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29.4.05
Odisséia de filmes, shows e caipirinhaEspaço Unibanco inaugura noitão que terá o genial Old Boy Na trilha do sucesso do Noitão HSBC Belas Artes - que começou em uma sala e hoje lota todas as demais do conjunto na Rua da Consolação -, o Espaço Unibanco de Cinema realiza hoje a Odisséia do Cinema. É uma parceria do Espaço com a Rain Network Digital, reunindo cinema, balada e shows durante toda a madrugada. Serão exibidos três filmes, na verdade seis, três em cada uma das duas salas que vão exibir a programação, a 1 e a 2 - uma pré-estréia, um filme-surpresa e uma sessão cult, que também poderá ser trash -, com direito a café da manhã e degustação de bebidas (caipirinha de vodca com suco de frutas ou água de coco). O Noitão ocorre na segunda sexta-feira do mês. A Odisséia será na última sexta do mês e, inicialmente, será realizada de forma experimental nos meses de abril a julho.
Em todo o mundo, iniciativas como esta atraem especialmente o público jovem. Os críticos reclamam. Filmes são obras de arte e exigem um tempo (e um clima) para ser devidamente apreciados e assimilados. Essa combinação de filme e show, com DJs como Rafael e Lupi, do programa Beats Eldorado, na Rádio Eldorado, poderia criar ruído na informação. Ruidosa, a Odisséia de Cinema, com certeza, será. A expectativa de Fábio Lima, diretor operacional da Rain Network, é reunir pelo menos 600 pessoas no evento desta noite. Ele começa às 23 horas e deve prolongar-se até 6 horas (de amanhã). "É uma boa oportunidade para que as empresas estejam mais perto de seu público-alvo e ampliem a visibilidade de suas marcas", avalia Lima. A seleção dos títulos é feita pelo Espaço Unibanco, leia-se Adhemar de Oliveira. Dos seis filmes exibidos nas duas salas, dois são surpresa e só serão conhecidos na hora. Na sala 1, os títulos anunciados são "A Vida Marítima de Steve Zissou", de Wes Anderson (o talentoso diretor de "Os Excêntricos Tennenbauns"), com Bill Murray, Anjelica Huston e Seu Jorge (sim, o músico) e "Herói por Acaso", de Gérard Jugnot, que tanto sucesso fez no Festival do Cinema Judaico do ano passado. Na outra sala, passa o destaque de toda a noite - "Old Boy", do coreano Chanwook Park, que ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes de 2004. Quentin Tarantino presidia o júri e a história (tarantinesca, permeada de violência) trata de um sujeito que é seqüestrado e fica preso durante 15 anos. Ao fugir, ele não pensa em outra coisa senão em se vingar do seqüestrador. O desfecho é inesperado e impactante. "Old Boy" é magnífico. Ofusca o outro título do programa, o espanhol "Mortadelo e Salaminho", de Javier Fasser. Serviço: Espaço Unibanco de Cinema ( Odisséia de Cinema) - R. Augusta, 1.475, Cerqueira César, 3288 6780. Hoje, 23h30. R$ 13 - ingressos à venda na bilheteria do Espaço e também pelo site www.ingresso.com. Sala 1 (263 lug.), 23h, "A Vida Marinha de Steve Zissou" (2004), de Wes Anderson; 1h40, filme surpresa; 4h15, "Herói por Acaso" (2002), de Gerard Jugnot. Sala 2 (236 lug.), 23h, "Oldboy" (2003), de Chanwook Park; 1h40, filme surpresa; 4h15, Mortadelo e Salaminho (2003), de Javier Fasser. HAPPY
O jeito light de ser autoral nas telas: Rosane Svartman faz observações pessoais na comédia romântica "Mais Uma Vez Amor" "A Família da Noiva" fica obsoleta com aposta em velha moral e conflitos raciais "A Profecia dos Sapos" apela para o politicamente correto ACTION Exagero e brutalidades de "Old Boy" imprimem atordoante dose de energia humana "Refém" cria o duro de matar vulnerável Tome cuidado, ou o bicho-papão pode te pegar num "Pesadelo"! EMOTION Diretor filma perguntas que não têm respostas em "Ninguém Pode Saber" CLASSICS "Bom Dia, Noite" usa o assassinato do ex-presidente da Democracia-Cristã na Itália, em 1978, para discutir o terrorismo como arma política NEWS De olhos bem abertos para o sexo: Filme sobre Alfred Kinsey, o chamado pai da revolução sexual, causa repúdio e põe em evidência sua vida libertina 28.4.05
Criadores de "Chinatown" recordam como o clássico foi feito Trinta e um anos depois de Jack Nicholson, todo quebrado, ser levado de uma rua ensanguentada, com o aviso "esqueça, Jake. É Chinatown", o retrato pintado pelo filme do mal capitalista sombrio corrompendo a ensolarada Los Angeles continua tão vívido quanto sempre.
O que é difícil acreditar, mesmo depois de 31 anos, são as discussões e os obstáculos que "Chinatown", um dos maiores filmes da história de Hollywood, precisou superar para ser feito, mesmo numa época em que Watergate e a Guerra do Vietnã estavam forçando os norte-americanos a reexaminar os valores de sua sociedade. Hoje em dia o filme que mistura um suspense em estilo noir com incesto e corrupção municipal -- o roubo de água de comunidades rurais para fazer o deserto de Los Angeles virar uma zona imobiliária de alto valor -- parece tão perfeito que é estudado nas escolas de cinema. Mas quatro dos homens que fizeram o filme -- o produtor Robert Evans, o roteirista Robert Towne, o diretor assistente Howard Koch e o astro Jack Nicholson -- se reuniram recentemente no palco da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para presentear uma platéia formada por pessoas do mundo do cinema com um relato dos problemas que tiveram para fazê-lo. Evans foi o primeiro a causar polêmica, ao não deixar o roteirista Towne sentar a seu lado no palco, levando os presentes a imaginar que a disputa entre eles continua, mesmo após todos esses anos. Mas ele estava apenas guardando o lugar para Nicholson, que apareceu como convidado surpresa. Na versão de Evans, ele era o único da Paramount Pictures que pensava saber o que Towne, o diretor Roman Polanski e Jack Nicholson estavam fazendo no filme. "Se havia 500 pessoas trabalhando na Paramount, eram 500 pessoas que achavam que era a pior coisa que já tinham lido na vida. Eu disse 'não entendo, mas e daí? Como posso sair perdendo?'." Incesto e CorrupçãoA trama do filme se inspirou em vários elementos, incluindo a luta de Towne para interromper um projeto de construção imobiliária e um artigo de revista que ele leu sobre Los Angeles na década de 1930, passando por um relato sobre como autoridades desviaram água de outras áreas para garantir o crescimento da cidade. Completavam a mistura o fato de Towne ser amigo de uma vítima de incesto e de um policial da divisão de entorpecentes que lhe disse que não podia fazer prisões em Chinatown porque as autoridades locais tinham sido subornadas. O roteirista admitiu que ele e Polanski tinham brigas homéricas sobre cada aspecto do roteiro, durante o dia -- mas que isso não os impedia de sair para farrear de noite. Os dois são amigos até hoje, e Towne atribui a Polanski muitos dos toques que fizeram de "Chinatown", segundo o crítico de cinema da revista Time Richard Schickel, moderador do encontro, "um acidente perfeito, um dos maiores filmes americanos dos últimos 30 anos". Foi Polanski, por exemplo, quem insistiu que o final fosse mudado para que o capitalista malévolo Noah Cross (John Huston) vença, enquanto sua filha, Evelyn Mulray (Faye Dunaway), morre com uma bala na cabeça numa rua de Chinatown. Towne queria um final menos sombrio, mas admitiu: "Roman teve razão em dizer que queria um final assim duro para um filme complicado como esse. Eu falei: 'Vou escrever, mas será uma m...'." Evans lembrou a Towne que ele nunca teria ganho um Oscar se tivesse feito o final à sua moda. Foi Polanski quem teve a idéia de fazer um bandido cortar o nariz de Jake Gittis (Jack Nicholson) no metade do filme, obrigando o personagem a usar curativo ou pontos durante o resto da história, e o próprio Polanski teve prazer em representar o bandido. Polanski teve participação fundamental na criação do sucesso de "Chinatown", e tudo indicava que ele teria uma carreira importante em Hollywood. Mas quatro anos mais tarde ele estava no exílio na Europa, para onde fugiu para evitar ser preso por ter tido relações sexuais com uma menor de idade. Depois de passar anos fazendo filmes de pouco destaque em Paris, em 2003 o diretor ganhou o Oscar de melhor direção por "O Pianista", sobre o Holocausto em Varsóvia, baseado em parte em suas próprias memórias de infância durante a guerra. Evans disse que estava convencido de que "Chinatown" seria um fracasso de bilheteria e que a direção da Paramount odiou o filme. Mas Nicholson falou: "Eu não sabia que éramos párias. Eu pensava que éramos quentíssimos." Por Arthur Spiegelman - Reuters 27.4.05
Estréia "Palíndromos", o novo filme perturbador de Todd SolondzEm seu novo filme, o diretor de "Histórias Proibidas" aborda as questões da gravidez na adolescência e do aborto de maneira desconcertante e provocante "Happiness" (Felicidade, 1998) trazia um pedófilo simpático; já "Storytelling" (Histórias Proibidas, 2001) mostrava horríveis conflitos de família e étnicos, enquanto "Welcome to the Dollhouse" (Bem Vindo á Casa das Bonecas, 1995) tinha uma princesa "geek" (nerd e viciada em informática) encarnada por Dawn Wiener, entre outros elementos irritantes. Solondz maneja os seus temas explosivos com um humor malicioso, mas, ao mesmo tempo, quase sempre o cineasta mostra estar preocupado com a necessidade de examinar em profundidade as questões abordadas nos seus filmes e o preço emocional que os seus personagens atordoados pagam ao lidarem com elas.
O filme mais recente deste escritor-diretor, "Palindromes" (Palíndromos, ou seja, palavras, números ou frases que podem ser lidos indiferentemente da esquerda para a direita ou vice-versa - ex: Amor / Roma) trata da gravidez na adolescência e do aborto, da primeira com certa compaixão, do segundo com um poderoso desprezo pelos dois desfechos possíveis da questão. Contudo, por baixo do sensacionalismo que predomina na superfície, há uma vontade subjacente de questionar precisamente o conceito de "escolha", e, em particular, se pessoas muito novas seriam ou não capazes de exercê-la apropriadamente. Solondz vai tão longe nesta questão que ela acaba tornando-se pura provocação. E não há dúvida de que ele a teria aprofundado ainda mais se a sua escolha artística chave não chamasse tanto a atenção. Nossa personagem central, Aviva Victor, de 13 anos, é encarnada por sete atores de tamanhos, raças, idades diferentes e, num caso, do outro sexo. Jennifer Jason Leigh e Sharon Wilkins são duas mulheres adultas que descrevem Aviva; os atores mais novos que atuam no papel desta personagem, e cujas idades variam de 6 a 14 anos, são todos novatos na profissão. De maneira notável, Solondz consegue extrair uma personagem consistente da atuação dos seus numerosos intérpretes. Ainda assim, a estranheza da representação acaba amenizando o seu trauma, e, pela primeira vez num trabalho de Solondz, algo semelhante acontece também com o filme como um todo. Aviva é um doce de menina sedenta por amor cujo único objetivo é ter um filho. Quando ela fica grávida, os seus pais, um casal de suburbanos do New Jersey (Ellen Barkin e Richard Masur), insistem vivamente para que ela dê um fim nisso. Pouco disposta a se deixar dissuadir de realizar o seu sonho, Aviva pega a estrada em busca de um novo pai que queira recebê-la. Naturalmente, no decorrer da busca picaresca que motiva a sua escapada, ela cruza com uma galeria de personagens típicos do universo de Solondz, repleta de indigentes carentes e de cruéis aproveitadores. A parada principal na aventura de Aviva tem por nome Sunshine residence (residência Sol que brilha), onde Mama (Debra Monk) transformou uma dúzia de meninos fortemente necessitados que ela adotara, em integrantes de uma banda pop devotada à celebração de Jesus, enquanto o homem da casa (Walter Bobbie) trama o assassinato de médicos que praticam abortos. Nem é preciso dizer que Aviva, ao conhecer este homem, se convence de que ele é a sua alma gêmea, no que ela comete um patético engano. Como sempre com Solondz, o humor zombeteiro vai crescendo até alcançar extremos, transformando-se num autêntico desprezo por muitos dos personagens, e então passa alegremente dos limites. Contudo, de maneira bastante surpreendente, ele põe em evidência sentimentos pungentes, muito humanos, em muitos deles. Ainda assim, tudo isso transmite a impressão de que ele está atirando em alvos fáceis demais, por mais que se reconheça o fato de que Solondz aborda os dois lados do debate sobre o direito de viver com uma indiferença bastante equilibrada. No que diz respeito ao título do filme, Aviva, as muitas formas que esta personagem adquire sugerem que Solondz a considera emblemática das mulheres em geral, ou até mesmo do ser humano, que enfrentam imensas dificuldades quando precisam lidar com a necessidade de amor e com a ubiqüidade da vigilância que paira sobre elas. Embora ele o utilize de maneira espetacular (no que ele realiza uma verdadeira proeza), o truque não torna nem a história nem seu significado, tão bons assim. Alexander Payne, o diretor de "Sideways - Entre Umas e Outras" (2004), já havia abordado a mesma questão por meio de um humor igualmente corrosivo no seu primeiro filme, "Citizen Ruth" ("Ruth em Questão", 1996). Apresentando a sua visão de maneira bem mais convencional se comparado com Solondz, Payne desfechava naquele filme socos culturais precisos que tinham endereço certo e acabavam em sangue. "Palíndromos", por sua vez, nos faz esfregar a cabeça num ponto que parece ser uma picada dolorida de pernilongo. Por certo, o diretor Todd Solondz é excêntrico e controverso, mas é justamente isso que o torna interessante. Primeiro objetivo: mantenha-se em vida. Segundo objetivo: Evite humilhações. Então, faça um outro filme, mais um, e assim por diante. "Estou com sorte por ter feito isso e por ter sobrevivido até agora", comenta Todd Solondz, o escritor-diretor de "Palíndromos". "Com tudo o que eu faço, se eu consigo sobreviver à experiência e evitar humilhações, então isso quer dizer que estou me saindo muito bem e dou-me por satisfeito. O resto não tem importância". Claramente, estes são longe de serem objetivos dos mais elevados para um autor do tipo "você ama detesta" como Solondz, cujos filmes anteriores, "Bem Vindo á Casa das Bonecas", "Felicidade" e "Histórias Proibidas", examinaram sucessivamente adolescentes perseguidos (e perseguidores), pedófilos até que simpáticos, e os membros miseráveis e deprimidos da várias famílias que formavam uma verdadeira galeria de deficiências humanas. Por outro lado, independente de ele ser ou não popular, Solondz conhece profundamente o seu produto. "Certas pessoas me perguntaram: 'Você gostaria de tentar fazer um filme que seria mais popular e que disporia de um orçamento bem maior?'. Pois eu simplesmente não consigo pensar nesses termos", diz. "Isso porque qualquer um dos meus filmes pode faturar, nas bilheterias, US$ 10 milhões, US$ 20 milhões ou US$ 50 milhões. Dou-me por satisfeito se eles rendem um bom dinheiro, mas isso não fará de mim uma pessoa mais feliz. Neste momento, estes filmes estão sendo exibidos em praticamente todos os 50 Estados americanos e no mundo inteiro. Então, por que eu deveria me queixar?" "Palíndromos", cuja pré-estréia (nos Estados Unidos) está agendada para esta sexta-feira (22/04), é uma espécie de conto de fadas, porém, de modo algum aconselhável para crianças. A busca de Aviva Victor que, aos 13 anos, está decidida a se tornar mãe é uma odisséia dos tempos modernos que explora diversas facetas do debate sobre o aborto. Aviva é prima da heroína de "Casa das Bonecas", Dawn Wiener, que, segundo informa o cineasta, cometeu o suicídio. Solondz também esperava poder contar com Heather Matarazzo, para um papel pequeno em "Palíndromos", mas isso não foi possível. O truque estranho, "palindrómico" mesmo deste filme, reside no seu elenco - ou seja, mais precisamente na distribuição dos papéis. Sete atores (seis meninas e mulheres, um menino) de diversas raças e idades encarnam Aviva. Eles se sucedem de uma cena à outra, e nunca retornam. A personagem continua a ter 13 anos ao longo da série de eventos de uma semana de duração que o filme retrata, mas Aviva adquire sucessivamente a forma de uma adolescente latina, de uma mulher negra já bastante crescida, de uma ruiva trajando um bocado de suspensórios, e até mesmo, numa cena, de Jennifer Jason Leigh. "Quando utilizei uma menina negra para iniciar o filme - com Ellen Barkin no papel da sua mãe - eu o fiz porque eu precisava chamar a atenção do espectador para o fato de que algo diferente estava acontecendo ali", explica Solondz. "Então, você a vê sob os traços de uma latina, e pouco depois ela se torna uma ruiva. Quando ela se torna uma negra avantajada, ela transforma-se em Gulliver ao lado dos homenzinhos da terra de Lilliput. E o filme traz outras referências aos contos de fadas". A partir do momento em que o espectador consegue acostumar-se com a estranha distribuição de papéis, Solondz acredita que ele consegue então encarar as questões morais levantadas pelo filme, sobre as conseqüências que resultam de certos atos. Os médicos que fazem abortos estão assumindo uma posição, assim como fazem as pessoas que tentam assassiná-los. Aviva - uma personagem que supostamente deveria ser "totalmente simpática" - encontra-se com os dois. "Eu penso que, num nível profundamente humano, todos nós precisamos acreditar que estamos fazendo a coisa certa, e travando um combate justo", diz Solondz, "e que mesmo que você esteja matando médicos que praticam abortos, você faz isso por achar que está salvando milhões de bebês que ainda não nasceram. Existe uma lógica em ação em tudo isso. Não é apenas uma coleção de casos problemáticos". "A decepção com si mesmo e o narcisismo são mecanismos de sobrevivência, e o meu objetivo não é de lhe dar a minha opinião, dizendo-lhe que a sua posição está certa ou errada, e sim de fazer com que você a reexamine e a questione à luz deste drama que eu pus em movimento". Decididamente, "Palíndromos" não pretende ser um filme político, prossegue Solondz, que salienta que ambos os lados poderiam reivindicar que o filme sustenta e conforta o seu ponto de vista. "Eu estou à procura de um público de mente aberta. É a única coisa que eu posso pedir", diz. "Além disso, uma mente liberal certamente não é a mesma coisa que uma mente aberta". "Posso dizer com toda certeza que este meu filme tem sido exibido em festivais de cinema nos mais diversos lugares do planeta, e que em todos esses festivais, exibições especiais e tudo mais, sempre poderá haver algum cristão conservador para se manifestar. Você tem liberais que dizem que este filme é pró-vida, e ainda cristãos que me criticam em sites na Internet por ser pró-aborto. Eu manobrei no sentido de frustrar todo mundo". Ele pronuncia essas palavras sem transmitir qualquer sentimento de ironia. Todd Solondz, com rosto de criança e trajando roupas de cores vivas, gagueja e raramente cruza olhares com um entrevistador. Os modos do cineasta despontam como os de uma pessoa meio desajeitada, mas não parecem resultar de um sentimento de completo constrangimento. Quando a equipe empreendeu uma turnê pelo circuito dos festivais para promover "Palíndromos", Ellen Barkin, que encarna Joyce, a mãe de Aviva, disse ser ela - e não Solondz - a pessoa que constantemente aparecia como "a mais esquisita" do pedaço. "Palíndromos" foi exibido nos festivais de Nova York, Telluride (no Colorado) e Veneza, enquanto os filmes precedentes de Solondz haviam sido aclamados nos festivais de Sundance e Cannes. E que ele seja ou não estranho, popular ou diferente, Barkin garante que ela nunca havia trabalhado com um diretor tão bom e que ela nunca havia sentido um orgulho tão grande por estar participando de um projeto. "Para mim, foi simplesmente o máximo, o topo da montanha", diz Barkin, "e eu não teria conseguido alcançar este nível sem o Todd. Ele é tão amável, bondoso, humano e sensível, além de ser capaz de intuir rapidamente tudo o que está acontecendo. Ele é um homem muito sensível, e eu acho que ele faz filmes muito sensíveis". Sensível? Um homem que faz filmes onde os personagens arrancam lágrimas uns dos outros de maneira sistemática e aviltante? Absolutamente, responde Barkin. "Aquela cena em 'Felicidade' na qual o fabuloso Dylan Baker está sentado no sofá com o seu filho, e que você se emociona profundamente pela sua situação", exemplifica Barkin. "Ou neste filme quando Stephen Guirgis bate a sua cabeça contra a parede e diz: 'Quantas vezes mais vou poder renascer! ', e então você se emociona com ele. Eu não sei como um diretor consegue realizar uma coisa dessas". Por Bob Strauss e Evan Henerson - Los Angeles Daily News 26.4.05
Podem as Cruzadas servir de lição de harmonia para os dias de hoje?"Cruzada", o novo filme de Ridley Scott, mostra uma das guerras recorrentes entre cristãos e muçulmanos, ocorrida há mais de oito séculos no Oriente Médio, mas que apresenta coincidências instigantes com os atuais eventos no Iraque Dificilmente, o novo hit potencial de bilheteria e vídeolocadoras de Ridley Scott, "Cruzada" ("Kingdom of Heaven)", cuja estréia nos Estados Unidos e no Brasil está programada para 6 de maio, poderia ser mais atual e de circunstância. Este filme mostra os muçulmanos resistindo aos invasores cristãos, batalhas encarniçadas no meio de desertos açoitados pelas ventanias, cidades antigas sitiadas e civis tentando se proteger. Ele mostra até mesmo prisioneiros sendo decapitados por causa das suas crenças.
