista. UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock, saiu da 61ª para a nona posição.

E nesses anos saíram da lista outros clássicos como DR. JIVAGO (Posição Anterior 39), O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (44), A UM PASSO DA ETERNIDADE (52), AMADEUS (53), SEM NOVIDADES NO FRONT (54), O TERCEIRO HOMEM (57), FANTASIA (58), JUVENTUDE TRANSVIADA (59), NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (63), CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU (64), SOB O DOMINIO DO MAL (67), SINFONIA EM PARIS (68), O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (73), DANÇA COM LOBOS (75), ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (82), FARGO (84), O GRANDE MOTIM (86), FRANKESTEIN (87), PATTON - REBELDE OU HERÓI? (89), O CANTOR DE JAZZ (90), MY FAIR LADY (91), UM LUGAR AO SOL (92) e ADIVINHE QUEM VEM PARA O JANTAR (99).

Steven Spielberg foi o diretor mais representado com 5 filmes: ET, TUBARÃO, CAÇADORES DA ARCA PERDIDA, O RESGATE DO SOLDADO RYAN e A LISTA DE SCHINDLER. Spielberg também foi o mais lembrado em 97 (Embora CONTATOS IMEDIATOS... tenha cedido espaço para RYAN). Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick e Billy Wilder tiveram cada um, quatro filmes na lista. Frank Capra, Charles Chaplin, Francis Ford Coppola, John Huston e Martin Scorsese classificaram 3 filmes de sua filmografia. Robert De Niro e James Stewart foram os atores mais lembrados com 5 filmes. Faye Dunaway, Katharine Hepburn e Diane Keaton foram as atrizes melhor classificadas, emplacando 3 filmes cada uma.

Três anos foram grandes marcos do cinema: 1982 (E.T., TOOTSIE, BLADE RUNNER, A ESCOLHA DE SOFIA); 1976 (REDE DE INTRIGAS, TAXI DRIVER, ROCKY, TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE) e 1969 (BUTCH CASSIDY, PERDIDOS NA NOITE, SEM DESTINO e MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA). INTOLERÂNCIA é o filme mais antigo e O SENHOR DOS ANÉIS é o mais recente, aliás é o único representante desse milênio. A decáda de 70, que marcou o fim da Era dos Estúdios, emplacou 20 filmes na lista e o cinema mudo, quem diria, citou 4 fitas.

Como a mudança de várias posições chama atenção, o próprio AFI se encarregou de publicar uma explicação. De acordo com o Instituto, "o cinema americano reflete o momento atual do país e que algumas mudanças se devem ao mercado do DVD". A questão é que alguns clássicos, antes esquecidos, acabam sendo descobertos quando ganham a versão em DVD. Um exemplo dado pelo AFI é RASTROS DE ÓDIO, estrelado por John Wayne, considerado um dos maiores clássicos do faroeste e um dos mais importantes na carreira do diretor John Ford. Como o filme ganhou uma edição especial em DVD, restaurada, ele subiu do posto número 96 para o 12º lugar.

A lista foi revelada na semana passada e já foi publicada em vários sites e blogs. Parece notícia velha, e na verdade é. Mas contrariando a pauta aqui do blog, resolvi fazer algo diferente e só consegui terminar a edição do post hoje. No Spoiler Classics, você leitor, confere cada um dos 100 filmes resenhados e com o logotipo original. Na realidade é um Potpourri de resenhas de jornalistas como Roger Ebert, Rubens Ewald Filho, Leon Cakoff, Fernando Albagli, Inácio Araujo e de alguns membros da Liga dos Blogs Cinematográficos. Além de resenhas pessoais minhas já publicadas no ínicio do blog, dentro do projeto Mosaico.

  • CLASSICS: Confira a Lista da AFI - 1º ~ 25º
  • CLASSICS: Confira a Lista da AFI - 26º ~ 50º
  • CLASSICS: Confira a Lista da AFI - 51º ~ 75º
  • CLASSICS: Confira a Lista da AFI - 76º ~ 100º

    Introdução de Leon Cakoff (Mostra SP) - Comentários de Marfil


  • 22.6.07

    Boas atuações fortalecem trama densa de amor


    Apesar do jeitão esnobe, "O Despertar de uma Paixão" tem lá seu encanto. As credenciais apontam para o filão, quase sempre estéril, da superprodução de época de estirpe nobre, legitimada pela base literária (no caso, o romance "O Véu Pintado", de W. Somerset Maugham). Mas detalhes permitem ao resultado ir além do filme-à-caça-de-Oscar.

    Aliás, "O Despertar de uma Paixão" foi praticamente ignorado, limitando-se a ganhar um Globo de Ouro de trilha sonora. O filme decepciona quem espera puro academicismo, talvez pela estrutura um pouco truncada, pela substância densa que permeia a relação entre os personagens e pela forma corajosa com que os atores os defendem.

    Edward Norton e Naomi Watts apresentam trabalhos de rara sutileza. Não fazem questão de tornar seus personagens simpáticos à primeira vista. Watts, sobretudo: sua Kitty é uma garota cheia de caprichos, que se casa por puro medo de quebrar convenções sociais. Na primeira parte do filme ela é desagradável e desinteressante -uma atuação sem concessões.

    De família rica, Kitty cede à pressão da mãe e aceita se casar com o biólogo classe-média Walter (Norton). Vai para a China, onde ele trabalha, e lá não demora a se envolver com o vice-cônsul Charlie Towsend (Liev Schrieber). Walter descobre e, para se vingar, aceita o posto na direção de um hospital numa cidade do interior assolada por uma epidemia de cólera. A experiência será redentora.

    Não só para Kitty mas também para Walter, que assume sua responsabilidade pelo fracasso do casamento. O personagem mais interessante é Waddington (Toby Jones), um típico britânico decadente que chegou à China pelas vias do colonialismo e há anos vive ali com uma concubina chinesa. É ele quem conduz a melhor seqüência, uma estranha noite regada a bebida e ópio, em que Walter e Kitty enfim se descobrem.

    É esse caminho narrativo inverso -um casamento que começa errado e se descobre possível; o amor que nasce das ruínas- um dos aspectos que fazem a diferença de "O Despertar de uma Paixão" (péssimo título genérico para uma história substancial). O diretor John Curran, que estreou com o pequeno "Tentação", tem dificuldade em orquestrar um filme grandioso. Mas, sabiamente, abre espaço para que o longa respire pelo trabalho dos atores. Sobre um pano de fundo exótico, entre comentários políticos sobre a colonização britânica, mantém o foco no relacionamento humano, fazendo uma espécie de amor nos tempos do cólera mais intimista e sem chance de saídas mágicas.

  • NEWS: Relacione filme e clássicos com suas trilhas musicais num quiz alucinante!
  • HAPPY: Pernille Christensen raspa a panela do que sobrou do Dogma 95 em "Além do Desejo

    Por Pedro Butcher - Folha de São Paulo


  • 20.6.07

    Nostalgia em Las Vegas


    "13 Homens e um Novo Segredo" revive bons tempos de Sinatra e seu Clã em Vegas


    Quebrando a tradição desta temporada, este terceiro filme da série "Homens e Segredo" é melhor do que o anterior, que foi uma continuação indulgente, boba e descartável. O terceiro capítulo tem muitas qualidades, inclusive uma produção excepcional, com um desenho de produção (direção de arte), figurinos e fotografia geniais que, entre outros feitos, recria inteiramente em estúdio um cassino moderno de Las Vegas, com todo o requinte possível, indo do uniforme dos empregados a diferente decoração dos quartos, sempre com detalhes orientais. Pode ser que seja meio confuso, tenha excesso de piadas internas (inside jokes, mais divertidas para os atores do que para o publico) e leve um tempo enorme - mais de uma hora - de exposição do projeto e discussões obscuras, ainda assim é uma diversão sofisticada e inteligente. E por que não dizer, charmosa e agradável.

    Não espere, porém nada de muito novo ou brilhante. O diretor Steven Soderbergh caprichou na realização e em deixar seus amigos atores completamente à vontade. Sejam veteranos ou pouco conhecidos. Astros ou coadjuvantes, todos tem seu momento. Mas os que importam são George Clooney (como o líder do grupo de assaltantes) e seu comparsa Brad Pitt, ambos extremamente relax, à vontade, com enorme naturalidade (mas sem perder o timing de humor). Curiosamente ambos não se preocupam em esconder as primeiras rugas e marcas debaixo dos olhos. Até os deuses envelhecem.

