TOP10 SPOILER
1. Ratatouille
2. Paris, Te Amo
3. Treze Homens e um Novo Segredo
4. Harry Potter e a Ordem do Fênix
5. O Despertar de uma Paixão
6. Zodíaco
7. Lady Vingança
8. Shrek Terceiro
9. Ventos da Liberdade
10. Homem-Aranha 3

TOP3 JANEIRO
1. Babel
2. Apocalypto
3. Diamante de Sangue

TOP3 FEVEREIRO
1. Pecados Íntimos
2. Cartas de Iwo Jima
3. A Rainha

TOP3 MARÇO
1. Notas Sobre um Escândalo
2. O Cheiro do Ralo
3. 300

TOP3 ABRIL
1. Vermelho como o Céu
2. Ventos da Liberdade
3. Miss Potter

TOP3 MAIO
1. Lady Vingança
2. Homem-Aranha 3
3. Nome de Família

TOP3 JUNHO
1. O Despertar de uma Paixão
2. Zodíaco
3. 13 Homens e Outro Segredo


TOP10 CURTAS
1. O Nosso Livro
2. As Coisas que Moram nas Coisas
3. Alguma Coisa Assim
4. Balada das Duas Mocinhas de Botafogo
5. Yansan
6. Crisálidas
7. Tyger
8. Aquele Cara
9. Lady Christhiny
10. Meu Namorado é Michê

31.10.04

SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Al Pacino está em "O Mercador de Veneza", de Shakespeare


Que Al Pacino é um grande intérprete, não resta qualquer dúvida, mas suas últimas escolhas profissionais andavam bem abaixo de todo o seu potencial. Por isso é um enorme prazer vê-lo fazer "O Mercador de Veneza". É como se o ator aceitasse um novo desafio a cada cena. E, o que é melhor, corresponde à altura de um texto de Shakespeare.

"O Mercador" é uma das mais famosas peças do dramaturgo inglês que ainda não tinham tido uma grande adaptação cinematográfica. E não é difícil imaginar o motivo ao se assistir à versão feita por Michael Radford ("O Carteiro e o Poeta"), que será exibida pela última vez na 28a Mostra BR de Cinema no domingo, às 18h10, no Cinearte.

O maior problema que as platéias contemporâneas devem enfrentar com o filme é o teor anti-semita que impregna todo o texto. Logo de início, o filme mostra a tensão entre judeus e cristãos na Veneza do século 16.

E se aquele comportamento era natural naquela época, hoje soa politicamente incorreto. Mas o filme se mantém fiel ao espírito shakespeariano. Até porque essa rivalidade é o fio central da obra.

Pacino é Shylock, um judeu agiota que tem uma grande rivalidade com o comerciante cristão Antonio (Jeremy Irons), porque este empresta dinheiro sem cobrar juros. Apesar disso, o mercador pede emprestado 3 mil ducados ao judeu. O dinheiro é para seu amigo Bassanio (Joseph Fiennes), que irá usá-lo para galantear a rica herdeira Portia (Lynn Collins).

Shylock aceita fazer o empréstimo, pois se algo der errado será a chance que aguarda para se vingar das humilhações de Antonio.

Se a dívida não for paga em três meses, o judeu receberá como pagamento um pedaço de carne do corpo do mercador cristão. Quando Antonio fica sabendo que seus navios se perderam no oceano, acaba ficando à mercê de Shylock. E o caso vai parar no tribunal para decidir se o judeu irá cortar ou não um pedaço do comerciante.

Enquanto isso, Bassanio vai em busca do amor de Portia. Ela mantém três baús com relíquias diferentes -- um deles tem o seu retrato. Ela fez um juramento de se casar apenas com o homem que descobrir em qual deles está o retrato.

Não há dúvidas de que o filme é de Al Pacino, que se reinventa a cada cena. O seu judeu Shylock se faz de vítima a todo momento e em nenhuma cena isso soa falso.

Outra grata surpresa é Lynn ("De Repente 30"). Sua beleza e talento fazem de Portia uma das melhores personagens do filme. Fiennes, após interpretar o bardo em pessoa em "Shakespeare Apaixonado", vive sem muita empolgação um papel menor. Assim como Irons, que apesar do destaque no longa, não impressiona.