Pois bem, vamos admitir que toda essa violência filmada tenha mesmo acontecido há mais de oito séculos. Mas então, por que tudo neste filme se parece tanto com um telejornal apresentando as mais recentes notícias do Iraque? De fato, o filme tampouco pretende mostrar que cristãos e muçulmanos, há séculos vêm se digladiando num conflito sem fim de civilizações. Em vez disso, ao focalizar a extensa e turbulenta guerra santa conhecida pelo nome de Cruzadas, Ridley Scott disse que ele esperava conseguir demonstrar que cristãos, muçulmanos e judeus podiam muito bem conviver em harmonia - contanto que o fanatismo seja combatido e erradicado. Para tanto, ao elaborarem todas as cenas de batalhas enfurecidas que se sucedem em "Cruzada - Kingdom of Heaven", Scott e o seu roteirista, William Monahan tentaram manter um certo equilíbrio. Os muçulmanos são retratados como adeptos da convivência, até que extremistas cristãos venham arruinar tudo. E, além disso, quando os cristãos são derrotados, os muçulmanos lhes dão até mesmo um salvo-conduto para que possam retornar à Europa. "Na verdade, é um filme sobre a importância de se fazer a coisa certa", diz Ridley Scott, 67, um britânico cuja experiência em levar combates para as telas também inclui a direção de "1492: A Conquista do Paraíso" (1992), "Falcão Negro em perigo" ("Black Hawk Down", 2001) e "Gladiador" (2000). "Eu sei que pode parecer incrivelmente simplista, mas este filme fala da tentação e da importância de se evitar a tentação. É um filme sobre a ética, sobre a necessidade de se declarar a guerra contra a paixão e o idealismo. O idealismo é ótimo, contanto que ele seja equilibrado e humanitário". Se este for mesmo o caso, Scott torna patente aqui que os cruzados ainda precisam responder por "um ou outro" tropeço que eles cometeram ao longo da história. A partir do ano de 638, quando os muçulmanos ocuparam pela primeira vez Jerusalém, tanto os cristãos como os judeus foram autorizados a visitar os seus locais sagrados. Então, em 1095, atendendo a um apelo da Igreja cristã bizantina em Constantinopla, o papa Urbano 2º organizou a Primeira Cruzada para liberar Jerusalém. Quatro anos mais tarde, esses cruzados tomaram a cidade e massacraram praticamente todos os seus habitantes, provocando um banho de sangue que vem sendo invocado até hoje. Sete outras cruzadas foram empreendidas, levando monarcas, senhores e cavaleiros europeus, com os seus exércitos de seguidores devotados, a combaterem numa região que se estende entre o que é hoje a Síria e o Egito, na qual eles também se instalaram e criaram raízes. Os muçulmanos responderam com as suas próprias jihads (guerras santas) esporádicas, até que finalmente, em 1291, os cristãos acabaram sendo expulsos de lá. Diante disso, é difícil não se deparar com a seguinte dúvida: será mesmo que este é o momento certo - a época adequada para mostrar as guerras entre cristãos e muçulmanos a título de entretenimento? "Eu penso que este é o momento perfeito para este filme, porque, ao refletir sobre esta questão de atualidade, ele retrata os dois lados de maneira equilibrada, evitando abordar as suas lutas em termos de confronto entre bonzinhos e malvados", insiste Jeremy Irons, um dos vários atores famosos que contracenam aqui como cruzados. "Este filme mostra apenas que a natureza humana está trilhando o caminho de uma possível coexistência pacífica. Eu não acho que ele possa despertar a cólera de qualquer um dos protagonistas, esteja ele de um lado ou do outro. Acho que ele induzirá os dois lados a pensarem". É claro, os produtores que estão por trás de "Cruzada - Kingdom of Heaven", a 20th Century Fox, dificilmente estão neste negócio para investir US$ 140 milhões (R$ 355,48 milhões) em aulas de história e de moralidade. O filme enfoca um momento particularmente dramático entre a Segunda e a Terceira Cruzada, quando os muçulmanos retomaram Jerusalém. Esta história real está enredada numa história de amor fictícia e apresentada num rico espetáculo repleto de costumes, cavalos e espadas, e que tem como pano de fundo o deserto sem fim. O fato é que durante um período de paz relativa, Baldwin 4º, o jovem rei de Jerusalém, novamente abriu a cidade para todas as religiões. Mas, depois da sua morte, em 1185, os cavaleiros da ordem do Templo, os templários, começaram a atacar comboios muçulmanos no deserto. Em resposta, o lendário guerreiro muçulmano Saladin, à frente de um exército de 200 mil, cercou e sitiou Jerusalém. Balian de Ibelin, o cavaleiro cristão que ofereceu a Saladin a rendição da cidade em 2 de outubro de 1187, é o herói do filme. Na verdade, pouco se sabe hoje a respeito do verdadeiro Balian. Encarnado pelo ator britânico Orlando Bloom ("Falcão Negro em perigo", "O Senhor dos Anéis" e "Piratas do Caribe"), Balian surge aqui como um guerreiro bonito, leal e valente, despontando como o par perfeito para a irmã estupenda do rei Baldwin, Sybilla, encarnada pela atriz francesa Eva Green ("Os Sonhadores"). O seu clandestino de baldwin e Sybilla floresce, mas tudo mais em volta deles não tarda a desmoronar. Na confrontação final com Saladin, encarnado com majestade sarracena pelo veterano ator sírio, Ghassan Massoud, Balian desiste de lutar, enquanto enormes projeteis e balas de fogo começam a crivar os muros de Jerusalém. "Em última instância, ele se rende e entrega Jerusalém a Saladin para preservar a vida dos seus súditos", aponta Orlando Bloom, 28. "Os preceitos de conduta que um cavaleiro deve seguir são: seja valente e Deus poderá ajudá-lo; diga a verdade, mesmo se isso por resultar na sua morte; e proteja os desamparados. Este é o seu juramento, e ele o cumpre até o seu derradeiro instante da sua vida". Com toda certeza, Ridley Scott subscreveria sem problema a esses sentimentos tão elevados. De fato, numa entrevista que ele concedeu nos estúdios Shepperton, na região de Londres, o diretor disse que o principal motivo que o levou a realizar "Cruzada - Kingdom of Heaven" foi o seu fascínio pelos cavaleiros medievais, que havia sido despertado décadas atrás pelos filmes de Akira Kurosawa e Ingmar Bergman. "O que me interessava sobremaneira é uma coisa que parece ter desaparecido do nosso vocabulário, a saber, as noções de honra, virtude, cavalheirismo, cortesia, bravura e nobreza", disse. "Então, após ter concluído as filmagens de `Falcão Negro em perigo', eu me reuni com Bill Monahan para discutir sobre um novo projeto, e perguntei-lhe se ele tinha algum conhecimento sobre cavaleiros medievais. Ele respondeu que as Cruzadas eram um verdadeiro hobby para ele". Quando o roteiro ficou pronto, os Estados Unidos já haviam invadido o Iraque, mas Scott estava bem menos absorvido pela política do que pela complexidade do filme. Na Espanha, ele utilizou como cenário um castelo medieval e explorou a arquitetura moura de Sevilha, e, no Marrocos, ele filmou no porto-fortaleza de Essaouira e em estúdios em Ouarzazate, nas montanhas do Atlas. Nas imediações dos estúdios, a produção construiu fortificações de 365,7 de extensão e de mais de 17 metros de altura para representar Jerusalém. Com o consentimento do rei Mohammed 6º do Marrocos, Ridley Scott também contratou 1.500 soldados marroquinos como figurantes. No filme, eles são multiplicados por meio de computadores. Para o sítio de Jerusalém, baluartes de 17 toneladas e enormes catapultas foram reproduzidos digitalmente. Após ter passado cinco meses nas locações, trabalhando a partir de um roteiro de 260 páginas (quase o dobro do tamanho habitual), Scott acabou realizando um filme de 3 horas e 40 minutos. Esta versão sobreviverá em DVD, mas, para o lançamento geral, ele foi obrigado a reduzir o filme para 2 horas e 22 minutos. "Nós fomos constantemente cortados", disse Jeremy Irons depois de assistir à versão para salas de cinema. "Mas eu fiquei realmente surpreso ao ver o quão consistente se manteve o filme apesar disso. É difícil para todos nós realizar algo realmente consistente, em termos de conteúdo. Mas, nos dias de hoje, as pessoas querem muitas lutas e uma história de amor, e eu acho que neste contexto, Ridley encontrou um excelente equilíbrio". Ainda assim, existe neste filme uma mensagem política, que a atriz Eva Green, 24, ressalta com certa franqueza característica dos franceses. "É muito diferente daqueles filmes estúpidos de Hollywood", disse ela por telefone de Los Angeles. "É um filme que tem substância. É muito inteligente e valente, e espero que ele desperte um grande número de pessoas nos Estados Unidos". Que ele desperte as pessoas em relação a o quê? "A se tornarem mais tolerantes, mais abertas em relação aos povos árabes", disse. Bem, não sei se isso era exatamente o que Ridley Scott tinha em mente, mas, por que não? Fonte: Alan Riding - New York Times 25.4.05
"A Intérprete" se põe a serviço do não-julgamento "Antes de tudo, é preciso reconhecer um mérito neste novo filme de Sydney Pollack, "A Intérprete": é uma obra que dá conta de toda a complexidade (geopolítica) da atual situação americana. O que não é pouco, se considerarmos que se trata de um thriller de suspense até certo ponto banal, preso a velhos esquemas.
Seu primeiro acerto diz respeito ao cenário, o prédio das Nações Unidas em Nova York. Um cenário estratégico que Pollack apresenta como uma polifonia de vozes, línguas e culturas. Não há dúvida de que, já aí, o cineasta se posiciona ao lado do ideal de diplomacia e multilateralismo que a ONU representa, mas, como seu verdadeiro intento é o de repensar o papel de seu país, as coisas se tornam mais complicadas. É assim que Pollack entra, ele próprio, em cena, no papel do chefe de segurança do prédio, para expor o buraco em que os americanos se meteram: um líder africano, facínora responsável por genocídios, irá discursar na ONU, acusando seus opositores de terrorismo. Os agentes americanos devem protegê-lo de um virtual atentado, a ele e a seu discurso. A situação central do filme é a armadilha que o governo americano criou para si próprio. No meio dessa arapuca estão a personagem-título de Nicole Kidman, uma testemunha mais do que ambígua, e Sean Penn, o policial encarregado de interpretá-la. Tudo girando em torno da desconfiança do personagem de Penn, Keller, para com as palavras de Silvia (Kidman). Ela representando a ambigüidade da arte diplomática, ele, a mentalidade (paranóica) da segurança. Os dois discursos vão se sobrepondo até esboçarem um encontro, um meio-termo, que é a grande utopia de Pollack. Keller aprende com Silvia que "a vingança é uma forma preguiçosa de dor". Silvia aprende com Keller que o buraco é mais embaixo. Em termos formais, é um thriller comum: o texto, assim como os personagens, são engolfados pelo ritmo e o sentido da ação. Em termos políticos, a obra tem sua audácia. Em tempos de politização do cinema americano, a grande audácia de Pollack é se posicionar sem abrir mão da velha pretensão de imparcialidade. A verdadeira pergunta que corre por trás de seu filme é: como é possível ao cinema americano continuar a sua tradição de julgar? Essa é a arte, uma arte, se quiserem, de contorcionista, mas admirável ainda assim, a que se dedica o roteiro deste filme. Hichcock tentou filmar no prédio de NY em 1959Após dois anos de negociações com o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, Sydney Pollack conseguiu algo que Alfred Hitchcock tentou sem sucesso: filmar nas dependências da ONU em Nova York. "A Intérprete" é o primeiro -e até agora único- com cenas feitas dentro do prédio da ONU. Hitchcock quis, em 59, filmar ali cenas de seu "Intriga Internacional". Annan disse à época que decidiu autorizar as filmagens "porque o roteiro do filme era fiel às atividades da organização e não atrapalharia o andamento das atividades na ONU". Para tanto, Pollack não rodou cenas durante o horário de trabalho na instituição. Mas a colaboração do secretário-geral não abriu todas as portas. Que o diga Nicole Kidman. Mesmo sendo um dos rostos mais conhecidos do mundo, a atriz teve uma temporada difícil para ser identificada enquanto filmava "A Intérprete". Segundo ela afirmou durante a première do filme em Londres, em abril, teve de provar ser ela mesma todos os dias, durante três meses de filmagens. "Não havia atalhos nem discussão. Demorava de cinco a dez minutos só para que eu conseguisse passar pelo portão. Não importava quantas vezes eles vissem você naquele dia, ainda assim, eles checariam sua identidade", contou. Por Tiago Mata Machado - Folha de São Paulo 24.4.05
Spike Lee entre o sexo, a política e as críticasEm "Elas me Odeiam, mas me Querem", diretor fala de Bush, de fantasias sexuais e desperta a ira das lésbicas Spike Lee adora falar de conspirações. Seu novo filme, "Elas me Odeiam, mas me Querem" (She Hate me), lançado exclusivamente em DVD no Brasil, é sobre um delator que revela a corrupção numa corporação e é despedido. Os delatores, diz ele, são uns trouxas - heróis por 15 minutos e depois bodes expiatórios. O filme tem uma seqüência de fantasia sobre Frank Wills, o guarda de segurança dedo-duro de Watergate que morreu na miséria aos 52 anos. "Os outros envolvidos, todos os homens do presidente, continuaram com carreiras de sucesso, ganhando dinheiro, mas ninguém deu emprego a Wills."
Nunca um homem recebeu um apelido tão adequado. (O nome de batismo de Lee é Shelton.) Ele está bem "spiky" (rabugento). "Espero que a platéia relacione o cientista David Kelly com o filme, porque ele foi um delator." Não se trata apenas de uma sátira sobre a ganância de grandes empresas, mas também sobre a era Bush. Elas me Odeiam é, na realidade, dois filmes: um thriller político e uma comédia sexual. O desempregado e falido protagonista Jack Armstrong aceita uma oferta financeira da sua ex-noiva, agora lésbica, para engravidar a ela e a sua namorada e ele acaba pai de 19 filhos de lésbicas. Confuso e divertido, mistura o liberal (aceitando as mães lésbicas) e o reacionário (no final nenhuma lésbica resiste ao charme priápico de Armstrong). Lee foi atacado por grupos de lésbicas, pois no filme um cara se relaciona com 19 lésbicas e estabelece uma vida doméstica com duas delas. Então, Spike, pergunto eu, é um filme sobre o máximo da fantasia masculina? Ele me olha, surpreso. "Não é uma fantasia masculina. Pode ser uma fantasia masculina dormir com duas lésbicas, mas definitivamente não é uma fantasia masculina casar-se com duas lésbicas. Assim é aí que a fantasia acabou", ri ele, enfiando-se numa encrenca ainda maior. A crítica ao filme é válida, é um retrato exótico das lésbicas para os rapazes. Mas não estão entendendo que é uma comédia, não um tratado político. Porém, como sempre, espera-se que Lee represente "a experiência negra" ou a "experiência lésbica". Quando ele fala sobre homossexualidade, o faz com muito mais aceitação do que é mostrado no filme. Continua existindo homofobia na comunidade afro-americana? "Provavelmente, são mais homofóbicos que outros grupos." Lee surgiu em meados dos anos 80 com "She's Gotta Have It", um filme de baixíssimo orçamento, sobre uma garota e seus namorados. Seguiu-se uma série de filmes brilhantes, entre eles "Febre na Selva", "Irmãos de Sangue" e o mais notável, "Faça a Coisa Certa". Também fez "Malcolm X" e o documentário devastador "Quatro Meninas - Uma História Real", sobre o bombardeio em uma igreja em 1963. "Faça a Coisa Certa" retrata o conflito racial do fim dos anos 80 em Nova York e, ao fazer isso, definiu uma geração. Lee foi acusado de incitar tumultos quando o personagem Mookie, vivido pelo próprio Lee, lança uma lata de lixo pela janela. E isso numa Hollywood onde a violência gratuita é rotina. Mas Spike Lee tem sido acusado de muitas coisas: racista, separatista negro (por fazer filmes sobre negros), de não pertencer à classe trabalhadora, de vir de família privilegiada, de ser esquerdista, de ser capitalista. Às vezes, parece que existe um conjunto de normas que se aplica aos cineastas e um outro para Lee. Ele concorda. "Às vezes eles realmente parecem impor padrões mais altos para mim." Talvez a política de Lee tenha causado certa confusão entre os britânicos porque eles não se encaixam em bolsões certinhos esquerda-direita. De qualquer forma, ele nunca defendeu o separatismo econômico. "Nunca vi uma divisão entre ser politicamente ativo e fazer dinheiro. Nos Estados Unidos, vivemos sob o sistema capitalista e acho que existe uma forma de ganhar a vida honestamente sem ser responsável por ressentimentos ou por mortes. Como ousa fazer um comercial, um filme como Faça a Coisa Certa e depois um comercial?" Pergunto se ele mudou politicamente com o passar dos anos. "Fiquei mais astuto, mais consciente. Tento analisar antes de abrir a boca." De volta aos seus temas favoritos, filmes e conspirações, fala dos cineastas que mais ama - Kurosawa, Fellini, Coppola, Scorsese, os primeiros Truffaut. "Jean Seberg se suicidou. Acho que o FBI teve alguma coisa a ver com isso, porque ela era simpatizante dos Panteras Negras." 'Para rappers, ler é coisa de branco', diz Spike Lee Depois de Alfred Hitchcock, Spike Lee talvez seja o diretor mais reconhecível da história do cinema. Aos 47, ele não parece mais um menino e fala com uma gravidade que sugere que está acostumado a ter suas palavras espalhadas pelo mundo afora.
O diretor esteve em Atlanta recentemente, para promover seu novo filme, "She Hate Me". É uma comédia dramática sobre um afro-americano (Anthony Mackie) que é demitido por sua empresa corrupta. Sem renda, ele concorda com a proposta de sua ex-namorada de se tornar um banco de esperma para lésbicas que desejam ter filhos. Como de costume, Lee tinha muito a dizer sobre vários tópicos, desde o drama de uma geração afro-americana até sua avó de 97 anos. Sobre críticas a jovens negros americanos, explícitas em "She Hate Me", e sobre os comentários recentes de Bill Cosby: "Há negros americanos preocupados com nosso futuro como povo. Ao embarcarmos em um novo século, temos que parar de nos preocupar tanto sobre o que os brancos vão pensar se discutirmos nossas coisas. Estamos na era da informação, e não há uma forma de resolvermos os problemas da nossa sociedade nos reunindo na esquina da Ashby com a Martin Luther King. Não vai acontecer. Então, não podemos ficar pensando: 'Oh, o que disse Bill Cosby? Racistas brancos vão usar contra nós'. Bill Cosby conquistou o direito de dizer o que quiser. Mas essa não é a equação. Não podemos ter uma geração de jovens negros crescendo analfabetos. Pior, uma geração que não quer aprender a ler e escrever. Porque, de alguma forma, na mentalidade distorcida que temos hoje --que realmente é promovida pelo gangsta rap-- essas crianças comparam estudar com tentar ser branco. (longa pausa). O que é genocídio." "Os jovens inteligentes se embrutecem para não serem marginalizados. Não querem ser chamados de brancos. Ou de vendidos. Ou de Oreo. De alguma forma, equiparam a ignorância com ser negro, ser real e ser das ruas. Ser do gueto tornou-se questão de honra. E isso é mais do que loucura. Isso é estupidez." Sobre o que mudou fundamentalmente dentro dele desde que fez "She's Gotta Have It", em 1986, e o que não mudou, apesar de todos os prêmios e da fama: "O que não mudou foi minha paixão pelo cinema. Amo o cinema. O que mudou? Bem, agora, sou um homem muito mais rico do que antes, e não digo financeiramente. Tenho uma esposa maravilhosa, bela e criativa (Tonya Lewis Lee), que atualmente está excursionando pelo país com seu livro ("Gotham Diaries"), e dois filhos maravilhosos: minha filha, Satchel, de 9 anos, e meu filho Jackson, de 7. Por causa da ignorância, por causa de pura estupidez, antes de eu casar, achava que o cinema e o esporte seriam as coisas mais importantes da minha vida". "Lembro-me que, antes de casar, eu costumava dizer: 'Nunca vou levar meus filhos a um filme da Disney'. Essa é a declaração de um ignorante que ainda não teve filhos, porque, se você tem filhos, essa é uma das coisas que vai fazer" (risos). Sobre porque suas personagens femininas ficaram mais complexas, especialmente em "She Hate Me": "Minha mulher teve um grande impacto. Ela é uma mulher forte e inteligente. Ela foi estudar em Sarah Lawrence e formou-se em direito na Universidade da Virgínia. Quando a conheci, eu disse, UVA? É tão boa quanto a Universidade de Nova York? Ela quase teve um treco." "Tonya é a primeira pessoa que deixei ler meus roteiros. Se ela não gosta de alguma coisa, especificamente sobre os papéis das mulheres, ela me fala francamente. Quando casamos, agente costumava discutir, até que eu dizia, relutantemente: 'Tubo bem.' Mas fiquei esperto. Se ela acha isso, deve haver uma razão, e vou procurar saber qual é." O diretor responde a Ossie Davis (que faz uma ponta em "She Hate Me"), que disse que qualquer coisa que Lee faz "tem um motivo extraordinário, com uma capacidade de comover e irritar, de gerar raiva ou tristeza". "Ossie é um dos meus heróis, então vou aceitar isso como um elogio. As pessoas também me chamaram de provocador. Mas, desde o início, eu só queria contar histórias. Fazer uma obra. Os grandes artistas, como Brandford e Wynton Marsalis e Chris Rock, eles sabem que é a única forma de avaliar um artista. Não se avalia um artista com uma peça ou um romance ou um disco, mas pelo conjunto da obra. Assim, desde o primeiro dia, estive nessa missão." Sobre por que escolheu combinar dois temas em seu filme, um dramático, sobre empresas, e um cômico, sobre a procriação de lésbicas: "Nós (Lee e o co-autor Michael Genet) queríamos que o filme refletisse as épocas loucas, turbulentas, caóticas em que vivemos. Então queríamos várias histórias. Quando eu era criança, sempre assistia 'Ed Sullivan' no domingo à noite, o cara equilibrando pratos. Quando você faz um filme assim, você é esse cara." E a arte pode fazer uma diferença? "É uma coisa maravilhosa quando a arte tem um impacto direto. Apesar de eu não gostar do filme, o que Woodrow Wilson disse sobre o racista "O Nascimento de Uma Nação" de D. W. Griffith --'É como escrever a história com relâmpagos'-- é uma descrição do cinema da mais alta qualidade." "Meu amigo Stanley Nelson fez um documentário sobre Emmett Till, e o filme definitivamente fez as pessoas coçarem as cabeças e pensarem em reabrir o caso. Disseram que 'Quatro Meninas' (excelente documentário de Lee sobre um atentado a bomba na igreja de Birmingham no início dos anos 60) fez o mesmo. E o 'Na Linha da Morte', de Errol Morris, antes disso, tirou um homem do corredor da morte. E todos podem ver o que está acontecendo com 'Fahrenheit 9/11'". Sobre as críticas que Michael Moore está recebendo por "Fahrenheit 9/11": "Sempre fico feliz quando alguma outra pessoa consegue agüentar um pouco do tranco, e estão atirando nele bastante (risos). Mas Michael é forte, e seu filme vai durar para sempre, como testemunho dos tempos." Sobre a ganância das corporações americanas, outro tema de "She Hate Me": "Demorou para algemarem Ken Lay, não foi? (risos). Posso imaginar as conversas quando seu parceiro de golfe é o presidente dos EUA: 'Ih, Ken, segurei eles o máximo que pude, mas agora tenho meus próprios problemas.'" (mais risos). Sua conexão especial com Atlanta: "Nasci aqui, apesar de ter crescido no Brooklyn. Freqüentei a escola aqui. Minha avó, que tem 97 anos, ainda mora aqui. Depois de terminar as entrevistas hoje, vou passar para vê-la. Ela financiou meus estudos na Morehouse e o mestrado na NYU. E foi aqui que virei homem. Aquelas mulheres da Spelman me mostraram, (risos) e não as culpo. Quando apareci no campus, em agosto de 1975, parecia ter 13 anos de idade. Então isso era... problemático." "Mas, saí um homem melhor." Sobre sua relação com a Morehouse agora, depois de ter sido expulso do campus por discussões (em torno de estipulações de contrato e da forma como o filme retrata faculdades negras) enquanto filmava "School Daze", em 1988: "Bem, estou no conselho consultor." Fonte: Eleanor Ringel Gillespie & Simon Hattenstone- Cox News Service 20/08/04 22.4.05
Aos 30, Drew Barrymore estréia novo filme e diz estar mais maduraEstrela diferencia-se por gostar de revelar detalhes da vida privada 20 mais 10 é o número da sorte de Drew Barrymore.