    O mérito do roteiro novo de Brian Koppelman e David Levien ("Cartas na Mesa") é mostrar que além de mero ladrões e vigaristas, os 11 amigos se importam um com o outro, a ponto de se reunirem quando um deles, Elliot Gould (Reuben) tem um enfarto e fica à beira da morte quando é enganado por um gangster dono de um novo cassino (Al Pacino). Todos então estão de volta para a elaborada e dispendiosa vingança, que irá incluir também o antigo inimigo Terry Benedict (Andy Garcia) em parte por ciúme de ter um rival no ramo de hotéis, em parte porque vê ali a chance de roubar uma fortuna em diamantes. Desta vez, praticamente não há mulheres com importância na trama, nem mesmo Ellen Barkin que faz Abigail, a mulher de confiança de Pacino.

    Usando trilha musical e efeitos visuais (até no letreiros) que lembram os bons tempos de Sinatra e seu Clã em Vegas, este Treze Homens é uma prova de que quando Hollywood se esforça e coloca dinheiro em gente talentosa, o resulta é visualmente esplendido, digno de ser lembrado na época dos Oscars.

  • PREMIUM: Hollywood sofre uma invasão de Trailers!

    Por Rubens Ewald Filho


  • 19.6.07

    A crise existencial do ogro Shrek


    No terceiro filme da série, ele se recusa a se tornar rei e, ao lado do Burro e do Gato de Botas, sai em busca do sucessor ideal


    No primeiro filme, Shrek conhece e se casa com Fiona. No segundo, ele conhece melhor os pais dela e descobre como é viver em um palácio. 'Era natural que a história seguisse seu curso e Shrek assumisse o trono e virasse papai', conta Chris Miller, diretor de Shrek Terceiro, continuação de uma das mais rendosas franchise do cinema de animação. 'Mais que a técnica, era importante um cuidadoso desenvolvimento do roteiro.'

    De fato, de solitário morador de um pântano a rei e pai de família, Shrek sofre com as mudanças tão repentinas em sua rotina o que, claro, provoca situações engraçadas. 'Fiona é muito madura e isso naturalmente tinha de acontecer', comenta Cameron Diaz, que dubla a personagem no original. Ela, assim como Miller e parte do elenco de dubladores, conversou com Spoiler e outros representantes da imprensa internacional, em um hotel de Los Angeles, no início de maio. O filme ainda não havia estreado nos Estados Unidos e o temor era grande: e se não figurasse entre os grandes sucessos da temporada? O suspiro veio com a boa receptividade da animação nas telas americanas, onde o filme já arrecadou mais de US$ 281 milhões, ocupando atualmente a quinta posição no ranking das maiores bilheterias.

    A história, segundo as críticas, foi um dos trunfos: após a morte do rei Harold (voz de John Cleese), pai de Fiona, Shrek repentinamente precisa virar rei. Em crise existencial e não se sentindo preparado para o cargo, ele, o Burro (Eddie Murphy) e o Gato de Botas (Antonio Banderas) precisam encontrar alguém para assumir o trono no Reino Tão, Tão Distante. Para substituí-lo, o principal candidato é o primo de Fiona, Artie (Justin Timberlake), um cavaleiro fracassado e frouxo.

    'O acirramento entre a relação do Burro com o Gato de Botas foi um dos assuntos acentuados nessa continuação', comenta Antonio Banderas que, segundo suas contas, a série tem fôlego para mais dois filmes. 'A graça de Shrek está em ressaltar a contracultura ao ironizar as fábulas infantis e isso graças a personagens fantásticos, como o Gato de Botas, que é manipulador e irreverente.'

    Sua ligação com o personagem, na verdade, vai além do divertimento: 'Com o dinheiro que ganho com Shrek, eu posso fazer meus filmes, aqueles que não serão exibidos nos Estados Unidos'. Dono da produtora Green Moon, ele prepara um roteiro em que deverá atuar sozinho, além de se interessar em produzir curtas-metragens em Andaluzia, na Espanha. Banderas também pretende investir na Broadway, 'on e off', ao lado da mulher, a atriz Melanie Griffith. Uma independência que o fez recusar, por exemplo, a participar de dois filmes de seu primeiro guru, Pedro Almodóvar, Kika e Má Educação, simplesmente 'por não gostar do roteiro'.

    Trabalhar em Shrek, de fato, é um bom negócio para os atores, pois o trabalho de dublagem ocupa entre 8 e 9 dias. E eles não se encontram no estúdio, atuando individualmente. O que evitou o constrangimento de Cameron Diaz rever Justin Timberlake, logo depois de sua separação. 'Na verdade, nós nos vimos durante a divulgação do filme e nos cumprimentamos civilizadamente', disse Cameron, visivelmente interessada em botar um ponto final na fofoca.

    Divertindo-se com as histórias dentro e fora do filme, Julie Andrews, cuja magnífica voz dá vida à rainha, elogia sua personagem. 'Afinal, como não gostar de uma mulher que se casou com um sapo antes de ele se transformar em rei e que tem um ogro como genro?', ri ela, disposta a continuar em ação no cinema. 'Antigamente, atores mais velhos faziam mais filmes, agora é mais difícil', conta Julie, que vai contar muitas dessas histórias na autobiografia que lança em abril do ano que vem.

    Série também entra em crise de meia-idade


    Depois de Homem-Aranha e Piratas do Caribe, chegou a vez de Shrek provar se sua terceira aventura nas telas tem gás para levar adiante a mais bem-sucedida franquia de animação na história do cinema. Shrek Terceiro chega no dia 15 ao Brasil com 570 cópias, grande expectativa e um currículo tão robusto quanto o ogro verde. As duas primeiras fitas renderam aos estúdios DreamWorks cerca de US$ 1,4 bilhão nas bilheterias, vendas de 90 milhões de DVDs e um Oscar de melhor animação. No fim de semana de estréia, nos Estados Unidos, o longa faturou incríveis US$ 122 milhões, um recorde na área de animação. Com o dinheiro, porém, vieram críticas de que o filme ameaça a sobrevivência dos contos de fada e ajuda a criar uma geração de miniadultos de 7 anos. Shrek Terceiro continua trazendo divertidas paródias de clássicos infantis e coloca personagens como a Bela Adormecida em enrascadas pouco comuns às edulcoradas versões tradicionais. Mas seria mesmo o fim do faz-de-conta?

    Segundo a psicanalista Diana Corso, autora do livro Fadas no Divã com o marido, Mário Corso, as críticas não procedem. "É importante para as crianças de hoje sentir-se representadas em seus defeitinhos", diz. "Todo mundo solta pum, tem frieira, calcinha meio suja ou irmão meio zarolho. Toda menina, além de querer ser a Barbie, sabe que é uma Fiona, e ela gosta de ter uma representação disso."

    Então está bem. Esse é um falso problema. Mas há outro, verdadeiro: as piadas sem graça. Se antes provocava gargalhadas fáceis, agora o ogro suscita sorrisos amarelos em uma aventura meio frouxa. Se você quiser se divertir com "Shrek Terceiro", saia depois de passados os primeiros dez minutos. Ali estão as situações mais engraçadas, pelo menos para os pais. A morte do "rei-sapo", cuja voz é de John Cleese, é puro Monty Phyton, antigo grupo do comediante.

    É seguida por uma "orquestra" tocando "Live and Let Die", música de um filme de James Bond, composta por Paul McCartney. O segredo do sucesso de "Shrek" sempre foi o duplo sentido, piadas adultas que só os pais entenderão e situações universais para que as crianças se entretenham. O exemplo perfeito são esses primeiros minutos. É por isso que é a cinessérie de animação mais bem-sucedida da história. Que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, quando surgiu. Que criou um modelo de "meta-animação" que vem sendo repetido à exaustão. Etc.

    Mas, como o próprio ogro em "Shrek Terceiro", a coisa toda começa a mostrar sinais da idade. Ou pelo menos uma crise de meia-idade. Aqui, ele foge da responsabilidade de ser rei depois da morte do sogro. Para tanto, parte em busca de um possível herdeiro-substituto (Artie, voz de Justin Timberlake, que vem se revelando um bom ator). A acompanhá-lo, os inseparáveis Gato de Botas (Antonio Banderas) e Burro (Eddie Murphy), ainda responsáveis pela maior parte das risadas.
    Momentos antes de o marido partir, Fiona (voz de Cameron Diaz, no filme em que a personagem tem menos cenas importantes) revela que está grávida. Enquanto procura escapar da sucessão, Shrek (voz de Mike Myers) tenta aceitar o inevitável: sua própria linha sucessória. Conseguirá? Só saberá quem agüentar mais 82 minutos...