"O Mercador de Veneza" tem toda grandiosidade que filmes de época costumam ter. Com cenas rodadas na cidade italiana e em Luxemburgo, o longa tem um rigor e apelo visual de encher os olhos.

A fotografia de Benoît Delhomme tem textura e densidade, e a trilha sonora de Jocelyn Pook ("De Olhos Bem Fechados") contribui para fazer a diferença.



29.10.04

SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Robert Lepage descreve sonho divino


Parece que um dia o canadense Robert Lepage estava andando na rua, quando avistou uma tampa de máquina de lavar jogada no lixo. Ele apanhou aquele objeto que, de alguma forma, já começava a inspirar seu novo trabalho.

Aquela tampa, com orifício redondo hermeticamente fechado, passou a ser a base para a criação de "O Lado Oculto da Lua", uma peça de teatro de beleza estrondosa e que chega agora ao cinema numa primorosa adaptação para a telona (sessões hoje, às 21h50, na Sala UOL, e dias 30 e 1º).

Enquanto em "Os Sete Afluentes do Rio Ota" tudo partiu do retângulo (o formato do cenário camaleônico que se transformaria em dezenas de espaços dos três continentes retratados), em "O Lado Oculto da Lua" tudo partiu do círculo.

Do mesmo modo, aquela "janela" da máquina de lavar ora seria o próprio eletrodoméstico, ora a janela de uma cápsula espacial, ora o orifício de uma máquina de tomografia. O cotidiano, o vertiginoso e a grande questão humana. Como melhor do que eu, escreveu o crítico de cinema Carlos Alberto de Mattos: "O globo terrestre se dissolve na circunferência de uma máquina de lavar ao final do prólogo de "A Face Oculta da Lua". É uma dessas poderosas imagens-síntese que definem um filme".

Em "O Lado Oculto da Lua", Lepage parte da corrida espacial para criar uma metáfora comovente a respeito da competição entre dois irmãos e fazer uma reflexão sobre o narcisismo/individualismo modernos. No papel dos dois irmãos, o também diretor Robert Lepage interpreta, com sublime delicadeza, Philipe, cientista apaixonado pelo espaço, e André, repórter da previsão do tempo na TV canadense. Na peça, havia um texto que foi suprimido do filme, mas que ilustrava com perfeição a diferença entre os dois irmãos.

Philipe diz: "Não, Alexei Leonov não era um astronauta, ele era um cosmonauta. Não, não é a mesma coisa mesmo. Porque um cosmonauta é geralmente russo e um astronauta é geralmente americano. Mas as palavras não significam a mesma coisa. A etimologia da palavra astronauta é: navegador em busca de estrelas, e cosmonauta é: navegador em busca do cosmos. Não, não é a mesma coisa mesmo. Bem, porque cosmos é uma palavra muito, muito precisa. É o contrário de caos. Aliás, os gregos antigos usavam essa palavra para designar beleza, porque, para eles, a estrutura harmoniosa do universo era sinônimo de beleza".

"Por isso você tem hoje palavras como cosméticos, que vêm da mesma raiz de cosmos. Não, isto não faz deles "navegadores em busca de cosméticos", faz deles "navegadores em busca de beleza". O que exatamente você não entende? O que estou tentando dizer é que, por definição, um cosmonauta deveria ser alguém inspirado e um astronauta é sempre alguém bem financiado."

Eu não perderia este filme por nada neste mundo. O mundo que Philipe se propõe cinicamente a explicar a supostos seres extraterrestres enquanto se prova incapaz de conduzir a sua própria vidinha. O mundo que, para Philipe, para Robert Lepage e para mim, também será sempre uma enorme bola misteriosa na qual aparecemos como desimportantes figurantes de um brevíssimo sonho divino.