É assim que a personagem representada por Barrymore descreve como é tornar-se trintona, numa cena de "Fever Pitch" (título que pode ser traduzido como "Febre dos Arremessos"), a comédia romântica sobre baseball na qual ela contracena com Jimmy Fallon, e que estréiou (nos Estados Unidos) na última sexta-feira (8/4). Este aniversário importante, que ela comemorou em fevereiro, revelou ser uma reviravolta na sua própria vida. Depois de ter enfrentado uma série de problemas dignos de figurar numa crônica de escândalos, que incluiu uma temporada passada numa clínica de reabilitação quando ela tinha 13 anos, e depois de dois casamentos-relâmpagos, um com o dono de restaurante Jeremy Thomas e outro com o ator Tom Green, a sua vida "está indo muito bem, obrigada", diz. "Estou realmente tentando ser mais honesta comigo mesma, ser mais direta", explica Drew Barrymore, que foi arremessada de maneira precoce para a fama mundial aos 7 anos, quando ela encarnou a personagem de Gertie em "E.T., o Extra-Terrestre". "A minha tendência é sempre de tentar agradar as pessoas. Por isso, estou tentando me conter e ser mais firme". Isso não quer dizer que Barrymore vai se metamorfosear em Joan Crawford nem acenar por aí com um comportamento de diva. "Eu gosto de ser agradável", diz. "Estou determinada a tentar manter as minhas amizades mais estáveis e duradouras. Além disso, estou tentando ser mais calma de maneira geral e confiar no tempo". A atriz foi obrigada a tornar-se mais reservada quando se trata de falar a respeito do seu relacionamento com Fabrizio Moretti, 24, o baterista da banda de rock The Strokes. "Eu costumava contar tudo nos menores detalhes, mas agora eu prefiro me manter muito mais discreta a respeito desta relação. Com isso, as coisas ficaram bem melhores, principalmente entre mim e ele". Ainda assim, Drew Barrymore abre um sorriso até as orelhas quando o nome de Fabrizio Moretti é mencionado. E apesar dos rumores de que haveria problemas no seu relacionamento, ela garante que eles estão felizes juntos. "Eu sei que eu o amo. Ele sabe que eu o amo. E isto é o suficiente para mim". Eles estão juntos já faz três anos e dividem o seu tempo entre Nova York e Los Angeles. Eles podem ser assediados e filmados o tempo todo, uma vez que Barrymore se recusa a esconder-se dos paparazzi. Contudo, ela odeia toda essa atenção. "Mas isso não vai me impedir viver a minha vida. Eu não ando por aí disfarçada, vestindo um boné de baseball e óculos escuros". Quando ela sai para comprar mantimentos, ela vai a pé junto com os seus três cães, e é também caminhando que ela sai para jantar com o seu namorado. "Eu fico andando pelas ruas de Nova York. Hoje, estou tão mais feliz com a vida que eu levo". O assédio da imprensa e dos fãs é "apenas uma parte da minha vida, e acabei me conformando com isso". Drew Barrymore continua sendo uma das raras estrelas que são capazes de discutir até mesmo uma romance fora das telas de cinema. Ela diz que fica irritada quando lê a respeito de celebridades que se recusam a fazer comentários sobre assuntos de natureza pessoal durante entrevistas. "Você não acha isso um pouco grosseiro?", pergunta. "Se você está no centro das atenções do público, não há por que ser mesquinho com isso". Barrymore constrói a sua bolha Esqueça as roupas de grife. Drew Barrymore sempre prefere trajar roupas de algodão. No mesmo minuto em que ela termina um ensaio fotográfico, a atriz retira rapidamente o seu vestido Versace que lhe gruda ao corpo e o troca por uma camiseta comprida florida com mangas, que ela usa como vestido, junto com botas Ugg marrom com cordões, e puxa para trás os seus cabelos castanhos ondulados com uma faixa de algodão azul. Ela esfrega o seu rosto, finalmente limpo da maquiagem que ela odeia usar. Drew Barrymore é o tipo de mulher simples, desprovida de qualquer complicação, e cujo gosto culinário é básico. Assim, ela sempre dará preferência para um prato de macarrão com queijo ralado e para "corndogs" (broa de milho recheada com salsicha). Afável e animada, ela faz um olhar travesso, e aperta com os dedos a sua barriga para deixar aparecer um "excesso" e provar o seu amor pelos carboidratos. Ela acrescenta que prefere "não tentar fingir que ela é perfeita". Além disso, para ela, a fama e a adulação que a acompanham não passam de uma ilusão. "A única coisa que seja verdadeira é ter um emprego e manter as suas relações de amizade em dia". Decididamente, Drew Barrymore, 30, não é a pessoa ideal quando se trata de freqüentar as festas de famosos em Hollywood ou os eventos com tapete vermelho. Após ter cumprido as suas obrigações junto à turma do tapete vermelho, na cerimônia de entrega dos Oscars deste ano, ela se retirou e foi até o bar, onde ficou tomando cerveja com a sua amiga e parceira-produtora, Nancy Juvonen, e foi embora para casa antes que as festas pós-premiação começassem. Vale acrescentar que depois de ter passado por uma clinica de reabilitação quando ela era adolescente, por causa do seu consumo excessivo de drogas e de álcool, Drew Barrymore hoje bebe com moderação. Atualmente, a atriz prefere passar os seus dias --e as suas noites-- na Flower Films, a produtora que ela dirige com Nancy Juvonen já faz uma década. As duas mulheres, que trabalharam na realização dos filmes da série "Charlie's Angels" ("As Panteras") e no sucesso do ano passado, "50 First Dates" ("Como Se Fosse a Primeira Vez"), também produziram a mais recente comédia estrelada por Barrymore, "Fever Pitch.", que estréia nesta sexta-feira. Neste filme, que é dirigido pelos irmãos Bobby e Peter Farrelly, Drew Barrymore encarna uma mulher de negócios bem-sucedida que se apaixona por um professor de matemática da universidade (Jimmy Fallon), o qual se revela um torcedor completamente biruta do time de baseball Red Sox. A sua fixação pelo baseball provoca atrito com a sua namorada, mas, na realidade, Drew Barrymore consegue corresponder à obsessão do rapaz. "A produtora Flower é o meu time do coração, o meu Red Sox, sem dúvida. A Flower é o meu Fenway Park [o estádio dos Red Sox]", compara. "É o lugar para onde eu vou todo dia. É lá que acontecem todos os meus altos e baixos. Eu deveria instalar um vendedor de cachorros-quentes lá dentro!". Lindsey, a personagem que ela encarna em "Fever", é "o tipo de garota por quem eu tenho admiração, com quem eu gostaria de me parecer; ela é independente e fácil de conviver, ela não é pentelha nem ciumenta nem possessiva, e nem gosta de manter um alto padrão de vida". E, assim como Lindsey, a "viciada em trabalho" Drew Barrymore, que atua nas duas costas do país, está tentando encontrar um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. Ela distribui o seu tempo entre a sua casa em Los Angeles e o seu apartamento em Manhattan, sobretudo, porque a cidade de Nova York é onde mora o seu namorado, Fabrizio. O fato de estarem obrigados a viver separados com tanta freqüência não é fácil para nenhum dos dois, mas eles conseguem levar essa situação adiante. "Você viaja para lá e para cá o tempo todo", explica. "Mas esta é a vida que nós escolhemos viver". "Ontem, nós tivemos um dia livre. Nós (Fabrizio e eu) acordamos muito tarde. Fomos tomar o café da manhã. Depois, ficamos tocando música a tarde inteira. E então nós fomos jantar com uma turma de amigos. Finalmente, nós fomos caminhar debaixo de chuva por um momento". Foi um "dia perfeito". E, embora ela não seja tão perfeita assim, explica a atriz, o seu relacionamento com a sua mãe, Jaid Barrymore, está melhorando cada vez mais. No passado, ela tivera um relacionamento bastante complicado com os seus pais e tornou-se uma adulta legalmente emancipada aos 15 anos. Haverá alguma coisa capaz de catalisar esse processo de reconciliação neste momento? Sim, foi a morte, em novembro, do seu pai, John Barrymore, com quem ela se reconciliou pouco antes de ele morrer. O seu relacionamento com a sua mãe "tornou-se mais funcional do que era no passado. O falecimento do meu pai transformou-me profundamente, e me convenci de que 'o que passou, passou, e que o tempo é um remédio'. Isso fez com que eu abrisse mais a minha mente e o meu coração. Esta experiência me tornou mais madura". Por Donna Freydkin - New York Times 20.4.05
Cannes seleciona dois brasileiros"Cinema, Aspirinas e Urubus", de Marcelo Gomes, e "Cidade Baixa", de Sérgio Machado, não concorrem à Palma, mas ao Caméra d'OrCinco filmes latino-americanos, incluindo dois brasileiros, integram a seleção do 58.º Festival de Cannes, anunciada ontem em Paris. O mexicano Carlos Reygadas participará da disputa pela Palma de Ouro com grandes nomes do cinema mundial. Entre outros, também participam da competição - o alemão Wim Wenders, com Don't Come Knockin'; o dinamarquês Lars Von Trier, com Manderlay; o canadense David Cronenberg, com A History of Violence; os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, com L'Enfant; o israelense Amos Gitai, com Free Zone; e os americanos Gus Vant Sant e Jim Jarmusch, respectivamente, com Last Days e Broken Flowers. Alguns desses diretores já ganharam a Palma, recompensa máxima do festival - Wenders, Van Sant, os irmãos Dardenne. Outro vencedor, Emir Kusturica - que ganhou duas vezes, com Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios e Underground, Mentiras de Guerra -, preside o júri deste ano. Dois longas brasileiros estão entre os que integram a seção Un Certain Regard, que integra a seleção oficial, mas não concorre a prêmios (exceto a Caméra d'Or para diretor estreante). São - Cinema, Aspirinas e Urubus, do pernambucano Marcelo Gomes, e Cidade Baixa, do baiano Sérgio Machado, que teve importante participação, como roteirista e/ou assistente, em obras de Walter Salles (Abril Despedaçado) e Karim Ainouz (Madame Satã). O festival começa dia 11 de maio com a estréia mundial de Star Wars Episódio 3 - A Vingança do Sith, de George Lucas, e deve apresentar, também fora de concurso, o novo Woody Allen, Match Point, posterior a Melinda Melinda, que ainda nem estreou no País. Como sempre a seleção oficial de Cannes aposta em autores consagrados, abrindo algumas brechas (poucas) para novos diretores de talento. A curiosidade, na competição, é a estréia do ator Tommy Lee Jones, que venceu o Oscar de coadjuvante por O Fugitivo, como diretor. Ele assina The Three Burials of Melquiades Estrada. O cinema asiático, em alta nos grandes festivais internacionais, concorre com três títulos - Basing, do japonês Masahiro Kobayashi; Shanghai Dreams, do chinês Wang Xiaoshuai; e The Best of Our Times, do diretor de Taiwan Hou Hsiao-Hsien. Dona da casa, a França emplaca sempre uma seleção numerosa. Este ano, três filmes franceses vão concorrer à Palma de Ouro - um deles, Caché, tem direção do austríaco Michael Haneke, um habitué em Cannes; os outros dois são Lemming, de Dominik Moll; e Peindre ou Faire l_Amour, de Arnaud e Jean-Marie Larrieu. On cinema iraniano concorre com Kilometer Zero, do cineasta curdo Hiner Saleem. No total, 20 filmes de 13 países participam da competição. O festival será encerrado em 21 de maio com o filme inglês Chromophobia, de Martha Fiennes, irmã de Ralph e Joseph. Dia 22, como no ano passado, o festival reprisa todos os vencedores. Assim como homenageou o Brasil em 2004, Cannes presta, este ano, homenagem ao México. Além do filme de Reygadas que está na competição, o festival deve apresentar a versão restaurada de Os Esquecidos (Los Olvidados), considerada um dos pontos altos da fase mexicana do gênio Luis Buñuel. Outro filme mexicano, Sangre, de Amat Escalante, está na mostra Un Certain Regard, com o argentino Nordeste, de Juan Solanas, filho de Fernando. O filme escolhido para encerrar Un Certain Regard foi o espanhol Habana Blues, de Benito Zambrano. Será uma forte representação latina na Croisette, em 2005. O Brasil emplacou dois filmes, o que não é pouco. Considerando-se que se trata do ano do Brasil na França, mais de um especialista havia antecipado que não haveria filmes nacionais na seleção oficial, pois o País já estaria recebendo muita exposição na mídia francesa. Machado e Gomes quebraram a escrita e enchem de promessas a nova ficção cinematográfica brasileira, que se antecipava em crise no Cine PE Festival do Audiovisual, encerrado ontem no Recife. Na mostra pernambucana, os documentários deram de 10 a 0 nas ficções. O Brasil vai a Cannes com chances de levar um prêmio, com estes dois representantes entre os nove longas que concorrem ao Caméra d'Or. "Estou feliz porque eu e Marcelo (Gomes) somos amigos e estivemos juntos em vários projetos. Aliás, o Karim, com quem eu e Marcelo trabalhamos em Madame Satã, é roteirista tanto do meu filme como do filme do Marcelo", comentou Machado. "É maravilhoso estrear em Cannes. Cineastas que eu admiro muito também mostraram seus primeiros filmes no Un Certain Regard", declarou Gomes, que filmou uma história sobre a amizade que surge entre dois homens de culturas completamente diferentes, um brasileiro que foge da seca e um alemão, que foge da 2.ª Guerra. Por Luiz Carlos Merten & Flávia Guerra 19.4.05
Jane Fonda põe a boca no mundoAtriz dá volta triunfal, aos 68 anos, em livro e filme Você não sabe o que brilha mais, os olhos dela ou o anel de jade gigante no dedo. "Não tenho namorado ninguém. Pela primeira vez, estou procurando", diz Jane Fonda e desaba numa risada. Aí, o anel perde de goleada, os olhos parecem uma estrela supernova. Aos 68 anos, ela volta à cena atirando e botou o mundo todo de ouvido em pé para escutar o que tinha a dizer. E tinha muito, como revela sua autobiografia, "My Life so Far" ("Minha Vida até Agora"), lançada há pouco mais de uma semana nos EUA.
Seus segredos foram postos na mesa de todos os programas de entrevistas e canais e todos os jornais, de Larry King a David Letterman, Nancy Grace a Jay Leno, da NBC à CNN, do New York Post ao Los Angeles Times. O que provocou maior curiosidade das pessoas foi a confissão de que ela, nos anos 70, participou de orgias sexuais, por determinação do então marido, o cineasta Roger Vadim - que a dirigiu no clássico "Barbarella". "Às vezes havia três na cama, às vezes mais", lembra. No fim, parece brincadeira imaginar que alguém seria capaz de determinar algo para essa mulher. Tem opiniões fortes, deixa os jornalistas embaraçados com suas respostas - e parece fazer isso só por diversão. "O que a motivou a voltar ao cinema?", perguntou um deles. Ela respondeu na lata: "Além do dinheiro, você quer dizer?", e deu outra gargalhada. Era só uma piada. Ela doou a maior parte do que ganhou com seu novo filme, "Até Que a Sogra nos Separe" (que estréia no Brasil em 3 de junho), para uma instituição de Atlanta, onde vive. Dinheiro é algo de que Jane não sente falta, porque tem de monte. Jane Fonda respondeu a algumas perguntas de Spoiler em Los Angeles: SPOILER: Quando se deu conta de que tinha problema de identidade? Jane Fonda: Bem, eu não perdi minha identidade em público. Foi uma coisa dolorosa, que se arrastou por todos os meus três casamentos. Passei minha vida tentando agradar aos homens, em vez de agradar a mim. Sabe aquele jeito que as mulheres fazem para convencer a si mesmas? 'Vou fazer isso funcionar! Tudo está bem, tudo está bem!' A pessoa mente para si e engole a agonia. Em meu casamento com Roger (Vadim), eu trazia outras mulheres para minha cama porque não podia me imaginar vivendo sem ele. Quando eu fiz 50 anos, cheguei à conclusão de que tinha um saldo negativo na vida e que devia fazer algo a respeito disso. SPOILER: Escrever o livro ajudou a sra. a melhorar isso? Jane: Sim. Não estou mais vazia, voltei para dentro de mim mesma. Escrevi porque me dei conta de quão longe eu tinha ido na traição ao que meu coração sentia, e é por isso que estou contando tudo a vocês agora. No fim da vida, o que tenho mais medo é dos arrependimentos. Não tenho medo da morte. Não tenho medo das coisas feitas, mas de não ter feito o que queira. Não quero morrer com esse peso. SPOILER: Após 15 anos afastada do show biz, a sra. voltou com um livro, um filme, está sendo procurada para centenas de entrevistas. É como uma fênix renascendo das cinzas? Jane: As cinzas eu deixei para trás há cinco anos, quando comecei a escrever meu livro. É um renascimento, mas não começou agora. SPOILER: Nesse novo filme, a sra. faz uma sogra terrível. Já foi uma sogra repulsiva com seus filhos? Jane: Nunca fui sogra. Mas todas as pessoas que viveram com meus filhos eu tratei sempre com respeito. Minha primeira sogra tinha 95 anos e aprendi muito com ela. Quando me apresentaram esse personagem, eu achei que vinha a calhar para meu retorno, era perfeito. SPOILER: Seu casamento com Ted Turner acabou há algum tempo. Está namorando de novo? Jane: Não tenho encontrado ninguém. Estou procurando, pela primeira vez. Não é que a pessoa que eu encontrar vá conhecer uma nova Jane Fonda. Eu aprendi que, numa nova relação, não se pode começar do zero. Você tem de trazer tudo que você já foi para a mesa. SPOILER: Ainda fala com Ted Turner? Jane: Sim, claro, somos grandes amigos. Ele ligou para dizer que tinha assistido ao Letterman e não concordava com algumas das coisas que eu dissera sobre ele. Rimos a respeito. SPOILER: A sra. disse que sua personagem, a sogra terrível Viola, foi inspirada em Mae West, sua avó e Ted Turner. Por que Turner? Jane: Ele é a única pessoa no mundo que se desculpava mais do que eu. Parece durão, mas há uma grande tristeza por baixo daquela casca. Viola é assim também. SPOILER: Agora que voltou aos filmes, a sra. pretende fazer outros? Jane: Estou muito diferente do que era 15 anos atrás. Mas não sei se terei outro personagem tão divertido como Viola. Também não tenho ofertas ainda. SPOILER: Quando a sra. descobriu que podia atuar? Jane: Foi por conta própria, observando pessoas atuando. Meu pai (Henry Fonda) jamais encorajou Peter (Fonda) ou a mim. SPOILER: Como a sra. se define? Jane: Eu sou, essencialmente, uma ativista social. Meu livro foi escrito para repor a minha verdade pessoal, mas também para ajudar mulheres a não terem medo de serem fortes. SPOILER: A sra. acredita em destino? Jane: Não. Acho que todos nascemos com potencial. A oportunidade é a sorte encontrando o preparo. Temos de nos preparar para o momento em que a sorte aparece. Fazemos nosso próprio destino. Atuação dá sentido às piadas de sograUm advogado liga para seu cliente no outro lado do Atlântico. 'Sua sogra morreu esta noite. O sr. quer que a gente enterre o corpo ou faça uma cremação?' O cliente responde: 'Não vamos brincar com a sorte: faça os dois.' E você sabe qual é a pena máxima para o crime de bigamia? Ter duas sogras. Todas as piadas de sogra passam a fazer sentido com a performance de Jane Fonda em "Até Que a Sogra nos Separe" (Monster-inLaw). Fazia 15 anos que ela não estrelava um filme, mas a mulher está simplesmente fora de controle. Calamity Jane é ela, e não aquela rapariga pistoleira do Velho Oeste. Lembra da Odete Roitman (Beatriz Segall)? Ela é pior. Lembra da Adma (Cássia Kiss)? Ela é mais ardilosa. Lembra a Renata Sorrah na recém-finda novela das 8h? Ela é mais louca. Fazendo uma parceria impagável com a engraçadíssima Wanda Sykes (cujo personagem, Ruby, prepara martínis incansavelmente para a megera), Jane Fonda voltou com o pé no acelerador, dirigida por um cineasta (Robert Luketic, que usa cabelo moicano e anda de sandálias havaianas) 40 anos mais novo que ela - ele é o mesmo de "Legalmente Loira". 'Todo mundo achava que dirigir Jane Fonda e Jennifer Lopez seria como promover um concerto de Diana Ross e Barbra Streisand', diz Luketic. 'Mas elas não têm nada de divas, são profissionalíssimas.' Tudo começa com a personagem de Jane, Viola, jornalista vedetíssima que pilota um famoso talk-show na TV, uma espécie de Barbara Walters, sendo demitida. Rica, famosa, arrogante, ela vê seu mundo desabar. Sua última entrevista na TV é de matar de rir. Ela, prestes a ter uma crise histérica, encara uma sósia de Britney Spears, uma cantora adolescente que vendeu 20 milhões de discos, mas não sabe onde fica o nariz. Em dado momento, ela não agüenta mais as respostas estúpidas da moça e tenta esganá-la - detalhe: ao vivo. Depois de alguns meses numa clínica psiquiátrica, ela sai ´curada´. Quer rever o filhinho (Michael Vartan, do seriado Alias), tem planos para ele. Só que o gajo é um médico de 35 anos e está para se casar com uma mocinha que conheceu na praia (Jennifer Lopez, fazendo sempre o mesmo papel). Até vodu a mulher faz para separar o casal. Vestindo um guarda-roupas engraçadíssimo, que vai de ...E o Vento Levou a Noviça Rebelde, de Audrey Hepburn a Marilyn Monroe, Jane vai matar de rir o pessoal no cinema. É uma comédia que segue aquela fórmula de "Entrando numa Fria", com Robert de Niro, mas a diferença é o timing - além de uma atriz que volta com fome de atuar. ? Por Jotabê Medeiros, em Los Angeles 18.4.05
O leão que não vai mais rugirDepois de 81 anos, MGM declara falência e sai do ramo cinematográfico Já faz tempo, mas muitos ainda se lembram de que Stanley Donen (que completou 81 anos no dia 13) realizou "Cantando na Chuva"; que Cyd Charisse fez loucuras com suas longas pernas naquele filme, assim como em "A Lenda dos Beijos Perdidos", "A Bela do Bas-fond" e "Meias de Seda"; que Elizabeth Taylor emprestou seus olhos violetas e seus cabelos pretos para testes de Technicolor; e que houve outras estrelas como Debbie Reynolds, Margaret O´Brien (que esmagou o homem de neve depois de Judy Garland ter cantado Have Yourself a Merry Little Christmas), e muito mais, sem esquecer do Mick, o senhor Rooney - salve, espírito jovial - que percorreu toda a escala, de Puck, em "Sonho de uma Noite de Verão", a "O Assassino Público n.º 1".