    Por Ubiratan Brasil (Estado de São Paulo), Sérgio Dávila (Folha de São Paulo) & Denerval Ferraro Jr. (Revista Época)



    18.6.07

    SPOILER ESPECIAL: 31º Festival Internacional de Animação Annecy 2007

    Fim de Festa


    Annecy promove festival de acertos e erros na premiação


    ANNECY: Uma noite de várias confirmações e surpresas foi o que nos ofereceu a cerimonia de premiação do Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy.

    Por um lado, no campo dos curta-metragens, as vitórias foram razoavelmente justas. O britânico "Peter and the Wolf", de Suzie Templeton, foi o grande vencedor do festival, conquistando o grande prêmio do Júri, destaque merecido para o filme mais falado do evento, comprovado pela fato de ter ganho também o sempre importante Prémio do Público.

    O Prémio Especial do Júri, uma espécie de segundo prêmio do festival, também foi bem atribuído, ao muito original "The Pearce Sisters", de Luis Cook, uma aposta muito diferente da britânica Aardman, em desenho animado, com uma mulher e uma menina (mãe e filha?) que nada devem à beleza e enfrentam a solidão de forma muito negra e peculiar.

    Por outro lado, no campo dos longa-metragens, o grande vencedor foi, paradoxalmente, um dos piores, se não mesmo o pior, filme da competição: o norueguês "Slipp Jimmy Fri", de Christopher Nielsen, animado por computador. Era o filme mais politicamente incorrecto da competição, e talvez o seu grande trunfo, uma vez que, além de desequilibrado era tecnicamente muito débil. O juri, talvez, queria premiar a obra mais adulta, mas acabou optando pela mais juvenil da competição, uma vez que toda aquela irreverência surge de forma gratuita e pouco consequente. Enquanto grandes destaques, como "Paprika", de Satoshi Kon, e "Azur et Asmar", de Michel Ocelot, ficaram de fora.

    A escolha chega a ser ofensiva e ajuda a explicar porque os grandes estúdios nunca colocam os seus filmes nesse tipo de competição. Melhor soube julgar o público, que atribuiu o seu prêmio à grande revelação da competição de longas: "Max & Co.", de Samuel e Frédéric Guillaume, que conquistou todos com a sua excelente volumosa animação e segurança narrativa. O júri atribuiu ainda uma menção especial, esta merecida, ao encantador filme japonês "A Girl Who Lept Through Time", de Mamoru Hosoda.

    Os Vencedores de Annecy 2007:
    Prêmio do Júri (Curta-Metragem)
    PETER AND THE WOLF
    Suzie TEMPLETON (INGLATERRA)

    Prêmio Especial do Júri (Curta-Metragem)
    THE PEARCE SISTERS
    Luis COOK (INGLATERRA)

    Prêmio do Público (Curta-Metragem)
    PETER AND THE WOLF
    Suzie TEMPLETON (INGLATERRA)

    Prêmio do Júri (Longa-Metragem)
    SLIPP JIMMY FRI
    Suzie TEMPLETON (INGLATERRA)

    Prêmio Especial do Júri (Longa-Metragem)
    A GIRL WHO LEPT THROUGH TIME
    Mamoru HOSODA (JAPÃO)

    Prêmio do Público (Longa-Metragem)
    MAX & CO
    Samuel e Frédéric GUILLAUME (SUIÇA)

  • PREMIUM: Annecy esquenta disputa pelo Oscar de Animação em Curta-Metragem
  • PREMIUM: Academia convida 115 novos membros para o OSCAR 2008

    Por Luís Salvado (Premiere)


  • 16.6.07

    SPOILER ESPECIAL: 31º Festival Internacional de Animação Annecy 2007

    Neta de Ub Iwerks remove o passado da Pixar


    O último dia de competições oficiais em Annecy foi um dos pontos altos do festival. O último longa apresentado em competição e também um dos melhores, foi o japonês "The Girl Who Leapt Through Time", de Mamoru Hosoda, que recebeu o premio de melhor animação japonesa no ano passado nos prémios nipónicos da especialidade. O diretor foi muito aplaudido, e justamente, por esta estoria de uma adolescente que consegue dar curtos saltos no tempo, no que é, apesar do seu quadro de ficção cientifica, uma sólida e sensível reflexão sobre as agruras e incertezas da adolescência, que os japoneses conseguem transmitir em animação melhor que ninguém. Não chega à genialidade de "Azur et Asmar" ou "Paprika" nem a qualidade de "Max & Co", mas é um dos bons filmes da seleção.

    A sessão oficial de curtas foi menos feliz, mas teve, mesmo assim, alguns filmes de boa qualidade. Um deles foi "The Pierce Sisters", outra proposta diferente da britânica Aardman em animação de computador 2D, realizada por Luis Cook, numa estória negra mas muita divertida à beira-mar, envolvendo amor, solidão, morte e... bules de chá. Outra boa aposta foi o autobiográfico "Premier Voyage", excelente filme de animação, dirigido por Gregoire Sivan, sobre as desventuras de um pai na viagem de comboio que faz com a sua imprevisível filha bebe.

    Mas o grande evento do dia foi a sessão dedicada à Pixar, com a apresentação da excelente curta "Lifted", indicado ao Oscar este ano, que deverá passar em complemento à "Ratatouille" em julho.

    O filme é realizado por Gary Rydstrom, mítico e oscarizado técnico de som de filmes como Jurassic Park e Titanic, que estava presente para apresentar o filme. Também na sala de imprensa esteve Leslie Iwerks (neta do lendário Ub Iwerks, que criou Mickey Mouse com Walt Disney), como diretora de um excelente documentário sobre a história da Pixar. Incluindo entrevistas com todas as figuras chave do estúdio, como John Lasseter, Steve Jobs e Ed Catmull, bem como o restante do setor da animação norte-americana, o filme é, na verdade, uma história da animação por computador, desde os seus primórdios nos finais dos anos 60, à criação da Pixar em meados de 80, à glória nos anos 90 e à fusão com a Disney já nesta década. O documentário, que teve aqui a sua primeira apresentação ao público, será complementado com um livro, também de Iwerks, a publicar até o final do ano.

    Por Luís Salvado (Premiere)



    15.6.07

    SPOILER ESPECIAL: 31º Festival Internacional de Animação Annecy 2007

    Alexander Petrov encanta novamente com "My Love"



    ANNECY: Ainda no meio do Festival, começa a ficar difícil prever os vencedores das várias categorias, uma vez que o nível tem sido consideravelmente alto e embora os lançamentos, apresentações e debates se sucedam a um nível alucinante, falemos apenas do essencial: os filmes.

    Na terceira sessão da competição oficial de curtas destacou-se, com naturalidade, o excelente filme de Alexander Petrov, "My Love", que já foi exibido em Portugal no Festival de Animação de Lisboa. Uma história terna sobre o primeiro amor de um jovem na Rússia nos finais do século XIX serve para Petrov voltar a exibir toda a sua inacreditável maestria na animação de pintura no vidro. Não é melhor que o seu filme anterior, "The Old Man and the Sea" ("O Velho e o Mar", Oscar de Curta-Metragem de Animação em 1999), mas esse era uma obra-prima, portanto...

    Também surpreendente foi o filme produzido pelo National Film Board of Canada e realizado por Chris Lqvis e Maciek Szczerbowski, "Madame Tutli-Putli", filme de animacão de marionetes que retrata uma onirica e surrealista viagem de comboio, com grande segurança narrativa.

    No campo das longas-metragens, foi apresentado em competição "Film Noir", de D.Jud Jones e Risto Topaloski, em animação por computador, um caso bizarro de sucesso apesar das suas limitações técnicas. Trata-se de um filme cuja animação está muita primitiva, mas o argumento é tão sólido, que se vê com muito prazer do inicio ao fim. Como o título já indica, trata-se de uma homenagem aos filmes noir, com um texto saboroso, uma história intricada mas bem urdida, com todos os elementos do genero, sempre surpreendendo o espectador.

    Também foi apresentado em competição o japonês "Brave Story", de Kôichi Chigira, uma sólida proposta do estúdio Gonzo, sobre as aventuras de um garoto num mundo de fantasia, a tentar desesperadamente dar uma ordem a sua vida no mais infeliz mundo real. Um filme teoricamente juvenil, mas com algo a dizer a todos sobre o andar para a frente e combate às vicissitudes muito reais com que somos confrontados no dia a dia.