Para terminar, queria transcrever mais um pequeno trecho, que ficou de fora no filme, mas que dá o tom de Lepage e de Philipe ao defender, em sua tese, a construção de um elevador que conduza os habitantes da Terra à Lua:

"E que a gente construa o elevador no lado oculto da Lua, onde é impossível ver a Terra. Desta forma, estaríamos sendo forçados a parar de olhar para nós mesmos e olhar profundamente para o vazio e experimentar a vertigem extrema. Uma vertigem que é comparável àquela que você vivencia quando você perde seu pai e sua mãe e descobre que, apesar deles significarem o mundo para você, estavam apenas bloqueando a visão e impedindo você de enxergar o horizonte".

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  • "Estou feliz por ter trabalho", diz Julianne Moore


    Atriz estrela o drama "Os Esquecidos", filme fraco sobre amnésia

    Julianne Moore já teve quatro indicações para o Oscar, e, embora até hoje nenhuma delas tenha se concretizado, não é arriscado demais prever que um dia ela receberá a cobiçada estatueta. Mas isso dificilmente será por seu papel de Telly Paretta em "Os Esquecidos", seu último filme, que estreou esta semana na Espanha.

    Moore interpreta uma mãe de classe média de Nova York. Faz muito bem o papel, mas ainda assim seu trabalho se ressente pelo desparate da trama. Não há ponto de comparação com suas magistrais interpretações em "Boogie Nights - Prazer sem Limites", "Longe do Paraíso" ou "As Horas" e tantos outros filmes. Mas também a atuação é um ofício árduo, com altos e baixos, como insiste Moore, durante um encontro com jornalistas europeus.

    "Por que só aos 40 anos Julianne Moore se transformou em estrela?", pergunta de frente um colega. E ela, que vai completar 44, solta uma risada que mais parece uma erupção, sempre com novas e mais sonoras gargalhadas.

    "Isso minha mãe discutiria. Diria: 'Ela sempre foi uma estrela'". Ela demora um pouco para voltar à seriedade: "Sinto-me muito afortunada por ter um emprego. Comecei a trabalhar nessa profissão aos 22 anos e desde então sempre tive algum trabalho. Minha carreira profissional foi cumulativa. Dos teatros regionais passei para as telenovelas, dos roteiros alternativos da Broadway para as séries noturnas na televisão, dos papéis secundários no cinema aos de protagonista".

    Meg Ryan, Kevin Bacon ou John Travolta também começaram na televisão. "Se você é uma atriz jovem e alguém lhe oferece um trabalho, geralmente aceita. Parece um pouco absurda a idéia de que se pode planejar completamente uma carreira profissional. Esses jovens que de vez em quando saltam para a fama sem fazer escala em nenhum lugar são a exceção que confirma a regra", insiste.

    Ela tentou não recusar nenhum trabalho: "Desprezar o lugar em que se está não serve a ninguém e tampouco melhora o trabalho. Só se você tratar com muito respeito tudo o que fizer e realmente der importância a seu trabalho e a seus colegas irá em frente. É preciso ter uma ética de trabalho e acreditar no que faz".

    É tudo isso simplesmente mais um papel interpretado diante dos jornalistas por aquela que afinal, com sua palidez avermelhada, é uma das atrizes mais belas e marcantes das telas do século 21? Vinte minutos de conversa não dão para pôr a mão no fogo sobre isso, mas a sensação que Julianne Moore transmite é que sim, é uma mulher com os pés firmemente plantados no chão.

    Tem dois filhos, um menino de 6 anos e uma menina de 2, e não demora para desconectar depois do trabalho: "Volto para casa, abraço a todos, falo com eles sobre o que fizeram e em cinco minutos esqueci o cinema". Seu marido é o diretor de cinema Bart Freundlich.

    Julianne Moore mora em Nova York em uma cobertura de luxo, sim, mas no histórico bairro boêmio de Greenwich Village. Não longe dali, do outro lado do rio East, em Brooklyn Heights e sob as pontes que dão acesso a Manhattan, foi filmado "Os Esquecidos".

    Moore teve muito a ver com a escolha de um roteiro que lhe permitiu voltar todas as noites para casa. "Originalmente o filme se passava em Boston", conta. "Mas eu, com muita cortesia, disse ao diretor e aos produtores: 'Não há nenhum motivo para rodar em Boston; Nova York está muito bem'. Eles alegaram que era mais caro e puseram milhares de empecilhos. Afinal, porém, viram que valia a pena e também entenderam que assim eu ficaria incrivelmente feliz", afirma.