Eu sei, esses dois últimos filmes não foram considerados da Metro-Goldwyn-Mayer, mas ninguém é perfeito, e Mickey Rooney era o garoto americaníssimo em seu estúdio doméstico, que finalmente saiu do ramo cinematográfico na semana passada com sua aquisição pela Sony e por um grupo de investidores por cerca de U$ 5 bilhões. A morte dessa instituição, a MGM, foi anunciada muitas vezes ao longo de seus 81 anos de história. Em 1936, quando o menino prodígio Irving Thalberg morreu, houve quem dissesse que ela jamais seria a mesma. Mas foi, para o bem e para o mal. Thalberg amava Lon Chaney e Norma Shearer. Ele incentivou os Irmãos Marx, mas pôs canções em seus filmes, e cortou quase quatro quintos de Ouro e Maldição, o ambicioso épico de 10 horas de Erich von Stronheim. Meninos prodígios são freqüentemente meninos que ficam imaginando como podem levar a melhor. Aí Louis B. Mayer, a figura paterna, chefe e adversário secreto de Irving, foi demitido em 1951 depois de chefiar a operação da Costa Oeste desde 1924, o mais alto salário dos Estados Unidos, amigo de presidentes e o mais genuíno e constante ator no estúdio. O que isso significava? Que ele percebeu que estava vivendo num filme o tempo todo. Ele era, como dizem, um homem que bebia seu próprio álcool e jamais percebia que estava bêbado. Por 20 anos ou mais, a MGM pareceu o velho lugar, resistindo, refilmando um grande hit do passado, "Ben-Hur", refazendo "Núpcias de Escândalo" como "Alta Sociedade", e pondo a cabeça de leão em "Doutor Jivago", "2001: Uma Odisséia no Espaço" e "Zabriskie Point". Mas, em 1969, o financista Kirk Kerkorian comprou o estúdio. Ele acabaria gravando as três grandes iniciais num bunker esmeralda em Las Vegas. Ele reduziu a produção de filmes, organizou uma venda de propriedades do estúdio - bagatelas como o sapatinho vermelho de Dorothy, nada de partir o coração - e teria queimado um grande volume de papéis (a história de nossa história) para fazer espaço. Em 1985, Kerkorian possuía a MGM e a United Artists, e Ted Turner subseqüentemente comprou o pacote dele para poder possuir a coisa que talvez mais amasse no mundo, "E o Vento Levou", e assim ter os direitos de vídeo à biblioteca da Metro. Despojada desses ativos, a propriedade reduzida e cada vez mais esfrangalhada voltou para Kerkorian. Giancarlo Parretti foi o proprietário seguinte, e, depois, em 1993, a Sony comprou a propriedade de Culver City, o que quer dizer, os estúdios de gravação, o edifício Thalberg, a colunata grega do Bulevar Washington e todo o sentimento que fora deixado. Três anos depois, o obstinado Kerkorian voltou à carga, mais velho e com menos idéias em cada volta. Agora, a coisa toda pertence a algumas companhias de investimento e à Sony. Para ajudar no pagamento da compra, o pessoal será reduzido de 1.500 para 200. Nada será deixado além de algumas poucas pessoas para operar uma pequena biblioteca, e as memórias de pessoas como Mick. À medida que os estúdios se transformam em bibliotecas, e os filmes se transformam em digitais, o cinema - as grandes coisas que já fizemos - parece fadado a se tornar experiências miniaturizadas, com tomadas externas, finais variados e diretores que se lembram de como eles eram inteligentes. Não que a MGM tenha sido o melhor estúdio, embora tenha se saído melhor que a maioria em matéria financeira. Ele nem sempre foi tão ousado quanto a Warner Brothers, a Paramount ou a RKO. Gostava de projetar uma visão muito segura, conservadora, da imaginação americana. E podia trapacear: embora reivindicasse "E o Vento Levou" como um filme da MGM, aquela coisa imensa se deveu à obsessão de David O.Selznick, que teve toda razão de ficar longe de Mayer (o homem que também era seu sogro). Obsessão criativa não era mesmo a coisa da Metro, e o estúdio só tirou "E o Vento Levou", enfim, da loucura de Selznick e por um conjunto de acordos secretos feitos pela exmulher de Selznick (e filha de Mayer). Foi um assunto familiar, razão de sobra para não se ficar demasiado sentimental sobre ele. Por outro lado, é o estúdio onde King Vidor dirigiu Judy Garland cantando Over the Rainbow e, depois, quando idiotas acharam a canção muito triste, Mayer disse: 'Deixem no filme.' Foi o estúdio que lançou pelo menos duas horas de Ouro e Maldição, e Monstros (que de algum jeito passou sem ser percebido), "Agora Seremos felizes", "América" (um filme espantosamente belo de 1944, de novo de King Vidor), além de boa parte de Buster Keaton, "O Vento" (com Lillian Gish), "A Roda da Fortuna", "Intriga Internacional", "David Copperfield" (aquele com W. C. Fields como Micawber), todo Garbo, a maior parte do Gable, "A Loja da Esquina", de Fred Zinnemann, "Ato de Violência", Fred Astaire cantando By Myself e dançando no teto e - bem, vocês os conhecem, façam sua própria lista. Essa empresa foi criada por pessoas que fugiram da Europa Oriental com pouquíssima educação e um desejo admirável de serem bons americanos. Se esse foi uma esperança ilusória ou um sólido ideal ainda é uma questão em aberto; pode ser relevante respondê-la dizendo que a indústria cinematográfica em Los Angeles ainda não tem seu próprio grande museu. A Academy of Motion Picture Arts and Sciences está cuidando disso neste momento. Mas há quem diga que o cinema foi passageiro. Ele veio, ele foi, como "O Vento". Se você esteve lá no tempo certo jamais esquecerá. Mas você será esquecido. Quanto a se transformar a memória numa instituição, talvez a idéia sempre tenha sido demasiado frágil. É como A"gora Seremos Felizes", em que Margaret O´Brien ouve sua irmã Judy cantar o mais belo blues de Natal de todos os tempos, e depois corre para o jardim e destrói seu homem de neve num acesso de fúria. E você percebe, a família dela estava planejando sair da cidade, e ela imaginava que jamais poderia voltar para casa? Por David Thomsom - New York Times 17.4.05
Fernanda Montenegro quer participar do Festival de Cannes A atriz brasileira Fernanda Montenegro, convidada de honra do Festival de Cinema brasileiro de Paris, inaugurado no dia 14 de Abril, espera participar, em maio próximo, do Festival de Cannes, com seu último filme, "A Casa de Areia", do diretor Andrucha Waddington.
Em entrevista à SPOILER, Fernanda Montenegro afirmou que o filme está esperando a decisão do Festival de Cannes (que se realiza de 11 a 22 de maio), cuja seleção oficial será anunciada na próxima terça-feira. "Se for selecionado, voltarei à França, porque o reconhecimento dos grandes festivais mundiais é uma forma de ganhar reconhecimento no nosso próprio país, mas também é o reconhecimento no exterior da nossa capacidade de fazer um bom cinema", afirmou. "Para mim estar neste Festival de Paris é algo comovente porque me dou conta de que sou uma atriz de cinema", acrescentou, com humildade, a grande dama do teatro brasileiro, que divide as honras do Festival de Cinema Brasileiro de Paris com outro veterano, o ator Paulo José. "Sempre fui uma mulher muito voltada para o teatro. De vez em quando me chamavam para fazer um filme. Mas depois de tantos anos me dou conta de que tenho uma participação importante no cinema brasileiro", continuou, enumerando alguns dos filmes em que atuou, como "A Falecida", "Olga", "Tudo bem", "Eles Não Usam Black-tie" e "Central do Brasil". "Este ano fiz quatro filmes, por isso estou aqui com grande prazer", destacou, reforçando que "o cinema brasileiro tem suas próprias características, seu estilo próprio. É uma forma de fazer que faz com que um filme brasileiro seja imediatamente reconhecido, como acontece com o cinema iraniano", explicou. Sobre sua filmografia, a atriz revelou não ter preferência por nenhum dos filmes em que atuou, mas sim por cenas que considerou marcantes. "Em 'A Falecida', o banho da personagem; em 'Eles não usam Black-tie', a cena final, quando a mulher fica sozinha com o marido, em 'O Outro Lado da Rua', a cena na mesa quando a personagem pergunta se ele (o personagem Camargo, interpretado por Raul Cortez) matou ou não a mulher, em 'Central' (do Brasil), a leitura da carta e o momento em que a mulher decide partir com o menino...", lembrou. Fernanda, que tem sido comparada com grandes nomes do cinema internacional, como Giulietta Masina e Bette Davis, mostrou-se reticente diante destas comparações. "Eu explico isto dizendo que como somos países cuja tradição artística não é conhecida por todos, quando têm a oportunidade de conhecer nosso trabalho, buscam uma referência em sua própria tradição. Em cada país, para falar de uma mulher de quem não sabem nada, buscam uma referência para esta desconhecida", disse. "Eu admiro muito essas atrizes, mas eu tenho outra formação, outra língua, outra condição, outra tradição artística. Não digo que não goste da comparação, mas simplesmente que sou outra coisa", emendou. A atriz rejeitou também o rótulo de melhor atriz do Brasil. "Somos um país de grandes atrizes e de grandes atores. Se não tivesse acontecido comigo, teria acontecido com outra atriz, há muitas no Brasil", reforçou. "Alguém me disse que a América do Sul é um continente esquecido. Isto me tocou muito fundo, mas é verdade. Para os outros, é um continente estranho, pitoresco, mas esquecido. E no entanto cada país do nosso continente tem uma força criativa muito grande na literatura, na arte, no teatro e também no cinema. Apesar disso, quando conseguimos cruzar a fronteira e conseguir com que todo o mundo nos reconheça, nos parece quase um milagre", comentou. Evocando a possibilidade de trabalhar no exterior, a atriz declarou: "Se tivesse um bom projeto, aceitaria. Depois da indicação ao Oscar me fizeram várias propostas, mas se tratava de interpretar uma iraniana, uma chilena, uma salvadorenha ou uma norte-americana. Eram papéis bons, mas não vejo porque não convidar uma atriz chilena ou mexicana para fazer estes papéis. Se eu tivesse que interpretá-los, não seria natural, teria que falar com um sotaque que não me corresponderia". "Não é que esteja esperando pelo 'grande papel', mas por um papel que corresponda ao que eu posso fazer bem", concluiu. Cinema nacional a todo vapor: A produção de filmes brasileiros deve bater recordes neste ano. Saiba antes o que será lançado até o final de 2005O cinema brasileiro viveu uma atividade intensa em 2004. Desde meados de 1995, quando houve a retomada das produções nacionais de grande escala, não se produziam tantos filmes no país. O ano passado é motivo para comemoração: no total foram 48 longas, número que não era visto desde 1988. É o triplo do que chegou às telonas em 2003, ano marcado pelo estrondoso sucesso de "Carandiru". Os documentários e biografias foram os gêneros de maior destaque e, segundo estimativas, 14% do que foi arrecadado nas bilheterias foi para longas nacionais. As leis e projetos de incentivo à produção nacional projetam números otimistas para 2005. O Ministério da Cultura já autorizou a produção de 357 filmes, além dos que estão em fase de finalização, edição ou apenas esperando para chegar ao circuito comercial. O ano provavelmente terminará com mais um recorde de estréias. Curioso para saber o que está no forno para 2005? SPOILER preparou um especial com dicas sobre as principais novidades. Astros e estrelas como Ana Paula Arósio, Dan Stulbach, Lázaro Ramos, Juliana Paes e Maria Fernanda Cândido são presenças garantidas nas telonas. Confira! "Mais uma Vez Amor" Dan Stulbach e Juliana Paes estão nesta adaptação da consagrada peça de teatro. O filme conta a história de um casal que, após 25 anos e muitos encontros e desencontros, continua apaixonado. Eles chegaram a se casar com outras pessoas e levar vidas separadas, mas o incontrolável destino sempre fez com que a dupla se reencontrasse ao longo do tempo. A direção é de Rosane Svartman. Previsão de estréia: 22 de abril. "Casa de Aréia" Uma das mais esperadas do ano, a estréia de Casa de Areia está prevista para 13 de maio. Fernanda Montenegro e sua filha Fernanda Torres se encontram na tela grande para viver o drama de uma família nordestina. Eles compram terras inférteis e precisam lutar contra o imenso areal e dunas que mudam a paisagem o tempo todo nos Lençóis Maranhenses. Dirigido por Andrucha Waddington, o elenco conta ainda com Ruy Guerra, Seu Jorge, Stênio Garcia e Luiz Melodia. "Filhas do Vento" Produção nacional ambientada no Estado de Minas Gerais. Curiosamente, o longa reúne o maior elenco negro da história do cinema brasileiro e conta com intérpretes como Ruth de Souza, Léa Garcia, Milton e Maurício Gonçalves, Taís Araújo, Thalma de Freitas, Elisa Lucinda e Kadu Carneiro. O filme mostra a saga de uma garota que se muda para a capital e faz grande sucesso como atriz. Décadas depois, ela retorna à sua cidade natal no interior devido à morte do pai. Lá, ela se depara com uma realidade muito diferente daquela que deixou para trás. Estréia de Joel Zito Araújo na direção de longas. O lançamento deve ocorrer em 29 de abril. "O Coronel e o Lobisomem" Baseado na obra de José Cândido de Carvalho, O Coronel e o Lobisomem ganha uma versão para o cinema com um elenco de peso: Ana Paula Arósio, Diogo Vilella e Selton Mello. A produção revela a trajetória do coronel Ponciano, que nunca conseguiu esquecer Esmeraldina, sua prima e amor desde a infância. Entre idas e vindas, ela sempre transforma sua vida monótona e solitária. Segundo a produtora, o filme chega aos cinemas em abril. "Vida de Menina" Com provável estréia no fim do ano, o filme foi premiado com seis Kikitos de Ouro no último Festival de Gramado e ainda arrebatou prêmios no Festival do Rio de 2004. Ambientado em Minas Gerais no século 19, o longa revela as pretensões, percepções e o cotidiano de uma jovem, interpretada por Ludmila Dayer. Daniela Escobar e Dalton Vigh também estão no elenco. "Sal de Prata" Com orçamento de R$ 4 milhões, o filme é de Carlos Gerbase, que também dirigiu Tolerância. No elenco estão Marcos Breda, Maria Fernanda Cândido, Camila Pitanga e outros rostos conhecidos do grande público. O enredo revela uma economista bem-sucedida que se apaixona por um cineasta fracassado. Um não se interessa pela vida profissional do outro, mas subitamente Cátia, a namorada, é levada para o universo do cinema e tenta desvendar alguns mistérios da sétima arte. O longa foi rodado entre julho e setembro de 2004 na cidade de Porto Alegre. O filme deve chegar às telonas no segundo semestre deste ano. "Gatão de Meia Idade" Alexandre Borges vive no cinema o personagem criado pelo cartunista Miguel Paiva. O longa retrata as desventuras e conquistas de um homem que vive a crise dos 40 anos. Mais uma vez, o ator trabalha ao lado de sua mulher, Júlia Lemmertz. O filme é ambientado no Rio de Janeiro e tem previsão de lançamento para setembro deste ano. "Cidade Baixa" No filme, dois malandros que vivem de um pequeno barco e de aplicar pequenos golpes dão carona a uma garota. Ela sonha em ir para Salvador, virar dançarina e conhecer um príncipe encantado estrangeiro. A vida do trio acaba se juntando, mas uma espiral de ciúmes e pequenas confusões pode acabar com a convivência deles. A direção é de Sérgio Machado e no elenco estão os jovens consagrados Wagner Moura (foto) e Lázaro Ramos. A previsão de estréia é 4 de novembro. 15.4.05
Matthew McConaughey vive alter ego em Dirk PittAtor reencontra sucesso com "Sahara", líder nas bilheterias dos EUA Matthew McConaughey começou a namorar Penelope Cruz depois de trabalhar com ela em "Sahara", mas o filme de ação e aventura também o apresentou a outra pessoa com quem ele gostaria de ficar um tempo --o personagem Dirk Pitt.