    Por Luís Salvado (Premiere)



    14.6.07

    SPOILER ESPECIAL: 31º Festival Internacional de Animação Annecy 2007

    Política marca seleção de curtas em Annecy


    ANNECY: O segundo dia de competição oficial de curtas-metragens foi marcado pela política em boa parte da selecção, do belga "Bully Beef", de Wendy Morris, que liga a colonização belga do Congo à invasão da Bélgica pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial a "Court Record, In memorian Peter Mansfeld", que recorda a brutal condenação à morte de um menor, na retaliação dos contra-ataques do conflito pela independência da Hungria em 1956, passando pelo muito interessante "Je suis une voix", que cruza dois testemunhos reais de pessoas de diferente sensibilidades e participação cívica e politica. Mas o ponto alto da sessão não estaria aí, e sim numa nova versão da história do "Pedro e o Lobo", realizado pela muito talentosa Suzie Templeton. Trata-se de uma óptima atualização do conto, usando a música de Prokofiev, com um trabalho notável de marionetes animadas, de enorme expressividade. Pode ser um dos vencedores da competição.

    Também se destaca o excelente filme de animação por computador "A Gentleman's Duel", de Francisco Ruiz e Sean Mcnally, sobre dois cavalheiros que se batem pelo amor de uma dama, alheios a todas as consequências, incluindo para a dama. Um filme está à altura dos galões da Pixar, o que não é dizer pouco.

    No capítulo dos longa-metragens, o japonês "Paprika", de Satoshi Kon voltou a fazer furor. A nova obra do realizador de "Perfect Blue" e "Millenuim Actress" é um policial futurista genial, visualmente espectacular, em que a fusão entre o sonho e a realidade é, por vezes, muito ténue. Mais modesto mas ainda interessante é "Khan Kluay", o primeiro longa-metragem em animação por computador da Tailandia, sobre um elefante que vai à procura do pai e acaba por se tornar o paquiderme do imperador.

    Um desapontamento foi "Shrek Terceiro", em pré-estréia europeia no Festival de Annecy. Parece que o terceiro filme gastou toda a irreverência nos filmes anteriores. Mesmo o Burro e o Gato de Botas, que nos filmes anteriores roubavam todas as cenas, vêem-se aqui de tal forma subaproveitados que os realizadores até os trocam de corpo para tentar dar mais graça ao filme, afundando-os ainda mais. Esperemos que os dois próximos filmes da série sejam mais bem sucedidos.

  • PREMIUM: Academia aprova regulamento para 80ª Edição

    Por Luís Salvado (Premiere)


  • 13.6.07

    SPOILER ESPECIAL: 31º Festival Internacional de Animação Annecy 2007

    Tendências Animadoras


    Maior Festival de Animação do Mundo, Annecy aposta nos longa-metragens


    ANNECY: O primeiro dia dessa 31ª edição do Festival de Cinema de Animação de Annecy foi repleto de festa. Realizado anualmente na encantadora cidade francesa de Annecy, perto da Suiça, trata-se do maior e mais importante do mundo no que concerne à animação, ponto de romaria obrigatória para todos os grandes nomes do setor. É um gigantesco evento, onde há espaço para tudo, da mais radical animação de autor aos enormes espaços de mercado, da memória do passado da animação à projeção de todas as tendências futuras do setor.

    E esse ano, o festival assume, como um dos seus pontos fortes, a seleção oficial dos longa-metragens. Ate hoje, o Festival sempre focou a seleção de curta-metragens, mas devido ao grande aumento de longa-metragens nos últimos anos em todo o mundo, o Festival optou por equilibrar as seções de curtas e longas, com mais sessões de longas (ao todo foram selecionados nove filmes, fora as secções paralelas), sempre com conferências de imprensa especificas para a apresentação de cada uma.

    O festival, que se iniciou ontem, dia 11 e se prolonga até sábado, começou com dois filmes em competição oficial que já estrearam por aqui: "Por Agua Abaixo", a estréia da Aardman na animação por computador, um filme repleto de sensibilidade britânica, como é marca do estúdio que criou "Wallace e Gromit", e o segundo, "Azur & Asmar", de Michel Ocelot, diretor de "Kirikou, A Feiticeira". O filme é visualmente belíssimo, uma fábula em animação 3D sobre a tolerância entre raças, que urge a se descobrir.

    A primeira sessão da competição oficial de curtas-metragens foi também fortíssima, apresentando os dois filmes mais recentes de dois dos maiores autores do cinema de animação moderno: o suíço Georges Schwizgebel, que apresentou "Jeu", quase uma súmula de toda a sua obra anterior, um genial filme de pintura animada ao som da música de Sergei Prokofiev; e o russo Konstantin Bronzit, com "Lavatory Lovestory", em que continua a dar mostras da sua maestria invejável do ritmo e dos tempos narrativos, numa história, de traço simples, sobre os sonhos de amor de uma funcionária de uma casa de banho pública. Também surpreendeu o hilariante e terno "Dji vou veu Volti", de Benoit Feroumont, em animação 3D, na história de um trovador que tenta cantar o seu amor por uma donzela mas que se vê continuamente impedido pelas legendas do filme, que ganham vida e o impedem de concretizar os seus esforços. Na sessão de abertura foi apresentado o filme "A Família do Futuro", em 3D.

    Filmes em Competição
    AS AVENTURAS DE AZUR E ASMAR, de Michel OCELOT (FRANÇA)
    BRAVE STORY, de Kôichi CHIGIRA (JAPÃO)
    FILM NOIR, de Srdja PENEZIC (EUA)
    POR ÁGUA ABAIXO, de Sam FELL (INGLATERRA)
    KHAN KLUAY, de Kompin KEMGUMNIRD (TAILÂNDIA)
    LA TRAVERSÉE DU TEMPS, de Mamoru HOSODA (JAPÃO)
    MAX & CO, de Samuel GUILLAUME (SUIÇA)
    PAPRIKA, de Satoshi KON (JAPÃO)
    SLIPP JIMMY FRI, de Christopher NIELSEN (NORUEGA)

    Azur e Asmar trata de tolerância, amor e determinação com imensa pureza e ousadia


    A seqüência inicial de As aventuras de Azur e Asmar (Azur et Asmar, 2006) diz quase tudo que é preciso saber sobre o filme. A animação abre com Jenane, uma babá de traços islâmicos, com duas crianças no colo. Uma tem a mesma cor de sua pele, a outra é loira. Lentamente, enquanto canta uma bela canção - repetida pelos infantes - ela leva um, depois o outro, ao peito, amamentando-os.

    A cena diz muito porque imediatamente nos remove de anos e anos de convenções e hipocrisias. O trecho é de uma pureza imensa, mas jamais seria mostrada num filme infantil pelos histéricos estadunidenses, maiores produtores mundiais - e consumidores - de animações longa-metragem. Dá pra imaginar um seio num filme da Disney? Ou da Dreamworks? Ou de qualquer estúdio por lá? Lembre-se que o busto mais cheinho de uma sereia foi motivo de alteração no curta-metragem Knick Knack, por exemplo.

    Com esse momento singelo, o francês Michel Ocelot segue sua brilhante carreira, que já nos deu Príncipes e princesas (2000) e Kirikou e a feiticeira (1998). O estilo gráfico da novidade segue pelos caminhos inusitados das obras anteriores, uma rica mistura de computação gráfica elaborada com cores fortes e chapadas, repleta de detalhes refinados e design equilibrado e simétrico. O resultado é vibrante e muito agradável, depois de passada a estranheza da "descompressão" mental dos primeiros segundos.

    A história trata de tolerância, amor e determinação. Nela, duas crianças - Azur e Asmar - são criadas pela mesma mulher. Mas apenas Asmar é filho de Jenane, que serve como ama-de-leite do jovem nobre Azur. Mas quando Jenane é expulsa, essa família é brutalmente separada. Sozinho, Azur cresce em meio à nobreza, mas jamais esquece as fantásticas histórias da babá - especialmente a lenda da Fada dos Djins - e quando atinge certa idade, decide cruzar o mundo para encontrá-la.

    Ocelot criou o visual, dirigiu e escreveu o roteiro do filme, além de ter sido extremamente feliz também na escolha de sua equipe, especialmente o elenco de vozes. A onipresente palestina Hiam Abbass (Munique, Paradise Now) e o sensacional Patrick Timsit, que faz a voz do mendigo Crapoux, destacam-se com um trabalho brilhante, que dá realmente vida a seus personagens.

    A aventura perde fôlego no final, um tanto convencional e previsível, mas destaca-se com louvor do resto da homogênea produção que toda semana chega às nossas telas.