    Em seu rosto, um sorriso malicioso. Não deve ser fácil negar alguma coisa a essa mulher. Por tudo isso, seu papel em "Os Esquecidos", de mãe aterrorizada pela suspeita de que a memória de seu filho possa estar a enganá-la, não difere muito da imagem que transmite de si mesma.

    "Eu não quis que fosse uma super heroína, mas a vizinha do lado. Ela se veste como as nova-iorquinas que conheço, é uma mãe trabalhadora, tem um filho, um marido, uma casa. Não há nada de extraordinário nela. É como todos nós. E está passando por um mal momento".

    O pesadelo desse personagem tem um nome: amnésia. "É um clássico tema da literatura do cinema", explica Moore. "Perder a memória significa também perder a identidade. Somos o que lembramos." E ela, Julianne Moore, é isso: filha de um juiz militar e de uma trabalhadora social americanos, que pouco a pouco abriu seu caminho. Atriz e mãe, só falta um terceiro papel para resenhar: o de ativista social, embora não política, porque desse assunto prefere não falar.

    "A fama de pouco serve, mas permite chamar atenção sobre assuntos que importam. Infelizmente, hoje em dia as pessoas só prestam atenção nos temas em que existe um personagem da mídia envolvido. É lamentável, mas é assim. Eu sou ativista a favor do direito ao aborto, mas também participo de uma aliança que cuida de tuberoesclerose, uma doença de que se sabe muito pouco até hoje. Também serei uma das personalidades que participam da direção da Cruz Vermelha".

    Confira o site e o trailer do filme aqui!
    Por Ciro Krauthausen



    28.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Para Kiarostami, Hollywood é mais poderosa que Exército


    O cineasta iraniano Abbas Kiarostami, um dos homenageados da 28a Mostra BR de Cinema de São Paulo, conversou com jornalistas nesta quarta-feira e falou sobre sua paixão pelo cinema digital e da dominação cinematográfica dos Estados Unidos no mundo.

    Ao falar de seu amor pelo cinema digital, Kiarostami disse que nunca mais abandonou esse tipo de câmera depois de ser obrigado a usá-la para refazer algumas cenas de "O Gosto de Cereja" (1996). "Foi uma grande descoberta. Abriu caminhos maravilhosos para a criação", declarou.

    No entanto, quase dez anos após sua primeira experiência digital, ele se mostra mais receoso com esse tipo de suporte. "O importante é quem conduz a câmera, independente de ser digital ou não. Isso é igual a uma faca na mão de um cirurgião e de um assassino", compara. Mesmo em seu país, ele disse, muitos diretores têm feito mau uso da técnica.

    Quando começou a usar o suporte digital, o diretor afirmou que enfrentou muito preconceito. "As pessoas diziam que isso nem era cinema. Mas esse tipo de afirmação é uma arma do cinema norte-americano para acabar com os pequenos", declara.

    O cinema de Hollywood, aliás, tem um lugar importante no discurso de Kiarostami. Em seu mais recente trabalho, o documentário "10 sobre Dez" (uma das atrações da Mostra), o diretor diz que o poder da indústria cinematográfica dos EUA é maior do que o poderio militar norte-americano. No entanto, ele não deixa de destacar a importância da fórmula deste cinema.

    "É uma fórmula do sucesso. Foram os franceses que inventaram o cinema, mas foram os americanos que o fizeram funcionar até hoje", reconhece. Ele não nega que existam boas produções no país, mas adverte: "o que há de ruim no cinema dos EUA é quando ele não deixa crescer as produções de outros países", explica.

    Para Kiarostami, os chamados filmes de arte devem ser, no mínimo, visualmente atrativos. "Eles devem ser bonitos visualmente, para atrair o público. Se não, podem ser cansativos também", disse.

    Em "10 sobre Dez", documentário sobre seu filme "Dez" (também na Mostra), o cineasta destaca o gosto em trabalhar com atores não-profissionais.

    Segundo ele, "a boa performance é aquela que não é vista como atuação". "A primeira tomada sempre é a melhor, mais natural, mais espontânea, pois nela os atores não atuam, mas vivem no filme", explicou.