O ator de 35 anos diz esperar que o cientista que "sai no braço" e é caçador de tesouros, presente na série de romances campeões de vendas de Clive Cussler, se torne o seu papel definitivo. "Eu estava mesmo procurando por um cara renascentista como ele", diz McConaughey na cozinha de sua casa em Hollywood Hills. "Tudo o que eu havia lido antes, e que poderia render um possível personagem para uma série de filmes, ou era caipira demais, com lutas e correrias, ou então era careta e certinho demais, com heróis que não sujavam as mãos." Dirk Pitt é "filho de um senador, mas também um investigador das profundezas do mar", diz McConaughey. "Ele pode estar conversando sobre biologia marinha contigo ao meio-dia, e logo uma hora depois estar negociando lingotes de ouro com bandidos e piratas." Se ele quiser voltar à pele de Dirk Pitt, McConaughey terá que ter esperanças de que "Sahara" irá esquentar um relacionamento gelado dos produtores com Cussler. O autor, que também não gostou muito da adaptação feita por Hollywood em 1980 de seu romance "Raise the Titanic", concordou com os planos de se rodar "Sahara", mas em janeiro abriu processo para bloquear a produção de futuros filmes com Dirk Pitt, após se mostrar insatisfeito com mudanças no roteiro adaptado de sua história. "É bem sabido que essa não é uma das relações mais amáveis atualmente", diz McConaughey. "Mas espero que Cussler seja capaz de encarar a questão com objetividade. Eu acho mesmo que ele ficará feliz." O advogado de Cussler, Bert Fields, diz que autor está levando adiante o processo mesmo sem ter visto o filme. "É um processo muito doloroso para ele", diz Fields. Apesar disso tudo, "Sahara" é um projeto decisivo para McConaughey, que também é o produtor do filme. Ele já teve sucesso com comédias românticas ("The Wedding Planner - O Casamento dos Meus Sonhos", "Como Perder um Homem em 10 Dias"), mas também teve fracassos ( a comédia "EdTV" e o suspense com dragões "Reino de Fogo"). A estréia de "Sahara" já no topo da lista das bilheterias significa que o ator agora tem uma chance de reviver esse papel, se Cussler retirar sua queixa. McConaughey até mesmo disparou sua própria turnê promocional mambembe, de 39 dias. Ele visitou paradas de caminhoneiros nas estradas, balcões de lanchonetes, pontos turísticos e estacionamentos de trailers em parques. Sua casa de nômade era um trailer Airstream prateado, transformado em cartaz móvel para "Sahara". Durante as filmagens, McConaughey também era chegado a uns delírios. O diretor de "Sahara" diz que sua estrela, nas noites de folga, armava "uma fogueira no deserto, com uns tambores, alguma tequila e festinhas improvisadas". Tambores são a marca registrada de McConaughey. Em 1999, foi preso em sua casa em Austin, no Texas, enquanto tocava tambores tribais e dançava pelado. Um vizinho chamou a polícia por causa do barulho, e McConaughey chegou a passar algumas horas na cadeia, mas acabou resolvendo o problema do barulho pagando uma multa. Sua dívida com a sociedade foi paga, mas as piadas continuam. "O problema, pelo que eu entendi, foi devido à nudez e à música, e aos bongôs. Eram congas, também! Mas acho que 'bongôs' compõem uma cena um pouco melhor." Mas ele diz que aprendeu a lição: "Feche a janela, para não acordar o vizinho e ele não chamar a polícia." Namoros...Penelope Cruz não é a primeira co-estrela que Matthew McConaughey namora. Ele também namorou sua conterrânea do Texas Sandra Bullock, após trabalhar com ela em 1996, no filme "Tempo de Matar". Mas agora, diz McConaughey, as fagulhas começaram a brilhar depois que as câmeras pararam de rodar. "Não houve romance durante a produção do filme. Nós sequer pensávamos nisso", diz o ator. "Mas vamos considerar a mulher em questão --com ela é bem fácil encontrar algo para se sentir atraído. Ela seduz pelos olhos. Depois que encerramos o trabalho, queríamos continuar a sair, e foi daí em diante que o romance evoluiu." Por Anthony Breznican - USA Today 14.4.05
"Cabra-Cega" fala do idealismo nos anos de chumbo Não é de hoje que o cinema brasileiro se interessa pela luta armada que se opôs o regime militar. Filmes como "O Bom Burguês", "Pra Frente Brasil" e "O Que É Isso, Companheiro?" trataram de formas diferentes esse enfrentamento de forças tão desiguais. Mas "Cabra-Cega" talvez seja o primeiro deles a captar com exatidão o chamado "espírito da época".
Talvez essa virtude (porque a autenticidade é, sim, uma virtude cinematográfica) se deva à origem do projeto. Venturi contatou 40 ex-guerrilheiros e 11 deles concordaram em dar entrevistas, entre eles o atual ministro da Casa Civil, José Dirceu. Esses depoimentos forneceram material para o documentário "No Olho do Furacão", exibido pela rede Sesc e que será incluído como extra quando "Cabra-Cega" sair em DVD. O contato com o pessoal que havia de fato pegado em armas poupou Venturi de armadilhas fáceis, como achar que o "romantismo" da proposta envolvia gente ingênua. Pelo contrário, o diretor descobriu que aqueles jovens sabiam muito bem no que estavam se metendo e os riscos que corriam. Assim construídos, em acordo com os atores sociais entrevistados, os personagens da ficção puderam ser desenhados com uma veracidade que não se encontra nos filmes precedentes. A situação imaginada para esses personagens, Tiago (Leonardo Medeiros) e Rosa (Débora Duboc), caminha para a tragédia, pois a organização a que pertencem já está quase totalmente desestruturada. Foi uma fase em que a guerrilha não se preocupava mais em derrubar o regime, mas na simples sobrevivência física dos seus membros. Esse sufoco é reconstituído num huis clos no centro de São Paulo. Tiago foi ferido em ação, escapou, mas deve sumir do mapa, pois está "queimado", como se dizia daqueles marcados pela repressão. Esconde-se num "aparelho" e lá conhece Rosa, por quem se apaixona. Há evidente simpatia pelos personagens. E também por suas idéias, que precisariam ser melhor analisadas quanto ao seu realismo político. Mas aquela energia, a disposição em mudar o mundo mesmo que da maneira equivocada, violenta e com risco da própria vida, está lá, na tela. E de forma emocionada e com pegada jovem. O que é muito bom, pois é fundamental que os jovens de hoje saibam como eram e agiam alguns jovens daquela época. O filme é para eles, não para os nostálgicos. "Há muito para o cinema contar sobre a ditadura", afirma o diretorDurante a mostra competitiva do Festival de Brasília em 2004 o seu mais recente trabalho, o filme Cabra-cega, Toni Venturi falou de seu interesse pelo período da ditadura, das suas escolhas no filme (desde a linguagem empregada até o elenco) e da importância deste trabalho para a sua carreira: SPOILER: Como surgiu a idéia de Cabra-cega? Toni Venturi: Fernando Bonassi e Victor Navas desenvolveram o argumento, que vem de uma idéia do cineasta Roberto Moreira. Depois, passei o trabalho para o Di Moretti, que assina o roteiro. E, finalmente, durante a pré-produção, tivemos a assessoria e colaboração do jornalista Alipio Freire, ex-integrante da Ala Vermelha. Cinema é arte intermediada. Os profissionais e artistas aportam sua criatividade ao projeto estético e narrativo do diretor. O resultado é sempre surpreendente, é uma terceira coisa; cinema é alquimia, uma mistura de elementos. SPOILER: Você acha que o período da ditadura militar ainda é um assunto desconhecido pelos brasileiros? Toni: Muitas razões conspiram contra o entendimento desta difícil época que o Brasil viveu. Em primeiro lugar, se trata da história dos derrotados e, portanto, não tem a força da história oficial, que prefere apagar o período de nossa memória em vez de refletir sobre ele. Em segundo, é uma história de clandestinidade. As organizações, por questão de estratégia, estavam profundamente submersas, o que também foi um motivo de seu enfraquecimento. Em terceiro, o país vivia uma pesada censura nos meios de comunicação e sob o signo do medo, que pairava e pautava a vida de todos os brasileiros. Finalmente, o sofrimento dos que estiveram diretamente envolvidos e de suas famílias foi muito grande, na carne mesmo. Os militantes foram barbaramente torturados e humilhados, toda uma geração foi massacrada e as conseqüências disto são enormes: a quase totalidade das lideranças foi assassinada e muitos dos sobreviventes até hoje não querem falar, outros preferem esquecer e alguns até renegam. O projeto coletivo socialista foi derrotado e isto é difícil para os que se entregaram de corpo e alma a ele. SPOILER: Você acredita que este é o momento certo para mergulharmos neste período histórico (a ditadura militar) à luz do Governo Lula e, mais recentemente, do episódio das fotos de Vladimir Herzog? Toni: Um projeto de cinema tem um longo escopo de realização, em geral 3 anos. Cabra-cega começou em meados de 2001, quando ganhei o prêmio do MINC de filmes inéditos de baixo orçamento, ou seja, muitos meses antes do início da campanha presidencial que elegeu o Lula. Se o PFL tivesse ganhado as eleições, teria feito o mesmo filme. O cineasta não pode se pautar por modismos ou ondas. Isto é coisa da televisão e outros veículos de massa. Caso o filme entretenha as pessoas com qualidade de reflexão, terá cumprido sua função social. De qualquer maneira é interessante notar como o tema da ditadura militar tem se tornado cada vez mais contemporâneo. O episódio das fotos de Herzog, que depois ficamos sabendo que não são dele, trouxe à tona muita coisa e está provocando reflexos profundos. Por causa disso, integrantes da alta cúpula do Exército fizeram, de maneira pública, a defesa dos métodos da repressão, por meio de uma nota à imprensa. Por sua vez, esta publicação mobilizou o Ministério Público a pedir a abertura irrestrita dos arquivos do Exército referentes ao regime militar. Acredito que estamos começamos a enxergar as sombras da ditadura. Vivemos uma grande oportunidade de começar a tirar o passado a limpo e exorcizar estes fantasmas. Ao focar o período da repressão, acredito que Cabra-cega contribui para esta reflexão. Trata-se de um tema totalmente atual. SPOILER: O cinema tem uma série de produções voltadas ao tema. Pra frente Brasil, O que é isso companheiro? Ação entre amigos e Baseado em histórias reais (curta) são algumas delas. Você acha que ainda há muito que se falar sobre ditadura dentro da linguagem cinematográfica? E qual espaço Cabra-cega ocupa nisso? Toni: Creio que a literatura e o cinema ainda têm muito que falar sobre a ditadura, como também sobre todos os outros períodos de nossa sanguinolenta história. Parece-me que temos dificuldade de olhar para nós mesmos, por que aí vemos como realmente somos e isto é assustador. Quantas centenas de filmes assistimos sobre a conquista do velho oeste, a segunda guerra mundial ou sobre a corrupta polícia de Nova York? O que sabemos sobre a heróica ou vil história dos militantes da luta armada brasileira? Quase nada. A trama de Cabra-cega é só mais um recorte sobre esta saga e com uma única pretensão: não apresentar os guerrilheiros de forma unidimensional. Tentei escapar da caricatura. Meus personagens são de carne e osso, com fraquezas e virtudes, mas tudo, menos ingênuos. Sabiam o que estavam fazendo e foram muito corajosos. Pagaram caro pelas suas opções, mas sonhar não é pecado. SPOILER: Em "O Velho, a História de Luiz Carlos Prestes", você trabalha com fatos reais - afinal, é um documentário. Como foi abordar uma temática similar no universo da ficção? Toni: Em O Velho, a história de um homem que à frente do PCB criticou ferozmente a opção da luta armada, este período foi tratado com muita superficialidade, o que é lamentável, mas a estrutura do filme não permitia uma maior profundidade. Fiz um documentário para a TV, No Olho do Furacão, junto com o cineasta Renato Tapajós, em que resgatamos o cotidiano dos jovens guerrilheiros dos anos 60/70. Este sim faz jus ao período e serviu de pesquisa para o roteiro de Cabra-cega. SPOILER: Há algum personagem ou fato inspirado em alguém/algo que realmente existiu na época? Toni: Literalmente não, mas os livros e minha relação pessoal com o Carlos Eugênio Paz, codinome Clemente, o único dirigente da ex-ALN que não foi morto ou preso e hoje vive no Rio, foi uma das principais fontes para a criação do personagem principal, Tiago, interpretado pelo ator Leonardo Medeiros. SPOILER: O release diz que o filme é voltado para o público jovem. Como você trabalhou para alcançar essa faixa, existe alguma particularidade para atrair os jovens? Toni: Gosto de contar história para pessoas que apreciam a aventura cinematográfica e procuram algo mais que o filme convencional e formular. O jovem é um ser inquieto, rápido e cognitivo. Procurei fazer um filme assim. Vamos ver se alcancei estes objetivos. SPOILER: Por que optou por câmera na mão? Quais outros recursos utilizados nas filmagens? Toni: Fazer um filme é fazer opções, de conteúdo e forma. As escolhas estéticas (e são milhares) são determinadas por questões objetivas e subjetivas. As racionais são pautadas pela profunda reflexão sobre o assunto, a história, a densidade dramática até o público que você quer atingir, os compromissos de mercado, etc. As invisíveis são as forças interiores que movem o autor a mergulhar sobre um projeto, que de antemão sabemos que exigirá um enorme esforço e empenho em todos os sentidos. Cabra-cega é um filme jovem por isso sua linguagem é mais ¿clipada¿. Mas a fragmentação representa também o interior estilhaçado do guerrilheiro que vê seu sonho desabar à sua volta. Nada pode ser gratuito em um filme, senão fica postiço. SPOILER: Fale um pouco sobre o elenco. Fora Jonas Bloch, pode-se dizer que os outros atores são pouco conhecidos do grande público, com passagens maiores em teatro e cinema. Toni: Leonardo Medeiros e Débora Duboc estão entre os mais talentosos atores paulistas da nova geração. Acompanho o trabalho deles no teatro à tempos. O Léo, em Lavoura Arcaica, é brilhante, como também a Débora no Latitude Zero. São atores que constroem personagens em vez de serem personalidades-atores que se auto-reproduzem a si mesmos. SPOILER: Você acha importante percorrer um grande número de festivais antes de entrar em circuito? Toni: Depende do filme e da estratégia de cada produtor. Foi bom para o Latitude Zero, ainda não sei se será para o Cabra-cega. De qualquer maneira, estamos apresentando o filme pela primeira vez no Festival de Brasília e já temos data para lançá-lo: abril de 2005. SPOILER: Atualmente, qual a maior dificuldade para um cineasta brasileiro? Toni: Para o cineasta/produtor independente a maior problema é reunir as condições financeiras de realização de um projeto. Por isso, estamos lutando para a criação de uma agência reguladora e desenvolvimentista (ANCINAV); um órgão gestor, que tenha fundos de fomento para todos os tipos de filmes e não fiquemos restritos à captação de recursos via as leis de incentivo fiscal. 13.4.05
Mitos, Deuses e MonstrosO cinema é um meio maravilhoso de mostrar a moda. Às vezes os modelos exageram um pouco, mas eu gosto de seus pequenos desempenhos! O drama enfatiza o movimento das roupas e...qual foi mesmo o show de Ngila Dickson e Richard Taylor....aquele com os gnomos? Ah..."Senhor dos Aneis"...é incrível! o figurino de Ngila foi ilustre. Senti que vestir roupas na Idade Média teria que ser assim mesmo...
Por Edna Moda, de "Os Incríveis", durante a cerimônia do OSCAR2005 ![]() Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte...E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em nós mesmos. Nesse ano, Spoiler vai homenagear essas pessoas: Mitos que fizeram de suas vidas, os nossos sonhos. Deuses que fizeram de seu trabalho, uma lenda. Monstros que fizeram da historia, uma arte... Parte 2: Figurinistas - A Arte de Vestir...100
Tim Chappel "Priscilla, a Rainha do Deserto" (1994) 99 Theoni Aldredge "O Grande Gatsby" (1974) 98 Sanzo Wada "As Portas do Inferno" (1954) 97 Roger Furse "Hamlet" (1948) 96 Nino Novarese "Cromwell" (1970) 95 Marcel Vertes "Moulin Rouge" (1952) 94 Lizzy Gardiner "Priscilla, a Rainha do Deserto" (1994) 93 Lindy Hemming "Topsy-Turvy" (1999) 92 Leah Rhodes "As Aventuras de Don Juan" (1949) 91 Julie Harris "Darling, a que Amou Demais" (1965) 90 John Truscott "Camelot" (1967) 89 Joan Bridge "O Homem que Não Vendeu sua Alma" (1966) 88 Janty Yates "Gladiador" (2000) 87 Gwen Wakeling "Sansão & Dalila" (1950) 86 Franca Squarciapino "Cyrano de Bergerac" (1990) 85 Emile Santiago "O Manto Sagrado" (1953) 84 Emi Wada "Ran" (1985) 83 Eiko Ishioka "Drácula, de Bram Stoker" (1992) 82 Deborah Scott "Titanic" (1997) 81 Catherine Martin "Moulin Rouge" (2001) 80 Bhanu Athaiya "Gandhi" (1982) 79 Antonio Castillo "Nicholas & Alexandra" (1971) 78 Angus Strathie "Moulin Rouge" (2001) 77 William Theiss "Esta Terra é Minha Terra" (1976) 76 Shirley Russell "Reds" (1981) 75 Ruth Myers "A Família Addams" (1991) 74 Ruth Carter "Amistad" (1999) 73 Richard Taylor "O Senhor dos Anéis" (2003) 72 Rene Hubert "Desirée, O Amor de Napoleão" (1954) 71 Ralph Jester "Os Dez Mandamentos" (1956) 70 Anthony Mendleson "A Incrível Sarah " (1970) 69 Maurizio Millenotti "Hamlet" (1990) 68 Mary Ann Nyberg "Nasce uma Estrela" (1954) 67 Denny Vachlioti "Nunca aos Domingos" (1960) 66 Bob Ringwood "Império do Sol" (1987) 65 Julie Weiss "12 Macacos" (1995) 64 Judy Moorcroft "Passagem para Índia" (1984) 63 John Jensen "Os Dez Mandamentos" (1956) 62 Joe Tompkins "Os Donos da Noite " (1989) 61 Irene Gibbons "Ser ou Não Ser" (1942) 60 Herschel McCoy "Quo Vadis?" (1951) 59 Anthea Sylbert "Chinatown" (1974) 58 Anna Hill Johnstone "O Poderoso Chefão" (1972) 57 Alexandra Byrne "Elizabeth" (1998) 56 Barbara Karinska "Joana D´Arc" (1948) 55 Yvonne Blake "Nicholas & Alexandra" (1971) 54 Arlington Valles "Spartacus" (1960) 53 Gabriella Pescucci "A Época da Inocência" (1993) 52 Elois Jenssen "Sansão & Dalila" (1950) 51 Theodor Pistek "Amadeus" (1984) 50 Elizabeth Haffenden "Ben-Hur" (1959) - "O Homem que Não Vendeu sua Alma" (1966) 49 John Mollo "Star Wars" (1977) - "Gandhi" (1982) 48 Cecil Beaton "Gigi" (1958) - "My Fair Lady" (1964) 47 Donald Brooks "Minha Adorável Espiã" (1970) 46 Miles White "O Maior Espetáculo da Terra" (1952) - "A Volta ao Mundo em 80 Dias" (1956) 45 Paul Zastupnevich "O Destino de Poseidon" (1972) 44 Bob Mackie "Dinheiro do Céu" (1981) 43 Ray Aghayan "Funny Lady" (1975) 42 Janet Patterson "O Piano" (1993) 41 Judianna Makovsky "A Vida em Preto e Branco" (1998) 40 Tony Walton "Mary Poppins" (1964) 39 Donfeld "A Honra do Poderoso Prizzi" (1985) 38 Morton Haack "Planeta dos Macacos" (1968) 37 Theadora Van Runkle "Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas" (1967) 36 Norma Koch "O que Terá Acontecido a Baby Jane?" (1962) 35 Edward Stevenson "O Jogo Proibido do Amor" (1960) 34 Marik Vos "Fanny & Alexander" (1983) 33 Ngila Dickson "O Senhor dos Anéis" (2001) 32 Piero Gherardi "A Doce Vida" (1961) 31 Phyllis Dalton "Doutor Jivago" (1965) 30 Orry-Kelly "Quanto Mais Quente Melhor" (1959) 29 James Acheson "O Último Imperador" (1987) 28 Moss Mabry "Assim Caminha a Humanidade" (1956) 27 Vittorio Nino Novarese "Cleopátra" (1963) 26 Marjorie Best "Dez Passos Imortais" (1960) 25 Billy Travilla "Aventuras de Don Juan" (1949) 24 Ann Roth "O Paciente Inglês" (1996) 23 Howard Shoup "Rebeldia Indomável" (1967) 22 Piero Tosi "A Gaiola das Loucas" (1979) 21 Patricia Norris "O Homem-Elefante" (1980) 20 Renie Conley "Cleopátra" (1963) 19 Colleen Atwood "Chicago" (2002) 18 Danilo Donati "Casanova de Fellini" (1976) 17 Albert Wolsky "All That Jazz" (1979) 16 Margaret Furse "Ana dos Mil Dias" (1969) 15 John Bright "Razão e Sensibilidade" (1995) 14 Gile Steele "Tarde Demais" (1949) 13 Sandy Powell "Shakespeare Apaixonado" (1998) 12 Anthony Powell "Tess" (1980) 11 Mary Wills "O Diário de Anne Frank" (1959) 10 Milena Canonero "Carruagens de Fogo" (1981) 9 Jenny Beavan "Uma Janela Para o Amor" (1986) 8 Walter Plunkett "Sinfonia em Paris" (1951) 7 Bill Thomas "Spartacus" (1960) 6 Helen Rose "A Bela e a Fera" (1952) 5 Dorothy Jeakins "Sansão e Dalila" (1950) 4 Jean Louis "À um Passo da Eternidade" (1953) 3 Irene Sharaff "Amor, Sublime Amor" (1961) 2 Charles LeMaire "A Malvada" (1950) 1 Edith Head "Crepúsculo dos Deuses" (1950) - "Um Lugar ao Sol" (1951) - "Janela Indiscreta" (1954) - "Os Pássaros" (1963) e mais 35 Indicações ao Oscar de Figurino 12.4.05
Filmes de Hollywood sobre África ficam no clichêApesar de "Hotel Rwanda", o cinema ignora realidade do continente Quando estreou há cinco meses nos Estados Unidos, "Hotel Rwanda" conquistou críticas entusiasmadas, em especial pelos desempenhos de Don Cheadle e Sophie Okonedo. Chegou a receber três indicações ao Oscar e uma série de prêmios. Foi atribuída ao filme a intensa divulgação dos efeitos do genocídio de 1994, que matou cerca de 800.000 ruandeses, a maioria da etnia Tutsi.