    Desenho com ratos faz rir ao criar Londres no esgoto


    Camundongos são personagens célebres dos desenhos animados desde que Walt Disney criou você-sabe-quem. Como, além disso, Londres é uma cidade onde o convívio com os roedores não é exatamente raro, não surpreende que a britânica Aardman (da dupla Wallace e Gromit) tenha escolhido estes bichos como heróis de sua primeira animação totalmente digital, "Por Água Abaixo", que estréia amanhã no circuito brasileiro.

    Feito em parceria com a Dreamworks (de "Shrek"), o desenho conta a história do grã-fino Roddy, camundongo de estimação de uma rica família londrina que, certo dia, se vê confrontado por um abusado rato de esgoto, Sid, que invade sua casa inadvertidamente. Tentando se livrar do caótico invasor, Roddy é enviado privada abaixo rumo aos esgotos, onde descobre que há uma réplica de Londres habitada por roedores, lesmas e sapos. Na tentativa de achar o caminho de volta à superfície, ele vai conhecer a destemida Rita e sua numerosa família de camundongos, além do mafioso sapo Toad, que tem um plano de vingança contra os roedores.

    Para dar voz aos personagens foi convocado um time que inclui Hugh Jackman (Roddy), Ian McKellen (Toad) e Kate Winslet (Rita). Tecnicamente, esta terceira parceria das duas gigantes do desenho -que já haviam feito juntas "Fuga das Galinhas" (2000) e o último "Wallace e Gromit" (2005)- é impecável. Mas como computação gráfica é algo hoje banal, puristas não gostaram do abandono da técnica de massinha, com a qual a Aardman fez sua fama.

    Como é de praxe na animação moderna, "Por Água Abaixo" tenta agradar a adultos e crianças usando diferentes níveis de humor. As referências a Londres e aos estereótipos ingleses (do hooligan ao lorde) formam boa parte da graça do filme para os adultos. Também aparecem referências ao pop, começando pela trilha sonora moderninha, com Dandy Warhols e Jet. De qualquer modo, o roteiro é infanto-juvenil, ancorado em seqüências de ação frenética, humor pastelão e no inevitável final feliz com moral edificante.

    Por Luis Salvado (Premiere), Érico Borgo (Omelete) & Marco Aurélio Canônico (Folha)



    10.6.07

    Chegou o dia de soltar as feras...


    São Paulo pinta um arco-íris na Paulista e Spoiler oferece um roteiro cinematográfico para leigos e entendidos


    O cinema viveu atualmente uma explosão de desempenhos magnetizadores, em que atores heterossexuais interpretaram personagens gays, travestis ou transexuais. Philip Seymour Hoffman se transformou no personagem gay que está no título de "Capote", enquanto Cillian Murphy viveu um travesti na Irlanda dos anos 70 no espirituoso e encantador "Café da Manhã em Plutão", de Neil Jordan. Jake Gyllenhaal e Heath Ledger viveram dois namorados em "Brokeback Mountain".

    Além disso, atores do primeiro time estão mergulhando de cabeça em personagens nessa linha também em alguns filmes menores. Felicity Huffman foi além de sua personagem dona de casa na série "Desperate Housewives", vivendo um homem prestes a se transformar em mulher em "Transamerica" e Peter Sarsgaard interpretou um roteirista gay de Hollywood que tem um caso "no armário" com um homem casado que é executivo dos estúdios (Campbell Scott), em "The Dying Gaul."

    Esses atores de agora estão simplesmente seguindo uma trilha de sucessos e conquistas de Oscars, aberta há mais de uma década por Tom Hanks, como um gay portador do vírus HIV em "Philadelphia", seguido por Hilary Swank, em sua heroína moça-rapazinho em "Boys Don't Cry", e por Charlize Theron, cujo papel em "Monster" foi uma espécie de aposta tríplice irresistível para conquista de prêmios: ela ganhou peso, usou dentes falsos e viveu uma lésbica.

    Diante das evidências de que serão recompensados por tais ousadias, e como o público agora já acostumado aos personagens gays em filmes e programas de televisão como "Will & Grace", os atores de maior prestígio parecem muito dispostos a aceitar esses papéis. Ralph Fiennes agora está filmando "Bernard e Doris", em que ele interpreta o mordomo homossexual da bilionária Doris Duke (Susan Sarandon).

    Até onde se sabe, os atores são heteros (fora um ou outro boato pela Internet, onde você pode encontrar rumores sobre qualquer coisa), o que é um assunto que interessa apenas porque acaba influindo na decisão dos produtores de filmes --especialmente na atual cultura de celebridades, onde a linha divisória entre a vida pessoal dos atores e os filmes nunca desaparece completamente.

    Descontado esse pragmatismo politicamente incorreto, a interpretação de personagens gays, travestis e transexuais permite aos intérpretes o manuseio de uma vastidão de artifícios --perucas e figurinos, maneirismos na fala e na postura-- que final das contas têm tudo a ver com Interpretação. A mágica verdadeira é deixar que as acrobacias dêem passagem aos personagens, o que acontece nos melhores desempenhos dessa lista. Philip Hoffman em "Capote" e Cillian Murphy em "Café da Manhã em Plutão" utilizam os signos exteriores nos figurinos e gestos para chegarem à essência dos homens que interpretam, definindo riquezas de personalidade que perpassam a sexualidade dos personagens, mas que vão além desse mero aspecto sexual. Eis os melhores filmes gay da historia do cinema:

    "Capote"


    A transformação do vigoroso Hoffman é tão completa que você até poderá passar uns cinco minutos boquiaberto se perguntando "Esse aí é mesmo Philip Seymour Hoffman?", até esquecer rapidamente que alguém está ali interpretando. O filme é ambientado no início dos anos 60, quando Truman Capote, já bem conhecido, estava pesquisando e escrevendo o romance "In Cold Blood" ("A Sangue Frio").

    Hoffman faz mais que simplesmente incorporar o verdadeiro Capote. Sua articulação afetada e a voz mais-leve-que-o-ar servem para compor o insolente perfil do personagem, que assim demonstra como se considera um ser muito especial. Ele é uma figura à parte da sociedade normal dos anos 60, não apenas por ser gay mas também porque se considera um gênio, exibindo sua sagacidade e seus lampejos com sacadas brilhantes do mesmo jeito afetado com que revira a echarpe sobre os ombros.

    Trejeitos e trajes especiais não conduzem automaticamente a tanta profundidade. "Flawless" (Ninguém é Perfeito), o filme de 1999 em que Hoffman interpreta o vizinho travesti de Robert De Niro, mostrou que um bom roteiro também faz falta.

    Já o roteiro de Dan Futterman para "Capote" permite a Hoffman investigar a crueldade com que o personagem se relaciona com as pessoas ao redor. Ele pode até se sentir atraído por Perry Smith, um dos assassinos que servem de tema para sua pesquisa; mas ele bajula e seduz para depois abandonar Perry. Ele se sente culpado porque o assassino deve ser executado para que ele possa terminar "A Sangue Frio", mas de qualquer forma fica aguardando ansioso pela execução.

    O amante de Capote por muitos anos, Jack Dunphy (Bruce Greenwood), até aparece como personagem, mas propositadamente ele é apenas incidental numa história onde o que conta mesmo é mostrar o autor do famoso livro, em toda a sua ambição auto-suficiente.

    "Café da Manhã em Plutão"


    Numa atuação igualmente brilhante, Cillian Murphy se serve da postura "cross-dressing" de seu personagem --Patrick Braden, homem que se veste de mulher e prefere ser chamado de Kitten ("Gatinha")-- para transformar "Plutão" num filme inesperadamente tocante. Filho que um pastor irlandês teve com sua bela e jovem empregada, Kitten é abandonado quando bebê na porta de uma igreja, e é adotado por uma mulher que o rejeita assim que vê o garoto experimentando um vestido.

    Quando adulto, o colorido figurino e a maquiagem anos 70 de Kitten compõem a atitude dele diante da vida. Sua expressão favorita, uma expressão de desprezo tipo "Fala sério, sério!" é a equivalente ao "Fiddle-dee-dee" de Scarlett O'Hara em "E o Vento Levou".

    Mas a atitude descuidada de Kitten é o disfarce e ao mesmo tempo é a defesa do personagem, que descobre que a vida é dolorosa demais, e que sua necessidade de amor e aceitação é grande demais, para ser levada a sério.

    O estilo do filme, carregado de humor e de canções pop da época, faz ecoar o jeito escapista e auto-protetor de Kitten. Como tantas mulheres, Kitten tem um péssimo gosto na escolha de homens, e vai se apaixonar logo por um contrabandista de armas do IRA. O protagonista também tem a má sorte de estar numa discoteca quando o local é bombardeado, o que leva a polícia ao erro de prendê-lo pela instalação da bomba. E Kitten ainda pergunta a um dos carcereiros que lhe guardam, "Se eu não fosse um terrorista travesti você casaria comigo?"

    Sem jamais perder esse tom arejado e refrescante, e frívolo apenas na aparência, "Café da Manhã em Plutão" permite que o público sinta as emoções profundas que Kitten passa a vida inteira tentando manter a uma distância confortável, até mesmo quando busca a mãe que lhe abandonou quando ele nasceu. Embora Kitten possa ser visto como uma bela mulher assanhada, nós nunca esquecemos que na verdade ele é um homem, e chegamos ao ponto de acreditar tanto no personagem até quase esquecer que é apenas uma interpretação de Murphy.

    Não é necessário, e talvez do ponto de vista da conquista de prêmios não seja desejável, que um ator desapareça tão completamente num personagem.

    "O Segredo de Brokeback Mountain"


    "Brokeback Mountain" sugere que uma interpretação mais distanciada e evidente também por ser emocionalmente tocante. Como Jack Twist, Gyllenhaal aparece no começo do filme numa pose com a mão no quadril, como se estivesse posando para uma propaganda da Gap; felizmente a postura de modelo masculino desaparece logo, mas assinala que, entre os dois personagens, ele é quem está mais confortável na própria pele.

    O personagem de Heath Ledger, Ennis Del Mar, é o cara mais taciturno, que coça o queixo e grunhe as poucas palavras que fala, que fica tão desconfortável com seus próprios desejos sexuais, e tão irado consigo mesmo por sentir o que sente, que às vezes não sabe se quer beijar Jack ou enfiar um soco na cara do cowboy mais ousado.

    Levando em conta esses estilos contrastantes, não chega a ser surpresa que, depois da exibição de "Brokeback" no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em setembro, as especulações a respeito do Oscar ficaram mais voltadas para Ledger. Ele tem a interpretação menos naturalista. Nós sabemos que Heath Ledger nem sempre fica assim grunhindo e nunca chegamos a esquecer que de fato ele está apenas interpretando.

    Esse aspecto não funciona contra o filme, que evidentemente tem o objetivo de atrair um público mais amplo, apesar de algumas inegáveis cenas de sexo entre os dois homens. O romance deles começa em 1963, o que acrescenta um tabu social à história. Mas enquanto o relacionamento prossegue, resistindo por 20 anos apesar das relações conjugais de cada um deles e da distância geográfica, ecoam as emoções que estão presentes em todos os relacionamentos que enfrentam obstáculos intransponíveis.

    Há, na verdade, uma série de padrões heterossexuais no filme. Quando Ennis e Jack se encontram para pescarias uma ou duas vezes por ano, "Brokeback" poderia passar facilmente como uma versão para cowboys gays de "Tudo Bem no Ano que Vem", o filme de 1978 em que Alan Alda e Ellen Burstyn se encontram anualmente no mesmo hotel para um caso extraconjugal.

    E quando a mulher de Ennis (vivida no filme por Michelle Williams) por acaso vê os dois homens se beijando e não comenta nada a esse respeito, ela proporciona um outro rumo para a platéia heterossexual, como a personagem com a qual podemos nos identificar com maior facilidade. (Como um fator extra em termos de relações públicas, o casal na vida real formado por Williams e Ledger recentemente teve um bebê.)

    "Transamerica"


    Este filme também trata ostensivamente de relacionamentos humanos, especificamente sobre as relações entre pais e filhos. Felicity Huffman vive Bree, um homem que vive como mulher que, dias antes da cirurgia de realinhamento sexual, vai da Califórnia até Nova York para conhecer o filho já crescido, que ela gerou anteriormente numa função paterna.

    Quando o pai-mulher e seu filho atravessam o país numa viagem de volta, eles visitam os pais de Bree e nós podemos observar como a dinâmica familiar mudou ,agora que ela já não atende pelo nome de Stanley.

    Mas, apesar do elemento familiar universal, esse filme modesto se apóia mesmo é no desempenho de Felicity Huffman. Ela abaixa o tom de voz, usa perucas bem ostensivas e unhas falsas, e, assim como Cillian Murphy em "Plutão", a atriz permite que a realidade emocional da personagem transpareça através dessa camada de artifícios propositais.

    "The Dying Gaul"


    Este também é um filme movido pelas interpretações, embora aqui nesse caso isso não chegue a funcionar bem. Como o produtor de Hollywood bissexual, o personagem de Campbell Scott "dá pouca pinta" em seu olhar.

    Quem "solta a franga" é o personagem de Peter Sarsgaard, e ele escancara até o ponto da caricatura, num desempenho onde fala com tanta delicadeza e frescura, com direito a todos os "esses" entre os dentes, que faria do Jack da série "Will & Grace" um tremendo de um machão por comparação.

    Esse filme de suspense psicológico tem a ousadia de transformar o simpático personagem de Sarsgaard num vilão mortal, depois que é arruinado pelo executivo de Hollywood. Mas "The Dying Gaul" (que é o primeiro filme igualmente escrito e dirigido por Craig Lucas, mais conhecido pela autoria de peças e roteiros como o do filme "Meu Querido Companheiro") é concebido através de um estilo claustrofóbico e com um roteiro cheio de absurdos.

    Nenhum truque de interpretação, por mais energético que fosse, poderia salvá-lo. Ás vezes os maneirismos funcionam a favor dos personagens, mas às vezes um truque permanece apenas como um simples truque.

    "Filadelfia"


    Em "Filadelfia", Tom Hanks é um advogado de uma grande empresa que se vê num processo judicial ao ser despedido por ser aidético. A fita não é um simples retrato da vida gay ou um estudo sobre os efeitos da AIDS, mas a historia serve como uma moldura para o exame de vários assuntos: As pessoas com doenças fatais ou contagiosas devem comunicar aos patrões suas verdadeiras condições? Há ocasiões em que não temos o direito de ficar calados sobre a nossa sexualdidade? Questões como essa constituem a espinha dorsal do filme. E muito importante: a maior parte das grandes cenas emocionais que esperamos ver são omitidas. Assim, nunca sentimos que estamos sendo manipulados para derramar lagrimas faceis.

    "Filadelfia" é um bem sucedido drama de um humanismo profundamente afetuoso.

    "Meninos Não Choram"


    "Meninos não Choram" é um filme tocante, baseado na história real de Teena Brandon, uma garota que deixa sua cidade natal para ir morar em Falls City, Nebraska, e assumir a identidade de Brandon Teena, transformando-se num rapaz. A diretora Kimberly Peirce leu a trágica história de Brandon no Village Voice, um popular jornal gratuito nova-iorquino e decidiu fazer dela um filme. O resultado foi um filme independente, realista, sem pretensão, e carregado de um drama atualíssimo, instigante e verdadeiro.

    A historia de Brandon é uma tragédia genuína e contemporânea. A busca da identidade passa, para ele, pela mudança de sexo, pela conquista, através da sexualidade, de uma nova e mais verdadeira condição. Brandon é um herói do nosso tempo, e foi retratado com muita delicadeza e propriedade por Kimberly Pierce.

    "Monster - Desejo Assassino"


    Trata-se da estória de uma certa Ailleen, que era prostituta desde os 13 anos, até ficar na casa com uma garotinha (Christina Ricci, numa participação discreta mas boa). Por causa dela, primeiro mata em legítima defesa, depois vai roubando e matando para ficar com dinheiro para sustentá-la.

    É um a história pesada, narrada sem qualquer glamour e não especial talento (por vezes lembra um pouco ''Meninos Não Choram''). Mas com bom elenco (Bruce Dern, Scott Wilson) e uma presença notável de Charlize. A princípio fica-se com a impressão de que ela esta super-representando, exagerada. Mas aí se vê imagens da mulher real e fica-se impressionado com a semelhança, como ela procurou copiar trejeitos, atitudes, postura. É um trabalho estupendo numa fita que não chega a corresponder.

    "Tootsie"


    Michael Dorsey (Dustin Hoffman) é ator em Nova Iorque, mas seu gênio difícil tem afastado novas propostas de trabalho. Desesperado, ele se disfarça de mulher e consegue um papel feminino em uma telenovela. Ele começa a fazer sucesso, ao mesmo tempo em que sente na pele vários problemas do sexo oposto. Porém, surge um inconveniente maior: ele se apaixona por uma colega de trabalho (Jessica Lange) e não sabe qual será sua reação quando contar que enganou a todos se passando por mulher.