O filme nitidamente surtiu grandes efeitos em muitos que o assistiram. Menos nítido é o efeito que despertou na indústria cinematográfica. Será que o impressionante sucesso de crítica irá inspirar ou despertar a culpa em cineastas americanos, que enfim se mobilizariam para criar narrativas sobre a África mais realistas do que já foi tentado no passado? Ou será que o modesto rendimento do filme nas bilheterias irá reforçar a lógica financeira que faz Hollywood criar clichês que envolvem o continente negro já há 70 anos? Dos filmes de "Tarzan" de Johnny Weissmuller, nos anos 30 e 40, e de "As Minas do Rei Salomão" nos anos 50, até os recentes filmes da "Múmia" estrelados por Brendan Fraser, os filmes de aventura ambientados na África sempre tipicamente foram estrelados por heróis brancos combatendo o mal em desertos vazios ou selvas superpovoadas. Em "Out of Africa" ("Entre Dois Amores") de Sydney Pollack ou em "White Mischief" ("Incontrolável Paixão") de Michael Radford, locais africanos forneceram cores românticas (quando não ameaçadoras) às aquecidas paixões dos deslumbrantes astros brancos. A África também já serviu como ponto de partida para comédias bem vulgares, mas de muito sucesso, como "Um Príncipe em Nova York" e "Ace Ventura: Um Maluco na África"; em ambas, a África parece um lugar cheio de tribos doidas e rituais de desenho animado. A animação da Disney "O Rei Leão", o mais bem sucedido filme americano ambientado na África, não chegava a contar com elenco de seres humanos. A relutância de Hollywood em dramatizar a África e toda a sua complexidade é sintomática de um problema maior. "Os estúdios encaram a produção de filmes para o grande público necessariamente como a produção de filmes estrelados por protagonistas americanos, ou no mínimo ocidentais", diz o produtor William Horberg, cujos créditos incluem "Cold Mountain" e "O Talentoso Ripley".
"Há muito poucos filmes em que os estrangeiros são os protagonistas e estão no centro moral da ação." Dito isso, o atual projeto de Horberg é uma adaptação de "The Kite Runner", romance sobre o Afeganistão que foi um sucesso nos Estados Unidos. Na atual primavera americana, Hollywood lança quatro filmes sobre a África. Em linhas gerais, esses filmes se conformam às convenções de praxe sobre o continente negro: dois são sobre animais, dois são aventuras. "Duma", de Carroll Ballard, sobre um garoto estudante que decide devolver à selva seu guepardo de estimação, será lançado em circuitos menores dia 29 de abril. O filme de animação "Madagascar", que estréia nos EUA no final de maio, mostra um leão (com a voz de Ben Stiller) e uma zebra (dublada por Chris Rock) na ilha que nomeia a obra. Já no "front" humano, o recém-lançado "Sahara" mostra Matthew McConaughey como um caçador de tesouros aquáticos que impede a propagação de uma peste mundial, derruba o criminoso ditador do Mali, descobre uma fortuna em ouro e rola pelas areias de uma praia paradisíaca nos braços de uma cientista vivida por Penelope Cruz. E em "A Intérprete", que estréia dia 22 de abril nos EUA [e em breve no Brasil], Nicole Kidman vive uma tradutora-intérprete da ONU cuja vida é colocada em risco quando ela escuta por alto o que o poderia ser uma ameaça de morte contra o governante do país africano onde a personagem nasceu. Essas descrições soam depressivamente familiares a Terry George, diretor de "Hotel Rwanda". "É o mesmo negócio de sempre", diz o diretor. "Protagonistas brancos, animais fofos, cenários do continente Negro e nada realmente incisivo sobre a política da região. Já disse isso: não se consegue fazer (em Hollywood) um filme sobre a África que não envolva animais ou gente branca tentando fugir."
("Hotel Rwanda" foi feito com financiamento britânico, italiano e sul-africano; somente após esse dinheiro ter sido investido na produção foi que a MGM, distribuidora do filme nos Estados Unidos, contribuiu com cerca de US$ 3 milhões.) E a produção de Hollywood pós-"Hotel Rwanda" pode não se aproximar nem um pouco do realismo, mas pelo menos sugere um esforço, embriônico é certo, para apresentar a África com um mínimo de respeito e sensibilidade. "Sahara", por exemplo, certamente se envolve em clichês desgastados pelo tempo, sobre aventureiros brancos na África. Mas seu diretor, Breck Eisner, diz que foi cuidadoso em não se render totalmente a eles. O filme tem um final diferente do romance "Sahara" de Clive Cussler, no qual se baseou --os heróis não são libertados por soldados da ONU comandados por americanos, mas sim por guerrilheiros Tuareg. Eisner diz que não quis "que os americanos chegassem e fossem os grandes libertadores do pedaço". Pollack, diretor de "A Intérprete", diz que os americanos estão cada vez mais conscientes dos problemas da África: líderes corruptos, crianças-soldados, cidadãos "desaparecidos". Essa consciência, segundo ele, que alavancou interesse para esse filme, mal existia em 1975, quando "Os Três Dias do Condor", outro suspense sobre conspirações, foi lançado, ou em 1985, quando "Out of Africa" estreou. "Talvez essa instabilidade tenha sempre existido em países emergentes da África", diz Pollack. "Mas do jeito que as notícias correm instantaneamente, e no planeta inteiro, 24 horas por dia, as pessoas estão terrivelmente conscientes do que acontece." Se for assim mesmo, fãs de cinema que levarem suas crianças para ver "Madagascar" ficarão coçando as cabeças. Como em "O Rei Leão", o filme não tem personagens humanos, embora a real ilha de Madagascar tenha 17,5 milhões de habitantes. "Não quisemos retratar necessariamente um lugar de verdade", diz Eric Darnell, diretor do filme. "E Madagascar desperta essas fantasias, assim como Shangri-La ou Bali Hai."
Nessa temporada de primavera nos EUA, a única tentativa de se aproximar da África sem o recurso da fantasia veio com o filme do veterano John Boorman estreado em março, "In My Country", drama ambientado na África do Sul pós-apartheid, que acontece durante as audiências da Comissão da Verdade e da Reconciliação. Com duas estrelas internacionais --Samuel L. Jackson e Juliette Binoche-- envolvidas no projeto, e várias indicações ao Oscar em seu currículo, Boorman tentou vender seu roteiro por toda Hollywood. Nem os maiores estúdios nem os independentes toparam contribuir com o filme, que Boorman acabou fazendo com US$ 7 mihões que conseguiu levantar na Europa. "Todos ouviram e ficaram animados enquanto nós lhes contávamos sobre o projeto", diz Boorman. "Todos eles disseram que o admiravam, mas daí, um ou dois dias depois, diziam que era um projeto maravilhoso, mas que não bancariam". Boorman diz que lhe falaram "que os americanos simplesmente não estão interessados na África". Se ele viesse a apresentar "In My Country" na Hollywood pós-"Rwanda", acredita que não se sairia melhor: "Eles provavelmente lembrariam que `Hotel Rwanda' não faturou muito. E `In My Country' também não faturou muito. Então eles provavelmente diriam que estavam certos." Mas Edward Zwick, que dirigiu "O Último Samurai", bem-sucedido épico sobre o Japão no século 19, agora está com as atenções voltadas para a África. "Blood Diamond" ("Diamante Sangrento"), cuja produção começará no próximo outono americano, é ambientado em plena revolução em Serra Leoa no final dos anos 90. No centro da trama está um fazendeiro africano que oscila numa guerra entre um traficante de diamantes americano e o cartel corrupto que controla a indústria de mineração em Serra Leoa. Zwick diz que teve a intenção de dramatizar "as circunstâncias sociais e políticas, além das várias forças que estavam literalmente estilhaçando o país". Se ele for bem sucedido, e o filme vender ingressos, ele merecerá crédito por finalmente dar a Hollywood uma razão para fazer mais filmes realistas sobre a África --a razão do lucro. Por Ed Leibowitz - New York Times 11.4.05
Christopher Lee veste nova capa de vilãoUm dos mais célebres intérpretes de Drácula, ator vive Darth Tyranus em Star Wars: Episódio 3, de George Lucas Impossível não sentir um calafrio quando, do outro lado da linha, uma voz rouca mas ainda carregada de mistério anuncia: 'Aqui quem fala é Christopher Lee.' Ele está em Londres e o principal assunto da entrevista à Spoiler é sua participação em Star Wars: Episódio 3 - A Vingança dos Sith, último episódio da saga de George Lucas que tem estréia mundial prevista para 20 de maio. Mas o britânico Lee entrou para a história do cinema como um dos mais conhecidos intérpretes do Conde Drácula, inspirado na obra de Bram Stoker. Os olhos ligeiramente arregalados, caninos afiados à mostra e a voz soturna tornaram-no um símbolo dos filmes de terror. 'Foi importante, mas também fiquei preso ao personagem durante muitos anos', conta o ator, que completa 83 anos em maio.
Lee, de fato, é uma instituição - com a morte de Lon Chaney, seu filho Jr., Bela Lugosi, Boris Karloff, Vincent Price, Peter Cushing e John Carradine, ele permanece o único sobrevivente da elite dos filmes de horror clássicos. Vestiu a capa preta pela primeira vez em 1958 com O Vampiro da Noite, produção barata típica dos estúdios Hammer, dirigido por Terence Fisher. 'Foi o papel que me empurrou para a fama,' recorda Lee, que reprisou o personagem do Drácula em seis seqüências inferiores da Hammer. Apesar de marcado pelo personagem, Lee, nomeado Sir pela rainha da Inglaterra, já atuou em 223 filmes, interpretando nomes das artes (o detetive Sherlock Holmes) e da política (o líder paquistanês Mohammad Ali Jinnah), consolidando uma carreira diversificada. Mas foi a imagem do mal personificada pela sua figura altiva e esguia que convenceu o diretor e produtor George Lucas a convidá-lo a interpretar um novo vilão, Darth Tyranus, para a série Guerra nas Estrelas, saga cujo novo filme já mantém alguns aficionados acampados à frente do Chinese Theatre, em Los Angeles, à espera da estréia que só acontece dentro de 40 dias. Sempre interessado em novidades (já personificara o mal em O Senhor dos Anéis), Lee aceitou bem o papel, como conta a seguir. Spoiler: Como tem sido participar da saga Guerra nas Estrelas? Christopher Lee: Minha carreira nunca parou, ao contrário do que pensam alguns. Além de Drácula, fiz faroeste, trabalhei com Billy Wilder (O Irmão mais Esperto de Sherlock Holmes), fui um dos Três Mosqueteiros, atuei como vilão contra James Bond (007 contra o Homem da Pistola de Ouro), participei também de O Senhor dos Anéis e continuo agora com Guerra nas Estrelas, que me deu muito prazer. Trabalhar com George Lucas é muito divertido, pois ele é 'tranqüilo' (fala em espanhol) e, algo essencial para um diretor, tem toda a história na cabeça - a trama não vem de um livro, mas é criada totalmente por ele, o que é raro no cinema. Spoiler: Foi possível se divertir em um filme carregado de efeitos especiais? Lee: Sim, muito, muito. Foi isso que me convenceu a voltar a filmar com Lucas. Ele me ligou da Austrália e fez o convite. Aceitei logo. A diversão, atualmente, é o melhor que se pode tirar de uma filmagem, especialmente nos dias de hoje em que o mais importante parecem ser as cifras que o filme vai render. Spoiler: É preciso muito humor para trabalhar em épicos como Guerra nas Estrelas e O Senhor dos Anéis, não? Lee: Oh, of course, basta ter senso de humor. O que acontece é que, durante uma filmagem, raramente o elenco trabalha todo junto, daí a necessidade de um bom ambiente. Entre meus diversos longas, lembro-me de um em que eu não mantinha contato com uma atriz, apenas diante das câmeras. Tenho certeza que, até hoje, é possível perceber como nossas interpretações não foram mais que medianas por conta desse relacionamento frio. Spoiler: Em sua carreira, qual foi a melhor qualidade que o senhor conseguiu desenvolver? Lee: Acho que a imaginação. É preciso ter muita imaginação quando se trabalha no cinema, pois, durante o processo, é impossível você visualizar como será o resultado. Desde criança, sempre criei muita fantasia e mesmo hoje, já adulto, continuo com essa atividade. É necessário desenvolver a habilidade para 'ver' filmes dentro da mente. Spoiler: Os vilões que o senhor interpretou em Guerra nas Estrelas e O Senhor dos Anéis ofuscariam, de uma certa forma, aqueles vilões que o senhor viveu nos anos 1950 e 60? Lee: Não diria eclipsar, pois são gerações diferentes. Na época em que comecei, éramos conhecidos apenas pelo público que freqüentava os cinemas. Hoje, o jovem que acompanha Guerra nas Estrelas e O Senhor dos Anéis tem outras opções, como o DVD, o vídeo e mesmo a televisão. Assim, os filmes da minha geração ganharam o selo ´clássico´, o que é bom pois consigo ser conhecido em qualquer parte do mundo tanto pelo que faço hoje como pelo meu passado. Spoiler: Qual a principal mudança no cinema de hoje em relação ao tempo em que o senhor começou? Lee: São vários fatores. Hoje, temos tanto filmes raros como O Senhor dos Anéis e Guerra nas Estrelas como aqueles que consomem fortunas na produção mas são fracasso de bilheteria. Daí surge uma das diferenças básicas: o elenco. Um ator ou uma atriz jovem que não tem talento mas exibe qualidades físicas, ou que não constrói uma carreira pelo estudo mas tem uma boa retaguarda publicitária, conquista logo o sucesso. Na minha opinião, poucos escapam dessa fórmula e um deles é Johnny Deep, o melhor ator de sua geração. Ele não teme nenhum papel e resgatou minha fé nos atores. Spoiler: E os filmes de terror de hoje em dia? Lee: Não gosto, apesar das exceções. Faz tempo que não tenho vontade de ver nenhum, pois apresentam um problema grave: exibem descaradamente tudo, mesmo que seja algo nojento. Isso não é necessário. E a fórmula clássica ainda vale: o que provoca medo é o que não se vê e não o que é explicitamente exibido. Daí até hoje alguns filmes, como Psicose e O Bebê de Rosemary, serem ainda cultuados. Afinal, são apavorantes sem mostrar quase nada. Isso acontece também com os atuais filmes de guerra, que adoram mostrar pessoas estraçalhadas. Não há espaço para imaginação. Spoiler: Que lembranças o senhor ainda tem de Drácula? Lee: Claro que foi um personagem muito importante para mim. Afinal, todo ator necessita de um papel que o projete e o conde fez isso por mim. Ao mesmo tempo, há o outro lado da moeda: o ator se transformar em refém de um personagem famoso. Por mim, eu não teria feito mais que duas vezes o papel de Drácula, mas fiz o primeiro há 46 anos e o último há 31. E só o repeti porque os executivos dos estúdios Hammer diziam que, se eu não fizesse, iria desempregar muita gente. Spoiler: Que lembranças o senhor ainda tem do Brasil? Lee: Estive no Brasil há muitos anos, há 40 anos. Não fui a São Paulo, mas sim ao Rio e a Petrópolis, que me impressionaram. Também vi um filme brasileiro, "O Cangaceiro", que prendeu muito minha atenção. Gostaria de ter visitado também Mato Grosso e Belém, que acredito serem muito interessantes. Mesmo tendo ido pouco a seu país, estudei muito sobre sua geografia e sobre seu povo. Hoje, consigo até ler jornais brasileiros, pois o português se assemelha ao espanhol, língua que entendo. Certa vez, em um filme para televisão, eu tinha algumas falas em português, que eram o seguinte (fala com ligeiro sotaque): 'Meu capitão, dá licença. Os europeus aportarón no canal e fecharón os portões. Não posso sair.' Espero que isso faça algum sentido para você. Nunca me esqueci dessas frases... Por Ubiratan Brasil - Estado de São Paulo SPOILER ESPECIAL: It´s All True 2005
É Tudo Verdade chega ao fim em grande estilo"Aboio" vence a competição nacional do evento que terminou no sábadoFoi a melhor de todas as edições do Festival de Documentários É Tudo Verdade. Palavra de Amir Labaki, criador e diretor do maior evento de documentários da América Latina, que agradeceu aos mais de 700 documentaristas que inscreveram seus trabalhos, permitindo-lhe fazer a seleção que definiu como a melhor de todas, nesta década que viu consolidar-se, no Brasil e no mundo, a cultura do documentário. Cerca de 25 mil espectadores assistiram aos filmes no Rio e em São Paulo. Este número deve crescer a partir de amanhã, quando o É Tudo Verdade desembarca em Brasília, para uma programação especial no Centro Cultural Banco do Brasil. O festival foi encerrado oficialmente no sábado à noite, no CineSesc, com a entrega dos prêmios aos vencedores. A cerimônia foi informal e ruidosa, com direito a aplausos do público e muita emoção dos vencedores. O prêmio da competição brasileira foi para o documentário Aboio, da mineira Marília Rocha, que deu um show no palco. "Há um mês eu não tinha nem um filme. Tinha um vídeo. E agora, com meu primeiro trabalho, ganho este festival tão importante. Só por estar com vocês, só por ter sido selecionada, eu já me considerava uma vitoriosa, mas ganhar o festival... É um sonho, muito obrigado", disse, no mais emocionado discurso da noite. Mais dois prêmios importantes foram atribuídos aos integrantes da competição brasileira. A ABD/São Paulo, Associação Brasileira de Documentaristas, premiou Moacir - Arte Bruta, de Walter Carvalho, e a TV Cultura destacou Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel. O trabalho de Carvalho, de imensa sensibilidade e beleza - não poderia ser diferente, considerando-se a personalidade do diretor -, tem como personagem um negro pobre e meio surdo, de 42 anos, que se assemelha a um quasímodo por causa da má formação óssea. Esse homem, que talvez inspirasse a compaixão que se sente pelos desvalidos, merece o respeito reservado aos artistas. Isolado no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, é pintor e expressa um imaginário tão rico quanto intrigante. Mocarzel definiu seu filme como 'de utilidade pública'. O documentário sobre síndrome de Down é o melhor da carreira do diretor. Vai concorrer no Festival do Recife, que começa na quarta, com Aboio, que resgata o hábito arcaico de tanger o gado por meio do canto dos vaqueiros. O curta vencedor da competição brasileira foi Da Janela do Meu Quarto, de Cao Guimarães, outro mineiro talentoso. E o prêmio de melhor documentário da competição internacional foi para Ensaios, de Michael Leszczylowski, sobre arte e vida numa prisão sueca, com menção para O Liberace de Bagdá, de Sean Macallister, sobre Samir Peter, pianista iraquiano que vive exilado na Inglaterra. Por Luiz Carlos Merten 10.4.05
A Batalha pelo Reino dos CéusRidley Scott comenta seu novo épico "Cruzada" e revela novos projetos à SpoilerGandalf teve muitos nomes dados por muitas pessoas que ele encontrou. Ele era Mithrandir para os elfos, Tharkun para os anões, e Incanus para os Haradrim. Mas ele sempre disse que o nome que preferia era Gandalf, dado a ele pelos homens do norte.
J.R.R.Tolkien Para quem não curtia (ou não curte) as aulas de história, uma breve explicação: as cruzadas foram expedições organizadas pela nobreza européia, com o aval da Igreja, para libertar a Terra Santa (a Palestina, onde Jesus Cristo nasceu), do domínio dos árabes. Estes haviam se convertido ao Islã e uma de suas tribos ocupara a Mesopotâmia, a Síria, a Palestina e parte da Ásia Menor, proibindo as peregrinações de cristãos. Para "salvar" a Europa Oriental e a Terra Santa, o Papa Urbano II convocou os nobre europeus, dando origem em 1095 à 1a. Cruzada. Quase Mil anos depois, Ridley Scott retoma o tema em seu novo filme - "Cruzada", cuja previsão de estréia é dia 06 de Maio no Brasil. Confira a entrevista concedida à Spoiler:
"Cruzada é um filme no qual penso há 20 anos. Será ambientado no meio das cruzadas, por volta de 1130 e vai mostrar Saladino, um muçulmano, que foi o mais sábio de todos os cavaleiros, um homem confiável e de palavra. Ele manteve a paz ao redor de Jerusalém, que era controlada por Balduíno, um cristão que acreditava que todas as religiões deveriam ser bem-vindas à cidade para rezar. Os dois homens tinham um relacionamento de respeito mútuo", explicou. "Eu não quero que o filme seja sobre cavaleiros de armadura se atacando enquanto cortam cabeças com suas espadas. O filme deve ser uma discussão fundamental sobre as duas religiões", completou o diretor. O cineasta disse que o assunto será tratado com cautela, referindo-se à atual situação política na região. Aparentemente, a idéia é mostrar os defensores com extremo respeito. "Ainda mais quando você tem Saladino [sultão considerado o maior líder do mundo árabe contra os cruzados], provavelmente o mais honesto e honrado de todos os guerreiros. Nenhum muçulmano liderou seu povo como ele desde então. Acredito que a batalha de Hittin (1187) foi a maior derrota dos cristãos pelos muçulmanos. Ele retomou Jerusalém", comentou Scott. O diretor também respondeu perguntas referentes a Gladiador 2 e revelou que o novo filme será focado na próxima geração de personagens apresentados no filme original. Além disso, não existem planos para trazer o general Maximus (Russell Crowe) de volta à vida. "Nós vamos explorar a continuidade de Roma. Temos nas mãos um período da história romana dramático e rico". Segundo o cineasta, não há nada no momento para uma segunda parte de O Gladiador (2000) "mas nós estamos tentando achar uma boa solução para a seqüência". O roteiro de John Logan, que participou da redação do primeiro, "não chegou lá ainda. Lembre-se que não temos mais o Maximus, então acho que é uma tarefa bem difícil... existe a idéia de usar a segunda geração, mas ela ainda está um pouco frouxa por enquanto", completa. A respeito de Alien 5, não há nada de mais sério rolando além de boatos. Quando perguntado se ele voltaria à franquia, Scott não demorou para responder que "tudo depende do material, se o roteiro for ótimo, claro!" Um dos seus trabalhos que está em desenvolvimento é "Tripoli", que ele espera que fique pronto um dia. "É um ótimo roteiro e um ótimo ponto da história também." O certo é que seu próximo trabalho pode ser um faroeste ou uma comédia. "Eles são bem diferentes, mas estão sendo desenvolvidos bem rapidamente", disse o diretor de Os vigaristas, Blade Runner, entre outros sucessos. Ridley Scott comentou também, que cortou uma hora de filme da edição final de "Cruzada". O cineasta revelou que as cenas cortadas poderão ser vistas no DVD, que trará a "versão do diretor" com quase três horas de duração. "O mundo do DVD é uma experiência diferente. O público de cinema sai para ver o filme e eu acho que há um nível de tolerância. Você acha que óperas tendem a ser um pouco longas? Você acha que peças de teatro tendem a ser um pouco longas" Você pensa, "Oh, meu Deus, outro ato!" - disse Scott. "Você poderá dizer porque colocamos certas cenas somente na versão estendida. A que vai para os cinemas é a melhor versão, não há dúvidas sobre isso na minha opinião" - concluiu. A atriz Eva Green ("Os Sonhadores") acrescentou que as cenas cortadas são mais focadas nos personagens e incluem uma subtrama envolvendo o filho que ela tem com Orlando Bloom ("Senhor dos Anéis"). A atriz disse que a princesa que interpreta é mais complexa na versão estendida e passa por uma "jornada de autodescoberta". O filme conta também com Jeremy Irons, Liam Neeson e Edward Norton Post em homenagem ao meu amigo Rogério e pelo primeiro ano de vida de seu blog "Gandalf"
8.4.05
De olhos bem abertos para o sexoFilme sobre Alfred Kinsey, o chamado pai da revolução sexual, causa repúdio e põe em evidência sua vida libertina A relação sexual começou, declarou o poeta e romancista inglês Philip Larkin "em 1963, o que foi meio tardio/Entre o fim da proibição de Chatterley (referência ao livro 'O Amante de Lady Chatterley', de D.H. Lawrence) e o primeiro LP dos Beatles". Certamente teria parecido tardio para Alfred Kinsey, cujo famoso relatório foi concluído em 1963, sete anos após a morte de seu autor, provavelmente o homem que mais falou sobre sexo e mais se entregou a ele, desde Casanova até o Marquês de Sade.