    Considerada uma das melhores cómedias do cinema estadunidense, "Tootsie" ganhou três Globos de Ouro: Melhor Filme, Melhor Ator para Dustin Hoffman e Melhor Atriz Coadjuvante para Jessica Lange. Também recebeu nove indicações para o Oscar, mas levou apenas o de Melhor Atriz Coadjuvante, para Jessica Lange.

    "Vitor ou Vitória"


    Em Paris, nos anos 30, Vitória Grant é uma cantora lírica que não consegue arranjar emprego e está vivento quase na miséria, quando conhece um cantor homessexual, Todd, igualmente desempregado. Juntos eles articulam um plano no qual Vitória terá de se passar por homem que se apresenta como transformista. O problema, então, começa quando Vitória se apaixona pelo gângster King Marchand e tem que escolher entre declarar o seu amor ou manter a farsa responsável pela sua atual carreira. O filme ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora, além de ter sido indicado em outras 6 categorias: Melhor Atriz (Julie Andrews), Melhor Ator Coadjuvante (Robert Preston), Melhor Atriz Coadjuvante (Lesley Ann Warren), Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Roteiro Adaptado.

    "C.R.A.Z.Y"


    É a história de Zac, um garoto que se torna adulto e homossexual entre uma mãe religiosa, um pai banalmente machista e quatro irmãos. O filme é uma pérola: delicado, engraçado e comovedor. É a história de Zac, um garoto que se torna adulto e homossexual entre uma mãe religiosa, um pai banalmente machista e quatro irmãos. O diretor Jean Marc Vallée poderia ter feito um filme como tantos outros, humanista, sobre a tolerância, de época, atravessando décadas cruciais e sendo banal como costumam ser. Por sorte, ou mais provavelmente, por talento, vai um pouco além. Consegue, primeiro, imersão nada artificial nas três décadas que se propõe retratar - dos anos 1960 aos 1980. Isso porque deixa que o tempo histórico invada a vida dos personagens sem forçar. Depois, porque escolhe um personagem que traz em si os problemas de adequação ao seu tempo, a começar pela questão da sexualidade.

    Vallée trabalha esse tema com toda a sutileza e a ambigüidade que ele merece. Zac é um ser problemático, um personagem complexo que também não sabe direito como se definir na vida até que isso aconteça de maneira natural. Aliás, "natural" é uma palavra que aparece na crítica porque é o que mais se ressalta nesse filme, que poderia ser muito artificioso mas flui como água.



    6.6.07

    "A Maldição da Flor Dourada" é apenas uma vitrine para um bando de conquistas técnicas


    Existe uma onda anti-Zhang Yimou desde "Herói", incorporada por adeptos de uma citação que, imagino, seja do Sganzerla (algo nas linhas de: "filme de época é aquele filme que, já que não tem conteúdo, só resta ao sujeito espalhar palha e cocô de cavalo pelo cenário"). Acusam Yimou de fazer filmes carnavalescos, cafonas, ou seja, repletos de estrume. Em cima de "Herói", a discussão fica acalorada. Em cima de "O Clã das Adagas Voadoras", meio indiferente. É após a interminável sessão de "A Maldição da Flor Dourada" que o indivíduo pode reconhecer e admirar a rígida disciplina visual e a humildade por trás da realização de "Herói". Aquele era um filme alheio ao hype, à especulação, o que não é o caso das incursões seguintes de Yimou no gênero de artes-marciais.

    Já em "O Clã das Adagas Voadoras", Yimou mostrava perder contato com aquilo que fazia de "Herói" tão envolvente. Passa da cinepoesia nacionalista (e o filme permanece uma das mais belas - e moralmente discutíveis - bandeiras políticas atuais) para uma cinemúsica da Celine Dion repleta de lugares-comuns e estilizações escandalosas, apoiando-se no deslumbre fotográfico para cobrir as falhas narrativas (o próprio Takeshi Kaneshiro ficou célebre por dizer em entrevista: "para mim, não fazia o menor sentido que os dois personagens se apaixonassem, mas era assim a visão de Yimou, então nós respeitamos.") Sem conseguir funcionar enquanto narrativa poética, Yimou retornou à prancheta de rascunhos e repensou os fatores que fizeram o primeiro filme funcionar.

    A despeito da coreografia das lutas ("A Maldição..." não é um wuxia pian, inclusive), ou de uma trama forte, Yimou privilegia estritamente o visual e, Jesus Cristo, o filme é o "Batman & Robin" chinês e Yimou o novo Joel Schumacher. Olhar diretamente para a tela é um desafio hercúleo e a retina precisa fazer constantes pit-stops no escuro (olhando para o sapato, o braço da poltrona, o sinal luminoso de "Saída" que fica cada vez mais atraente a medida que o filme avança) para reabastecer as energias. Me deu vontade de enfiar a cabeça contra aquele prego enferrujado na parede só para fazer a dor de cabeça parar. Com 85% do filme passado dentro do Palácio Imperial, uma orgia da direção de arte e da fotografia, o visual do filme é uma besta hípercolorida em que, apesar da predominância fascista do dourado, todas as cores possíveis são proletariamente inclusas, dispersas, sem sindicância. Nunca eu quis tanto ter um olho de vidro, portátil, retirável.

    É como uma edição do Medalhão Persa gravada dentro do Chaika. Em Technicolor.

    É como um Ursinho Carinhoso vomitando um arco-íris.

    É como o Clóvis Bornay fantasiado de "Ave do Paraíso Psicodélica" estuprando o Joãozinho Trinta numa piscina de jujubas suspensa no alto de um carro alegórico.

    Porque, apesar de visualmente insuportável, a trama do filme consegue interessar. Abandonando as filosofias de botequim chinês, "A Maldição..." tal qual o superior "The Banquet" aposta numa trama essencialmente shakespeariana: sob a Dinastia Tang, às vésperas do Festival do Crisântemo (apoiado pela Petrobrás e pela Lei Rouanet), a Imperatriz fica chocada com as notícias que seu detestado marido, o Imperador (Chow Yun Fat), retorna antecipadamente ao palácio. Ao que a Imperatriz sofre pelo amor do enteado (que deseja partir do palácio e mantém um caso com a filha do médico imperial), o Imperador conspira a morte de sua esposa, visando sua herança territorial. Os filhos do casal são manipulados pelos pais e uma grande fissura familiar ganha proporções trágicas. É um "A Guerra dos Roses" em grande escala.

    "A Maldição da Flor Dourada" é apenas uma vitrine para um bando de conquistas técnicas (o maior set construído na China, a produção mais cara já realizada no país, o maior número de extras numa cena de batalha, etc.) de um país industrialmente bem sucedido. Seria até aceitável que Yimou dispensasse o excesso de cenas de lutas de artes-marciais para privilegiar o desenvolvimento dos personagens (o que não é o caso, já que são muitos e as histórias paralelas não são exploradas melhor), mas ele apenas as substitui por derivativas cenas de combates entre numerosas guardas, idênticas aos Senhores de Roscas da vida. A vida de momentos promissores como o ataque dos ninjas é podada por esse comercial sobre o potencial econômico da China. Fica chato. De Hollywood já basta uma.

    Uma pena, já que o filme, em seus momentos mais comedidos, consegue divertir. Não há um personagem realmente simpático ou virtuoso em todo o elenco, transformando a trama num divertido festival de escrotice por todas as partes. Chow Yun Fat e Gong Li estão deliciosos, com atuações histéricas às proporções da produção que participam, o popstar Jay Chou se destaca como o filho-soldado e um clímax envolvendo uma surra de cinto pra fazer vovó aplaudir de pé. Infelizmente, essas qualidades não são evidentes no mar de poluição visual que violenta a tela.

    O que há de reconfortante em "A Maldição da Flor Dourada" é que apesar da história intrigante, o filme é um porre. Ele nos relembra que cinema não é trama, uma historinha para boi dormir, teleteatrinho (ao contrário da impositiva mentalidade do público comercial, conformado em consumir o mesmo filme com cartazes diferentes), cinema sempre é imagem e ela precisa ser ideal. O roteiro não resiste às pressões de sua encarnação visual inadequada, a imagem erode a narrativa, o filme desaba.

    Por Bernardo Krivochein - Zeta Filmes



    3.6.07

    No fim do mundo. Não da história


    No lançamento do arrasa-quarteirão, em Los Angeles, produtor e elenco deram claros sinais de que continuarão nos mares


    A onda das trilogias arrasa-quarteirão pode estar chegando ao fim. Não porque elas não faturam mais vultosas fortunas para os estúdios. Muito pelo contrário. Três filmes já não parecem ser o suficiente para saciar os fãs de épicos cheios de astros e efeitos especiais. Vide Harry Potter e Homem Aranha, que aparecerão outras vezes nas telas nos próximos anos.