Passado quase meio século da morte de Kinsey, em 1956 - possivelmente causada por exaustão sexual -, um filme sobre sua vida protagonizado por Liam Neeson recrudesceu a batalha que ele acendeu pela alma, ou ao menos pela libido, da América moderna. Kinsey - Vamos Falar de Sexo, dirigido por Bill Condon, tem estréia prevista no Brasil para o dia 29. A direita radical exigiu a danação no fogo do inferno para todos os envolvidos e até mesmo críticos liberais chamaram-no de hagiografia sentimentalóide. Não há dúvida que o chamado pai da revolução sexual era um pouco mais que apaixonado pelo seu trabalho. Como o famoso comentário de sua mulher, Clara, com a qual ele apresentou o quadro público da família americana saudável: "Desde que ficou interessado por sexo, nunca o vejo." Kinsey, um entomologista formado em Harvard cuja primeira obsessão foi o estudo das vespas, viveu a vida exterior do cientista obstinado, mas, na realidade, foi um libertino bissexual que pensava que a única anormalidade era a abstinência e cujo biógrafo acredita que ele distorceu sua metodologia para justificar - e satisfazer - a própria sexualidade. A fama por ele adquirida não era do tipo que contentasse o pai, um austero metodista, professor de engenharia em New Jersey, que proibia encontros, jornais de domingo. Nascido em 1894, teve uma infância reprimida e infeliz, foi mantido ignorante sobre sexo e torturado por suas ocasionais fantasias homoeróticas. O Relatório Kinsey, como se tornou conhecido, é constituído de dois livros, o primeiro, Comportamento Sexual do Homem, saiu em 1948, e o segundo, sobre a mulher, em 1953. O primeiro livro, com evidências científicas aparentemente irrefutáveis, compilado a partir de milhares de entrevistas anônimas, alega que quase todos os homens se masturbam, 10% são homossexuais, o adultério é lugar-comum e homens jovens que moram em fazenda fazem sexo com animais. A América foi profundamente abalada. Num país que estava se recuperando da 2.ª Guerra e vivenciando a paranóia da guerra fria, nenhuma notícia seria menos bem-vinda, porém a primeira impressão do livro, com 200 mil exemplares, foi vendida em questão de semanas com "mais manchetes do que a bomba atômica". Mesmo hoje em dia, o filme sobre a vida de Kinsey tem despertado indignação em entidades que comparam Kinsey a Josef Mengele e dizem que o seu legado é a aids, o aborto, a pedofilia e a pornografia na internet. Como Kinsey surgiu? Quando o jovem e inteligente cientista se casou com Clara McMillen, estudante de química, eles eram tão ignorantes em matéria de sexo que levaram vários meses para consumar o casamento. Essa ignorância era tão comum que, em 1938, a Associação Feminina de Estudantes pediu à Universidade de Indiana, para onde Kinsey tinha se transferido 18 anos antes, um curso para os alunos que iam se casar. Kinsey, professor de zoologia, foi convidado a coordená-lo. A primeira coisa que ele descobriu foi que informações sobre a experiência sexual humana eram poucas e o que havia não era confiável. Ele se dispôs a corrigir isso coletando e compilando evidências a partir de entrevista com cerca de 300 perguntas. Nesse ínterim, abandonou o curso sobre casamento em favor da pesquisa sobre sexo e conseguiu recursos da respeitável Fundação Rockefeller. O Instituto de Pesquisa sobre Sexo foi estabelecido em 1947. Mas, como James H. Jones revelou na sua biografia de 1997, Kinsey estava tirando muito proveito do seu trabalho. Muito antes de ele começar sua pesquisa oficial, Kinsey já gostava de passear com grupos de homens jovens e os encorajava a discutir sua vida sexual. Incentivou sua equipe a ter relações sexuais entre si, a compartilhar seus parceiros e a construir uma comunidade bissexual de troca de esposas na qual os atos sexuais eram filmados. Gore Vidal, o romancista, lembra de tê-lo conhecido em 1948 e de ter ficado impressionado. Vidal contou que Kinsey se apresentou como um "detetive do sexo", ávido por "investigar" se as pessoas do mundo das artes eram mais inclinadas à homossexualidade. Observou que eles se conheceram no hotel Astor, em Times Square, um refúgio de soldados e marinheiros que voltavam da Europa. Ótimo para um pesquisador, mas também um ponto de encontros sexuais de primeira classe. A essa altura, as estripulias sexuais na casa de Kinsey em Bloomington, Indiana, estavam fora de controle, incluindo autocircuncisão com lâmina de barbear. Mais controvertida, na época e agora, foi a atitude de Kinsey em relação às crianças. Elas foram excluídas do seu grupo sexualmente ativo. Também ficou famoso o fato de ele ter se recusado a comprometer suas fontes para ajudar J. Edgar Hoover, o diretor do FBI, a conduzir uma caça às bruxas contra os gays no Departamento de Estado, suprema ironia já que mais tarde foi revelado que Hoover era um homossexual que se travestia. O livro de Kinsey sobre a sexualidade feminina provocou ainda mais indignação, derrubando ícones da feminilidade americana com as estatísticas de que 50% das mulheres tinham relações sexuais extraconjugais, quase dois terços tinha se masturbado e 45% haviam feito sexo oral, atividade ilegal em alguns Estados. Mais sinistro, talvez, seja o fato de ele ter comparado as reações negativas das mulheres jovens às relações sexuais impostas por homens mais velhos com "a rejeição que as crianças têm às aranhas". Ele também acreditava que as mulheres eram menos receptivas sexualmente do que os homens. Reconheceu o papel do clitóris, mas pensava que a genitália masculina e feminina não combinavam. Foi preciso que surgisse Shere Hite, a sexóloga, na década de 1970, para que o orgasmo feminino fosse reavaliado. Mesmo assim, quando os relatórios de Kinsey foram publicados, seu impacto foi comparada ao da teoria da evolução de Darwin. E ainda existe muita gente que não quer acreditar nisso, também. Kinsey - Vamos Falar de Sexo, de Bill Condon, será exibido hoje em São Paulo, no projeto Noitão HSBC Belas Artes, a partir da meia-noite. Completam a maratona cinematográfica Repulsa ao Sexo, de Roman Polansky, e um terceiro filme, que é sempre surpresa. O ingresso custa R$ 15 e dá direito a café da manhã. Rua da Consolação, 2.423, tel. 3258-4092. Fonte: Sunday Times 7.4.05
SPOILER ESPECIAL: It´s All True 2005
Um Festival na TVA parceria entre o É Tudo Verdade e o Canal Brasil expandiu o público do festival e do documentário. No tempo, estendendo-o para o ano todo, uma vez por semana, e no espaço, para além das cidades que sediam o festival anual, notadamente São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Neste ano, simultaneamente à décima edição do festival desenvolve-se uma programação especial no Canal Brasil, exibindo documentários nacionais que marcaram também a hsitória do É Tudo Verdade. Essa faixa extraordinária está sendo exibida de terça a sexta, nesta semana e na próxima, sempre às 20h. Os quatro selecionados para a primeira semana foram "O Velho" (1997), de Toni Venturi, "Retrato de Classe" (1977), de Gregório Bacic, "Geraldo Filme" (1998), de Carlos Cortez, e "O País de São Saruê" (1971), de Vladimir Carvalho. Na semana que vem os títulos escolhidos foram os longas "Chico Antônio, Herói com Caráter" (1983) de Eduardo Escorel, "Wilsinho Galiléia" (1978-2002), de João Batista de Andrade, "A Negação do Brasil" (2000), de Joel Zito Araújo e os curtas "Visionários" (2002) de Fernando Severo, "Burro sem Rabo" (1997) de Sérgio Bloch e "Como se Morre no Cinema" (2001) de Luelane Corrêa. Há mais. O programa semanal É Tudo Verdade no Canal Brasil reservou para estas duas semanas dois dos títulos mais marcantes do documentário brasileiro contemporâneo. Nesta semana, com última exibição às 16h30 deste domingo, é a vez de nada menos que "Cabra Marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho, eleito por uma pesquisa do É Tudo Verdade, realizada em 2000, o melhor filme não-ficcional já rodado no Brasil. 1962, João Pessoa, Paraíba. Uma equipe de filmagem da CPC da UNE, comandada pelo jovem paulista Eduardo Coutinho, filma um comício em protesto ao assassinato do líder rural João Pedro Teixeira. O registro dá origem a um longa-metragem ficcional sobre a vida de Teixeira, cuja rodagem foi interrompida pelo golpe militar de março de 1964. 1984, Rio de Janeiro. Coutinho liberta-se do fantasma de um copião de filme, preservado por duas décadas em sua casa e na casa do cineasta David Neves. A ficção tornara-se documentário. O filme sobre Teixeira transforma-se num filme sobre o filme interrompido sobre Teixeira, sobre o impacto repressor e socialmente desintegrador da ditadura, sobre o cinema como preservação de memória. "Cabra Marcado para Morrer" é o mais influente documentário brasileiro de todos os tempos. Está para nosso cinema como "Os Sertões" para nossa literatura. Existe um antes e um depois. Na próxima semana, com estréia na terça às 22h35 e reapresentações na quarta (14h30) e no domingo (16h30), será a vez de "Janela da Alma", de João Jardim e Walter Carvalho. Não vemos só com os olhos. Eis uma síntese possível da filosofia central do filme. O título parte da fórmula lançada por Leonardo da Vinci: os olhos seriam a janela da alma e o espelho do mundo. Mas o que se passa quando eles não funcionam muito bem? Quando as janelas parecem fechadas e os espelhos, distorcidos? Diversos graus de deficiência visual, da miopia branda à cegueira total, são o ponto de partida para este ensaio fílmico sobre o ato de ver. Dezenove pessoas, célebres ou não, contam-nos como convivem com suas limitações e como elas condicionam suas maneiras de olhar o mundo. O cineasta alemão Wim Wenders lembra que vemos com os olhos mas não totalmente. O neurologista americano Oliver Sacks complementa que muitas vezes vemos com os olhos da mente. Eugen Bavcar, o fotógrafo cego esloveno, chama a atenção para a inflação de imagens sem sentido para asseverar: vivemos em meio a uma cegueira generalizada. Entre belas sacadas, generalizações e frases de efeito, "Janela na Alma" nunca é menos que cativante e por vez torna-se simplesmente arrebatador. É linda a homenagem de Agnes Varda a seu finado marido, o cineasta Jacques Demy. José Saramago é cruelmente encantador ao garantir que, se tivesse olhos de águia, Romeu não se apaixonaria por Julieta. Já Wenders sintetiza sua maneira de estar-no-mundo ao frisar a importância da armação dos óculos para enquadrar o que vê e tornar a visão mais seletiva. O festival deste ano leva assim o documentário para a TV e também traz para salas o documentário de TV. Pela primeira vez será possível conferir em bloco toda a primeira série de filmes produzidos pelo programa DOCTV, liderado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, pela TV Cultura, pela Associação Brasileira de Documentaristas e pela Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (ABEPEC). São 25 documentários rodados em todas as regiões do país. Mais que destacar este ou aquele título específico, chama a atenção o escopo da iniciativa, que já tem andamento a finalização de uma segunda série de filmes e prepara-se para ampliar a experiência com parceiros internacionais, criando um DOCTV Ibero-América e outro para países de língua portuguesa. A experiência foi debatida na segunda-feira no MIS de São Paulo. Como o presente e o futuro do documentário passam pela parceria com a TV, eis uma discussão simplesmente essencial. Por Amir Labaki 6.4.05
"Hotel Rwanda" relembra o genocídio na ÁfricaFilme aborda a perseguição étnica e a morte de 800 mil pessoas A boa aceitação do filme "Hotel Rwanda", cujas filmagens foram visitadas pela reportagem de SPOILER, despertou novas atenções sobre a violência que atualmente ocorre no Sudão.
Joaquin Phoenix e o diretor Terry George estavam no interior de uma réplica do famoso Hotel Mille Collines de Kigali (capital de Ruanda). Foi em Kigali que há 10 anos o gerente de hotel Paul Rusesabagina deu abrigo a 1.200 refugiados da etnia Tutsi, salvando todos eles da morte certa, que poderia ocorrer caso fossem pegos pelas milícias da etnia Hutu que atravessavam o país. George, irlandês grandalhão de rosto avermelhado com um chapéu todo desengonçado, estava filmando uma cena ambientada no bar do hotel. Na cena, Joaquin Phoenix, que interpreta um cinegrafista, está conversando com outro jornalista, enquanto duas mulheres ruandesas estão por perto. "Qual a diferença entre um Hutu e um Tutsi?", pergunta o personagem de Phoenix. "De acordo com os colonizadores belgas, os tutsis eram mais altos e mais elegantes", responde o colega dele. "Eles escolhiam aqueles que tinham narizes mais finos e pele mais clara --costumavam medir a largura dos narizes-- para dirigirem o país." "Ah, conta outra", diz o personagem de Phoenix, subitamente se dirigindo a uma das garotas. "Você é Hutu?" "Não, Tutsi." "Elas podem ser gêmeas", conclui o cinegrafista. Com roteiro escrito por Keir Pearson e pelo próprio diretor Terry George, "Hotel Rwanda" acontece durante um golpe de governo em Ruanda, república localizada no centro da África, no mês de abril de 1994. Esquadrões da morte formados por hutus cruzaram o país, massacrando milhares de rivais tutsis. O massacre durou cerca de 100 dias, até um total de 800 mil mortos. As Nações Unidas e o mundo observaram o ocorrido e pouco fizeram para impedir a matança. George coloca seu filme na mesma linhagem de "The Killing Fields" ("Os Gritos do Silêncio", sobre o massacre no Camboja de Pol Pot), "onde um homem comum triunfa sobre o mal enorme e esmagador", diz o diretor. "É como "A Lista de Schindler" para a África. Eu quis que fosse uma história de amor e um suspense político, sobre um homem comum que encontra dentro de si uma coragem que não suspeitava ter, e que passo a passo consegue neutralizar todo um exército." Para desnortear os matadores hutus, Rusesabagina se aproveitou da série de relacionamentos que tinha em toda a sociedade ruandesa, afirma o diretor. "Ele usava suas habilidades ao lidar com essas pessoas --todo seu charme, sua capacidade de barganha e um grande repertório de senso comum: 'Por favor aceite dinheiro por essas pessoas; elas não valem nada para vocês'. Por trás disso tudo havia um profundo compromisso dele com a própria família --um conceito que ele foi forçado a ampliar, para uma família cada vezmaior. "E ele teve que superar o medo." O filme evita ir fundo no massacre propriamente dito. "Eu quis que as pessoas percebessem a história de amor e o drama individual, em vez de realizar um docudrama sobre o massacre", diz George. "Quis proporcionar a dimensão do medo e a loucura que o envolvia. Essa história precisa ser contada, como numa crônica. É um dos maiores atos de heroísmo do Século 20." Don Cheadle, bem à vontade como Rusesabagina em seu terno azul escuro, camisa azul e gravata vermelha, fica perplexo com o que seu personagem foi capaz de fazer na vida real. "Os seres humanos em determinadas situações fazem coisas inimagináveis", afirma Cheadle. "E a conclusão do filme é absolutamente positiva - você vê o amor triunfar sobre tudo, e vê como a pureza do homem ainda é capaz de salvar a humanidade. Quando tudo lhe é retirado e você fica sem chão, o que resta? Resta tudo o que você terá no final do dia." O coronel funcionário das Nações Unidas interpretado por Nick Nolte é um personagem baseado em vários militares da ONU, especialmente calcado no general franco-canadense Romeo Dallaire, autor de um livro de memórias sobre Ruanda, intitulado "Shake Hands With the Devil" ('Cumprimentando o Diabo"), que foi transformado num documentário. "Alguns dizem que ele poderia ter impedido o massacre", diz Nolte, vestindo um uniforme khaki e uma boina azul. "Ele não chegou a desafiar as ordens vigentes no país. Isso teria sido algo muito corajoso, mas é uma atitude que precisaria ser tomada por alguém mais forte. Sim, porque essa atitude poderia render uma corte marcial." O produtor do filme, A. Kitman Ho ("Ali", "Platoon"), levantou cerca de US$ 17 milhões (cerca de R$ 47 milhões) em financiamento independente. O dinheiro que foi economizado, ao não contratar grandes estrelas como Denzel Washington, Will Smith ou Halle Berry, foi investido na contratação de um total de cerca de 12 mil figurantes, às vezes até 950 por dia, só para mostrar a escala de produção desse drama. "Oitocentas mil pessoas morreram", disse Ho. "E é preciso ver algumas dessas mortes, já que trata-se de um filme sobre um massacre. Seria totalmente diferente se fosse um filme com Denzel como herói --aí você saberia que ele se daria bem no final. Parte do encanto agora é que você não sabe exatamente o que irá acontecer." Quanto aos figurantes, a participação deles no filme foi catártica, afirma Cheadle. "Há pessoas aqui com cicatrizes produzidas por facões, há vítimas de estupro. Era importante para elas participar e apoiar esse filme... Para essas pessoas, é como se sua história nunca tivesse sido suficientemente documentada ou contada para o mundo." O filme concorreu a três Oscars, Cheadle concorreu a melhor ator; Sophie Okonedo, que interpreta Tatiana, a esposa de Rusesabagina, concorreu a melhor atriz coadjuvante ; e Pierson e George disputaram a estatueta de melhor roteiro (George e Jim Sheridan foram indicados ao Oscar em 1994, pelo roteiro de "Em Nome do Pai"). O verdadeiro Rusesabagina, que tem viajado com a equipe de "Hotel Rwanda" para promover o filme, diz que ele mesmo não tinha consciência da dimensão do massacre em seu país, até que viajou ao sul de Ruanda para conferir a situação de alguns parentes. "No caminho, não havia gente em movimento", diz Rusesabagina. "Não se via sequer uma vaca. Não havia nada, o país inteiro fedia. Só se ouvia o ruído de cachorros lambendo cadáveres." Ele veio a descobrir que a mãe de Tatiana fora assassinada com seis netos e uma cunhada, todos jogados numa grande vala. "Foi aí que eu descobri a verdade sobre o que realmente ocorrera em Ruanda. Antes disso, era como se eu estivesse sonhando. Aquela viagem ao sul do país me despertou." Por Anne Thompson 5.4.05
O Tigre e o DragãoUm dos mais importantes diretores chineses fala à Spoiler sobre seu filme "Herói" e explica a política chinesa de restrição aos filmes estrangeiros![]() O diretor chinês Zhang Yimou, nascido em 1951, começou sua carreira nos anos 80 como diretor de fotografia, tendo trabalhado com Chen Kaige. Fez sua estréia na direção em 1987 com "Sorgo vermelho". Fez parte da chamada "quinta geração" do cinema chinês. Foi três vezes premiado no Festival de Veneza: em 1991, por "Lanternas Vermelhas" recebeu o Leão de Prata; e em 1992 e 1999 foi duplamente consagrado com o Leão de Ouro, respectivamente por "A História de Qiu-Ju" e "Nenhum a Menos". Recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 1994, por "Tempos de Viver", e o grande prêmio técnico em 1995, por "Operação Xangai".
Os dois últimos filmes de Yimou foram totalmente inspirados pelas novelas de artes marciais: "Herói" concluído em 2002 e o seu último filme, "Clã das Adagas Voadoras". Nesta entrevista, Yimou fala sobre a produção de "Herói", a filosofia por trás das artes marciais e sobre a restrição a entrada de filmes estrangeiros na China SPOILER: Quando nos falamos pela última vez, quatro anos atrás, você tinha acabado de fazer "Nenhum a Menos", sobre um professora substituta de 13 anos numa pobre escola rural. O que fez você ir numa direção tão diferente? Zhang Yimou: Eu tenho lido novelas de artes marciais desde que eu era uma criança... SPOILER: (Notando o livro em cima da mesa) De fato você está lendo um agora. Zhang Yimou: (Rindo). Quando eu me formei na escola, todos os jovens queriam fazer filmes de arte. Nada comercial. Mas nos últimos 7-8 anos, o mercado para os filmes chineses está encolhendo. Porque os filmes hollywoodianos começaram a chegar na China e influenciar... SPOILER: Não existe uma cota para importação de filmes de Hollywood? Zhang Yimou: O problema é que Hollywood é concorrência para os filmes de arte chineses. Então, eu pensei que podia fazer um filme com expectativa de bilheteria, que se referisse à cultura chinesa, mas que tivesse também elementos de arte. É por isso que tudo está em um filme. Eu tenho que agradecer a "O Tigre e o Dragão", porque Ang Lee fez algo novo para as artes marciais. Para filmar "Herói" nós precisávamos de muito dinheiro. Ang Lee criou espaço para que outros cineastas experimentassem. Ambos, Ang Lee e eu, usamos o estilo de filme de arte num filme de arte marciais. SPOILER: Qual é a filosofia por trás de "Herói"? Zhang Yimou: Existe um escritor na China que escreveu novelas de arte marciais. Ele dizia que o melhor lutador da história chinesa irá lutar pelo seu país e por seu povo. Isso é um velho provérbio chinês, de alguns mil anos atrás, para as pessoas das artes marciais, o melhor deles. Mas depois da Revolução Cultural, as coisas começaram a ficar mais politizadas. SPOILER: Jet Li tem a chance de assassinar o Rei, e ele não o faz. Então talvez exista uma concepção diferente de herói no filme? Zhang Yimou: "Herói" segue a tradição antiga. O lutador número um do país deve cuidar primeiro do seu povo. Jet Li entende que se ele não matar o Imperador, é melhor para o povo, porque a guerra terminará. O lutador número um das artes marciais decide não matar o rei, por causa da paz. Neste filme, minha idéia era conduzir uma mensagem de paz. SPOILER: Então seu interesse na história, que você co-escreveu, era de uma maneira estranha fazer um filme pacifista. Porque o estilo do filme não parece muito bélico -- longos close-ups, o enfoque na estrutura visual, sugerir que além de matança, existe outro nível de ser, como no Taoísmo. Zhang Yimou: Bem, confiança é parte da tradição das artes marciais, como por exemplo, entre Tony Leung e Jet Li, e também no final do filme entre Jet Li e o Imperador, eles constroem a confiança entre eles. SPOILER: Voltemos à questão dos limites de importações para Hollywood... Zhang Yimou: Quando a China se uniu a OMC (Organização Mundial do Comércio), a regra era que no primeiro ano, 20 filmes estrangeiros podiam ser importados para China. No segundo ano, eram 30. Agora parece que algo como 40 filmes estrangeiros podem entrar na China. A maioria deles são filmes comerciais de Hollywood. Por exemplo, em meados de junho, "Tróia" será lançado na China, quase no mesmo dia que em Hong Kong. Os jovens chineses amam ver filmes de Hollywood. Assim como os jovens de Hong Kong, Taiwan e Japão. Eu e outros diretores chineses queremos que o governo tome uma atitude sobre isso. Porque os filmes estrangeiros tem um impacto cultural. Que cria um problema para os filmes chineses. O governo não pode proibir todos os filmes estrangeiros de entrar porque já existe um contrato. Mas o que eles podem é limitar a data de lançamento. Assim como reter um precioso período de lançamento para os filmes chineses. É necessário que o governo chinês tenha uma política para se prevenir do que aconteceu em Hong Kong, Taiwan e Japão. Eles precisam olhar para outros países e ver o que os filmes de Hollywood tem feito para eles, antes que decidam o que pode ser feito para proteger os filmes chineses. Mas estes acordos de lançamento controlado será útil. SPOILER: Como exatamente isso funcionará? Zhang Yimou: O governo dará os primeiros 15 a 20 dias (depois do lançamento) como um período para filmes chineses. Mas ainda existe um problema. Porque os filmes chineses não tem uma bilheteria alta, algumas vezes os exibidores vão querer filmes hollywoodianos para substituí-los depois de apenas 3 dias, apesar das regulamentações. A decisão não é uma garantia total. SPOILER: Quão fácil ou difícil era para você, dirigindo cenas de esgrima e assim por diante? Zhang Yimou: Eu discuti as seqüências de ação com Tony Ching, o diretor de ação, enquanto eu estava escrevendo a história e também no set. Nós decidíamos o que as artes marciais deviam parecer. Mas quando chegou o momento de dirigir, eu deixava Tony Ching executar. Normalmente, o que você vê em dois minutos na tela nós levou 10 a 15 dias para filmar. Quando Tony pensava algumas mudanças importantes para a direção, ele podia vir até a mim e discutíamos primeiro. Enquanto Tony estava dirigindo a ação, meu trabalho era sentar e olhar no monitor, e eu parecia como um diretor assistente. Pode levar quatro horas para filmar uma cena. SPOILER: Como você fez que aparecesse as mudanças de cor no filme: vermelho, branco, azul e verde? Zhang Yimou: "Herói" não é um filme de artes marciais tradicional. Eu gosto de "Rashomon" e eu pensei que podia usar cores diferentes para partes diferentes do filme. SPOILER: Porque essas cores em particular, vermelho, branco e azul? Zhang Yimou: Não existe um significado particular para cada cor. Eu apenas precisava de cores para representar... SPOILER: Pontos de vista... Zhang Yimou: Sim, sim. Cada cor representa um período diferente e uma diferente (maneira de contar a) história. SPOILER: Como foi trabalhar com Tony Leung e Maggie Cheunf no set? Zhang Yimou: "Herói" é um filme de diretor e então os atores não tinham muito espaço para manobrar, o que era uma pena porque eles são realmente grandes atores. Porque o filme é tão fortemente estruturado, suas escolhas de ação eram limitadas. Ambos, Tony Leung e Maggie Cheung podiam, cada um, levar um filme de duas horas. Eles precisam para atuar de algo do coração. SPOILER: Exatamente quando e como Quentin Tarantino foi envolvido nesse projeto? Zhang Yimou: A Miramax me disse que eles queriam colocar um crédito para Tarantino no início do filme, algo como "Quentin Tarantino recomenda". Eu fiquei muito feliz sobre isso porque eu e ele somos velhos e bons amigos e Tarantino ama filmes chineses. Então em Cannes eu vi Tarantino na estréia e na festa de "Clã das Adagas Voadoras". Eu descobri que a Miramax pediu para que Tarantino fizesse ajustes no filme. Mas Tarantino amou tanto "Herói", ele realmente não queria mudar o filme, ele quis proteger o filme como ele era. Mas eu penso que Tarantino deu sua recomendação para ajudar com a distribuição. Fonte: Liza Bear - IndieWire 4.4.05
"Sin City" comete 7 pecados cinematográficos (potencialmente) mortaisA certo ponto durante a realização de "Sin City", Robert Rodriguez simplesmente ficou sem regras para quebrar O diretor rebelde evita a capital do cinema, realizando seus filmes em seu estúdio doméstico em Austin. Ele fez sucessos "cult" de ação mexicanos nos Estado Unidos ("A Balada do Pistoleiro", "Era Uma Vez no México") e ressuscitou o 3D para um filme família de sucesso ("Pequenos Espiões 3D"). Na última sexta, sua muito aguardada adaptação dos quadrinhos de Frank Miller levou as expectativas dos cinéfilos e de Hollywood para outra dimensão.
"Sin City" de Rodriguez, orçado em US$ 40 milhões, quebra algumas regras cinematográficas fundamentais. Se seu filme incomum estourar ou afundar nas bilheterias será uma medida do seu sucesso em dobrar os mandamentos de Hollywood. O filme é sobre uma variedade de assassinos, prostitutas, strippers, tiras, vigilantes, políticos corruptos, psicopatas e um inocente ocasional que existe nas sombras da fictícia Basin City, que atende pelo apelido que serve como título do filme. "Se tivéssemos que vender a idéia para várias pessoas, elas teriam apresentado todo tipo de argumento sobre como isto não funcionaria", disse Rodriguez. Felizmente, ele disse, ele é amigo de longa data de Bob Weinstein, o chefe da Dimension Films, que lhe disse: "Claro, pode fazê-lo". Os Sete Pecados Cinematográficos Mortais"Sin City" comete todos eles. Descubra por que as pessoas envolvidas no filme dizem que estes pecados poderão ser perdoados, até mesmo abraçados. 1. Fazer um filme em preto-e-branco Desde que os filmes coloridos abandonaram nas sombras os tons de cinza durante os anos 60, Hollywood tem detestado voltar atrás -até mesmo por motivos estilísticos. O co-diretor Frank Miller desenha todos seus quadrinhos de "Sin City" em preto-e-branco, sem meios tons. Tanto ele quanto o co-diretor Robert Rodriguez queriam manter tal aspecto no filme, com ocasionais inserções de cor -um carro vermelho, olhos azuis, cabelo loiro. "Estas são peças de moralidade tanto quanto histórias de amor, mistério e romances criminais", disse Miller. "Eu queria uma iluminação dura porque é uma realidade dura." Para reproduzir os desenhos, os atores foram filmados contra um fundo verde vazio, e as paredes e cenários foram pintados para obtenção do contraste apropriado. "(Os fundos) foram feitos sob medida para não terem meios tons", disse Rodriguez. "É realmente um preto-e-branco vigoroso." Será que o público de hoje está pronto para um monocromatismo retrô? O uso do preto-e-branco por Quentin Tarantino em "Kill Bill Vol.2" conquistou aclamação dos críticos, mas isto para apenas algumas cenas. E "Capitão Sky e o Mundo de Amanhã" do ano passado fracassou nas bilheterias com uma tentativa semelhante de reproduzir a ausência de cor da fotografia antiga. "Sin City" terá que provar que é mais do que apenas imagens estilizadas. 2. Calando grandes astros Grandes astros geralmente gostam de realizar grandes cenas, mas alguns dos principais personagens em "Sin City" não têm nada a dizer. Literalmente. O astro Elijah Wood de "O Senhor dos Anéis" interpreta um silencioso assassino serial, tipo zen, chamado Kevin. E apesar de não desfrutar do mesmo grau de reconhecimento de Elijah, a modelo/atriz Devon Aoki de "+Velozes +Furiosos" desfruta de bastante tempo de tela, mas nenhuma fala, como uma ninja muda. Apesar do silenciamento do Frodo de "Anéis" poder alienar seus fãs, para Wood o risco vale o retorno potencial. "Eu fiquei louco para interpretar o Kevin", disse Wood. "Eu não estava buscando brilhar, eu estava buscando fazer parte de algo que sabia que seria especial." 3. O uso de narração em "off" (voice-over) para conduzir o drama do filme A regra nos filmes é mostrar, não falar. Longo solilóquios deixam o público sentindo como se estivessem em uma palestra. Rodriguez encheu seu filme de narrações em off. Os heróis de "Sin City" são solitários. Sem parceiros, não há uma forma natural para eles expressarem suas intenções a não ser por meio de narrações em off. Sem elas, "você não entenderia Marv", disse Rodriguez, usando o assassino vingativo interpretado por Mickey Rourke como exemplo. "Se você apenas assistisse seus atos, você o consideraria apenas um criminoso. Mas quando você está dentro da cabeça dele, esta é a única maneira de entendê-lo." 4. Fazer os atores atuarem contra telas, e não com outros atores Os atores geralmente odeiam filmar cenas sozinhos porque sentem que perdem a troca da interação com outros atores. Mas muitas seqüências de "Sin City" foram criadas colando filmagens de atores cujas agendas lotadas impediam que atuassem juntos. Brittany Murphy interpreta uma barmaid que interage com Bruce Willis, mas ela nunca se encontrou com ele antes da pré-estréia do filme, na segunda-feira. A stripper de Jessica Alba interage com Clive Owen e Mickey Rourke, mas eles não estavam realmente lá, assim como o assassino serial de Elijah Wood. Brittany disse que o truque funcionará porque Rodriguez empregou atores experientes que apreciaram o desafio de empregar mais imaginação em suas atuações. "Eu sempre tive a teoria de que um bom ator pode ter uma boa química com uma parede, e isto prova que ela é verdadeira", disse ela. "É como um espetáculo solo." 5. Sexualidade explícita em um filme baseado em quadrinhos Muitos filmes baseados em histórias em quadrinhos receberam classificação PG-13 (menores de 13 anos podem entrar acompanhados de pai ou responsável) para ter apelo junto aos jovens leitores assim como para atrair famílias. Mas este filme de quadrinhos não é para o público do Archie. Com classificação "R" (menores de 17 anos só podem entrar acompanhados de pai ou adulto responsável) por violência exagerada constante, nudez e conteúdo sexual, "Sin City" exibe mulheres que são strippers ou prostitutas, com trajes reveladores -roupa de couro de dominatrix, calças de couro de cowgirl- ou nos casos de Carla Gugino e Jaime King, nada. Alba, que interpreta uma stripper, disse achar que o filme tem uma postura saudável em relação ao sexo que a maioria dos filmes com classificação "R" é tímida demais para adotar. "Robert quase coloca as mulheres em um pedestal como algo que você pode ver mas não tocar, até mesmo as prostitutas. A sensualidade delas fala algo sobre quem elas são." Miller e Rodriguez também usam os personagens para surpreender os espectadores. O bronzeado suave da pele de Alba é um dos poucos usos de cor no filme. Miller disse: "Muitas pessoas pensam na personagem como sendo simplesmente uma stripper. (Mas) você chega esperando uma stripper, e em vez disso encontra um anjo". 6. Ter três diretores a bordo Os diretores notoriamente gostam de fazer filmes sem a influência de pessoas de fora. O sindicato dos diretores até mesmo proíbe a divisão de crédito Mas Rodriguez queria compartilhar o trabalho com Miller. "O que ele estava fazendo nos quadrinhos era muito mais ousado do que qualquer coisa sendo feita no cinema, então achei que deveríamos emulá-lo, não apenas pegar seu material e enfiá-lo em um filme", disse Rodriguez. Assim Rodriguez se desfiliou do sindicato. Isto lhe custou a oportunidade de dirigir a aventura de ficção científica "Princess of Mars" da Paramount. (O sindicato proíbe que não-membros assinem projetos já em produção em um estúdio filiado.) Mas ele pode fazer filmes de forma independente e distribui-los por meio de um estúdio. Sua amizade com Bob e Harvey Weinstein, que chefiavam a Miramax e se separaram da Disney nesta semana para iniciar uma nova empresa, praticamente garante que ele continuará dirigindo filmes. Para "Sin City", Rodriguez queria ainda outro talento a bordo, seu amigo Quentin Tarantino, que atua como "diretor convidado especial" em uma seqüência. Rodriguez disse: "Eu realmente entrei neste ramo para fazer coisas novas e um cinema realmente legal, e não fazer parte de um clube". 7. Enfear atores conhecidos A maioria dos filmes uso o sex appeal masculino de seus astros. Mas os homens de "Sin City" são aberrações. O detetive calejado de Bruce Willis apresenta uma enorme cicatriz no rosto, Clive Owen é um fracassado pegajoso e Mickey Rourke está escondido atrás de uma máscara como um assassino que é uma mistura de uma pilha de blocos de concreto e o Hulk. Nick Stahl, de "O Exterminador do Futuro 3", interpreta um psicopata de "Sin City" que parece um sósia amarelo do anão Dunga. Até mesmo Benicio Del Toro, um ganhador do Oscar, interpreta um sujeito durão chamado Jackie Boy com um nariz falso. "Benicio ficou olhando e olhando para os quadrinhos e disse: 'Eu quero me parecer mais com ele'", disse Miller. "Eu nunca soube de um ator querendo uma prótese de maquiagem". Assim como as mulheres não se importaram em expor sua sensualidade, os homens estavam dispostos a descartar sua vaidade e obscurecer sua beleza de astros de cinema, segundo Rodriguez. "Os atores querem criar personagens memoráveis, eles não querem apenas interpretar a si mesmos nos filmes repetidas vezes", disse ele. Por Anthony Breznican - USA Today 3.4.05
Bicentenário do pato que virou um cisneO mundo inteiro comemorou ontem os 200 anos do genial criador do patinho feio, do soldadinho de chumbo e da pequena sereia Soldadinhos de chumbo, pequenas sereias - os críticos não se cansam de lembrar que as histórias de amor de Hans Christian Andersen nunca dão certo. Há diferenças inconciliáveis que impedem homens e mulheres de viver felizes, em harmonia. Têm a ver com a condição homossexual de Hans Christian Andersen, o maior de todos os autores para crianças. Otto Maria Carpeaux destaca essa característica do autor e explica como e por que, produto de uma sociedade repressora, Andersen refugiou-se no mundo da infância para sublimar sua sexualidade que não ousava dizer o nome.
Essa ligação de artistas com crianças volta e produz acusações de pedofilia, pelo menos na atualidade, quando Michael Jackson protagoniza um julgamento que virou evento midiático. A mesma suspeita pesou sobre James Barrie quando o diretor Marc Foster fez "Em Busca da Terra do Nunca", mas o cineasta garante que vasculhou a biografia do autor de Peter Pan e não encontrou suspeita de pedofilia. Se ela existisse, ele garante, jamais teria conseguido a cumplicidade de Johnny Depp para concluir o projeto. Também não pesaram sobre Andersen as acusações que perseguiram o Lewis Carroll de Alice no País das Maravilhas. O cinema voltou-se algumas vezes para esse autor. A animação "A Pequena Sereia", da Disney, bebe na fonte de Andersen para contar a história de Ariel, que desafia o pai, Tritão, e faz um pacto com a sinistra feiticeira do mar, Úrsula, para conseguir realizar seu amor por um belo príncipe. O desenho de John Musker e Ron Clemens já sinalizava, em 1989, para a revolução que iria ocorrer na animação, nos anos 1990, com as técnicas tradicionais de desenho sendo substituídas pelas infinitas possibilidades oferecidas pela digitalização. Como balé, dançado e coreografado por Roland Petit, "A Pequena Sereia" integra a cinebiografia de Hans Christian Andersen realizada por Charles Vidor nos anos 1950. O diretor do cult Gilda não pretendeu fazer uma biografia acurada do autor dinamarquês. Voltou-se mais para as suas histórias, transformadas em números de dança - o filme é musical - para refletir sobre ele e seu universo. O Andersen de Charles Vidor é interpretado por Danny Kaye, um ator hoje esquecido, mas cujo estilo fazia sucesso numa época em que os EUA ainda acreditavam no próprio sonho. Havia o país do sucesso e do dinheiro, das famílias perfeitas em casas de luxo de bairros burgueses - tudo aquilo que Douglas Sirk gostava de desmontar em seus sublimes melodramas e Todd Haynes transformou na matéria-prima de seu belo Longe do Paraíso. Kaye era gentil, assexuado, o que não o impediu de viver feliz durante 37 anos com a letrista e compositora Sylvia Fine Kaye, que compôs as canções da maioria de seus filmes. Uma delas, "All about You", de Cabeça de Pau, era considerada pelo próprio Cole Porter como ´a perfeita canção de amor´. Kaye, no fim da vida, virou emissário da ONU para a infância ou coisa que o valha, percorrendo o mundo sempre cercado por crianças, como o próprio Andersen que protagonizou na tela. O escritor era o primeiro a definir sua vida como um conto de fadas e assim intitulou suas memórias. É a história de um sujeito de origem humilde que conheceu o sucesso, foi chamado aos salões da realeza e adulado pelos poderosos de seu tempo, mas nunca conseguiu ser feliz. Viveu sempre angustiado, por trás da máscara de alegria e serenidade, o que hoje pode ser entendido como resultado da condenação ao armário que se (auto)impôs. Danny Kaye projeta simpaticamente o espírito e a filosofia de Andersen, mas como a história contada é tão fictícia quanto qualquer conto de fadas do artista, o diretor sentiu-se livre para ilustrar esse universo mágico por meio de canções e números de dança. O mais famoso foi justamente o que visualiza "A Pequena Sereia". Desenrola-se em seis sets com decorações exuberantes simulando o fundo do mar, a caverna da feiticeira e o palácio do príncipe, nas quais a unidade é dada pela música de Franz Liszt. Na época, a produção de Samuel Goldwyn foi considerada o tipo do programa familiar, mas hoje podemse perceber no roteiro de Moss Hart e na direção de Vidor indicações sobre esse lado mais secreto da vida (e da sexualidade) de Andersen. Deve ter sido, no fundo, o que motivou o diretor. Vidor entrou para a história pelo strip tease simulado num simples gesto de Rita Hayworth ao tirar as luvas em "Gilda", onde a relação dos personagens de Glenn Ford e Charles McReady sempre foi considerada o modelo do homossexualismo enrustido que os roteiristas gostavam de desenvolver como subtextos dos filmes para os quais contribuíam, numa época em que o Código Hays, que disciplina o uso do sexo e da violência na tela, ainda estava em vigência para garantir a inocência em Hollywood. Em "Gilda", o roteiro é de uma mulher, Marion Parsonnet, mas a bengala de McReady, com seu punhal embutido, há quase 60 anos - o filme é de 1946 - é motivo de especulação dos freudianos de plantão? In Memorian...
Karol Wojtyla (Papa João Paulo II) 1920 ~ 2005 Roteirista Our God's Brother (1997) & La Bottega dell'orefice (1988) 1.4.05
SPOILER ESPECIAL: It´s All True 2005
Festival exibe o melhor do documentário no Rio, SP e BrasíliaConfira uma mini-resenha de todos os documentários em competição: Competição InternacionalCompetição Nacional |