    No lançamento mundial de Piratas do Caribe - No Fim do Mundo em um hotel de luxo em Beverly Hills, na semana passada, o clima de fim de festa era apenas aparência. O tal fim da trilogia - que chega a 769 salas do Brasil hoje - era confirmado pelo produtor Jerry Bruckheimer e o diretor Gore Verbinski, até que a atriz Naomie Harris soltou sem querer que Bruckheimer já estava pensando no quarto longa, para estrear em 2009. 'A trilogia em si acabou. Vamos fazer um intervalo, ver o que acontece com este filme para talvez retomar os piratas', disse o produtor.

    Se No Fim do Mundo repetir os números do segundo filme, os mares ainda estarão cheios de piratas por muito tempo. O Baú da Morte quebrou o recorde histórico de US$ 100 milhões em 48 horas e entrou para o clube dos filmes que faturaram mais de um bilhão de dólares no planeta. O que não diminui a ansiedade dos produtores quanto ao desempenho deste terceiro longa, que em quase três horas de duração tenta resolver todos os conflitos pendentes na história, caso o êxito financeiro não se repita. 'Recordes estão aí para serem quebrados. Homem Aranha 3 virou recordista mês passado, embora fosse o único blockbuster em cartaz. Nós teremos que dividir salas com Shrek 3 no mercado americano', comenta Bruckheimer. 'Mas não há a possibilidade de fazermos outro filme sem Johnny Depp no elenco', disse o diretor, Gore Verbinski.

    Depp, que não participou do lançamento nos EUA por questão de agenda, custa a aparecer em cena. Na trama, ele se une aos outros membros da Corte da Irmandade - incluindo o pirata chinês Sao Feng, em uma boa participação de Chow Yun-Fat - contra o lorde Cuttler Beckett (Tom Hollander), que domina os mares e quer matar todos os piratas. Will Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swann (Keira Knightley) discutem a relação até os últimos minutos, em meio a ótimos efeitos especiais.

    E é bom não sair correndo da sala quando os créditos finais subirem. Se você tiver paciência para esperar sete minutos, poderá ver uma última cena. E um evidente recado de que Piratas 4 virá por aí.

    A superficialidade do terceiro episódio deve ajudá-lo com o seu público-alvo


    A sobrecarga visual de Piratas do Caribe 3 é algo digno de nota. Não faz economia de imagens, e nem poderia fazer num mundo que visa sempre o mais (mais velocidade, mais pancada, mais efeitos especiais). Assim, ao visual feérico na maior parte do tempo, mas também soturno quando convém, se soma a ação desenfreada. Algumas lutas se arrastam (sim, é esse o verbo) por incontáveis minutos. O que torna obrigatória essa outra característica notável do terceiro episódio da série - a sua prolixidade. Não existe nenhum motivo intrínseco para que essa aventura dure exatas duas horas e 45 minutos, mas não direi que essa extensão torna uma sessão de Piratas do Caribe experiência de confronto com o tédio, porque seria uma afirmação puramente subjetiva. Também não se duvida que muita gente vá se divertir com o filme, e assim não vai estranhar o tempo de duração. O que se pode dizer é que nada, na estrutura da história, justifica que ela se arraste por intermináveis 165 minutos.

    Mas essa é uma questão do tempo. Outra é a do espaço. Em muitas situações Piratas do Caribe trabalha em espaços fechados, porões de navios, calabouços, etc. Em outras vai para espaços abertos, o mar, a ilha salvadora, a costa. Essa dinâmica não é posta em funcionamento com muita desenvoltura, porque nem é isso no fundo que interessa, apesar de algumas (raras) seqüências de beleza visual, e portanto de impacto. Numa delas, talvez a melhor do filme, temos um navio encalhado no gelo e, em torno dele, a figura solitária de Jack Sparrow (Johnny Depp). É um momento de repouso, quase de reflexão, e que portanto ganha sua força no contexto do filme.

    Mas esta é apenas uma exceção num produto que deseja reciclar alguns temas tidos como 'nobres', como o navio fantasma, a questão da morte e da ressurreição, etc., diluídos na estrutura do seu universo pop. Inclusive com a presença, no elenco, de figuras icônicas. Em determinado momento, por exemplo, Keith Richards em pessoa, na pele de um pirata, dedilha sua guitarra. Mas, claro, quaisquer que sejam as intenções e/ou pensamentos de quem escreve o roteiro ou dirige o filme, eles esbarram na necessidade de justificar o uso de efeitos especiais sempre mais espetaculares, recurso que, finalmente, vai bombar o produto nas bilheterias. O problema então será passar de raspão pelos temas mais espinhosos, de modo que não assuste a platéia teen que forma seu público.

    Nenhuma dessas limitações apontadas deve se traduzir em queda na expectativa de bilheteria da aventura, cuja trinca principal é formada por Johnny Depp, Orlando Bloom e Keira Knightley. Pelo contrário, são justamente essas limitações que transformam o filme no sucesso que é.

    Filme exagera nos efeitos e causa tédio

    Q uando chegou aos cinemas em 2003, "Piratas do Caribe" bateu recordes de bilheteria ao cativar um público ávido pelas mirabolantes aventuras do capitão Jack Sparrow. A origem do projeto era uma atração dos parques da Disney, e sua versão fílmica parecia recuperar o prazer do puro entretenimento de um gênero popular na Hollywood clássica. Para explorar melhor as possibilidades da franquia, no ano passado a Disney lançou uma continuação.

    Os problemas da segunda parte, porém, só se agravam em "Piratas do Caribe - No Fim do Mundo". Enquanto parte do charme do primeiro consistia em criar uma história aventuresca, capitaneada pela extravagância de Sparrow, o filme seguinte passou para os efeitos visuais o papel de manter a octanagem do show. Neste terceiro capítulo, a opção se acentua, com um fiapo de história que não justifica a longuíssima duração (168 minutos). Os desdobramentos do romance entre Elizabeth e Will e o retorno de Sparrow são inutilmente estendidos para sustentar cenas intermináveis, cujo único valor consiste na magnitude dos efeitos.

    Como tudo que é demais enjoa, a sucessão de ataques, saltos, fugas e transformações provoca a impressão de "déjà-vu". Sem oferecer maior interesse pela narrativa, "Piratas" gera o que menos se espera de uma aventura: tédio.

    Por Franthiesco Ballerini, Luiz Zanin Oricchio (Estado de São Paulo) & Cássio Starling Carlos (Folha de São Paulo)

    Spoiler quebra todos os recordes em Maio


    A cobertura do Festival de Cannes 2007, promovida por Spoiler bateu todos os recordes de visitação e page views registrados nos últimos 4 anos de blog. Cerca de 18000 foram registrados durante o Festival e espantosos 24000 pageviews e acessos por sites de busca foram realizados.

    Entre os visitantes, cerca de 40% foram provenientes da Europa, em especial da França, Portugal, Espanha e Itália. Mas, americanos, mexicanos, chilenos, argentinos, japoneses e até irarianos conferiram os mais de 50 posts publicados no site durante essa cobertura. Em especial parceria com a revista francesa Télérama, a revista portuguesa "Premiere" e os jornais franceses "Le Monde", "Liberation" e "Le Figaro", além dos nacionais "Estado de São Paulo", "Folha de São Paulo", "O Globo", além dos enviados especiais Amir Labaki ("É tudo Verdade") e Leon Cakoff (Mostra SP), o blog atingiu as espectativas do leitor numa das maiores e mais abrangentes coberturas do Festival Francês.

    "Spoiler sempre enfantizou a cobertura dos Festivais Estrangeiros como foco principal de sua temática. A cobertura do Oscar, da Mostra São Paulo, dos festivais alternativos de Toronto, San Sebastian e Sundance, além da tríade de MegaFestivais Internacionais - Berlim, Veneza e Cannes - sempre foram destaques na pauta", afirma Marfil, editor do Blog. "Spoiler sempre teve um aumento considerável de visitas, durante esses eventos, mas nunca registrou índices tão impressionantes como em Maio, principalmente entre a comunidade estrangeira! Houve momentos, que o número de franceses ultrapassou a quantidade de visita de brasileiros", ressaltou.

    E para comemorar essa marca, o Spoiler Premium, está trazendo em primeira mão, uma lista de prováveis filmes que estarão na 31º Mostra São Paulo, em Outubro, segundo sugestão do próprio Leon Cakoff em notícias em seu site. Aproveite...