    Por ser tão centrado no trabalho de seus intérpretes, o diretor diz não se preocupar muito com as questões técnicas, como iluminação e som. "Sempre beneficio os atores", justificou.

    Sobre o cinema brasileiro, disse conhecer muito pouco -- apenas produções que consegue ver em festivais pelo mundo.

    "Chamaram a atenção filmes como 'Central do Brasil' e 'Eu, Tu, Eles'. Mas os EUA dominam o mercado mundial de tal forma, que mesmo quem gosta de outros tipos de filme não consegue encontrá-los", conclui.

    Kiarostami estará em diversas atividades paralelas do festival na quinta e sexta-feira. Haverá uma sessão especial do mais recente filme do cineasta, o documentário "10 sobre Dez", na quinta-feira, às 19h30, na FAAP. Logo após a exibição, o cineasta dará uma aula magna para o público -- os ingressos para o filme darão direito a participar do evento. Para assistir ao filme e à aula, os ingressos devem ser comprados com meia hora de antecedência na bilheteria da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado, na rua Alagoas, 903).

    Na sexta-feira, às 19h, o diretor participará de um debate com o público no Clube da Mostra, no Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073). Após o debate, será realizada a sessão de autógrafos do livro "Abbas Kiarostami", publicado pela editora Cosac & Naify, em parceria com a Mostra. Além de textos escritos pelo cineasta, a publicação reúne fotos assinadas pelo diretor.

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  • SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    São Paulo vira vitrine de Kiarostami


    Às vésperas do início da Mostra, José Simão soltou: "Você passa duas horas em pé esperando o filme começar e duas horas sentado esperando o filme terminar. E não termina nunca, porque filme iraniano é mais lento que o Eduardo Suplicy!".

    Não perca a piada, mas também não perca o filme -um conjunto, na verdade. O festival apresenta uma retrospectiva com 14 filmes do maior cineasta iraniano, Abbas Kiarostami. Há mais de uma década, seus filmes são exibidos com freqüência por aqui e constituíram espécie de abre-alas para outros diretores significativos daquele país, como Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi.

    Entre os filmes do pacote, dois são inéditos em SP: "10 sobre Dez" (2003) e "Cinco" (2004). No primeiro, Kiarostami se debruça sobre seu modo de fazer cinema em dez capítulos, como "o ator", "a locação", "a câmera", "a música". A aula se dá com o diretor ao volante em estradas nas montanhas próximas a Teerã, observado por uma câmera digital -assim como em "Dez" (2002) e "Gosto de Cereja" (1996).

    Não é uma discussão fechada na técnica, mas a forma como todos esses recursos colaboram para que ele se expresse de modo eficaz. Grosso modo, a espontaneidade dos seus filmes não existiria sem o uso constante de não-atores e câmeras pequenas, pouco invasivas. A escassez da música é um modo de evitar que a emoção do público seja manipulada.

    Em livro que leva o nome do diretor, lançado por conta da Mostra, há um texto escrito por Kiarostami, intitulado "Duas ou Três Coisas que Sei sobre Mim". A certa altura, diz: "É preciso antecipar um cinema "in-finito" e incompleto, de modo que o espectador possa preencher os vazios...".

    Essa construção da incompletude -com o perdão do paradoxo- conduz "10 sobre Dez", mas pode ser notado com radicalidade em "Cinco". Estamos diante de um candidato sério a igualar a surpresa provocada por "Através das Oliveiras", vencedor do prêmio da crítica na Mostra de 1994.

    São cinco seqüências de câmera fixa diante do mar Cáspio -cada uma com pouco mais de dez minutos. Um galho é submetido ao vaivém das ondas até se partir; o reflexo da lua nas águas é acompanhado pelo som dos sapos, e daí por diante.

    Descrições são insuficientes, inúteis provavelmente. Explica-se: o iraniano devolve ao cinema o estatuto de arte em diálogo com as demais, daí a necessidade de abolir a narrativa tradicional. Em "Cinco", cinema é pintura, ali vemos Turner, Monet, Pollock (Kiarostami fez faculdade de belas-artes). "Cinco" ainda é poesia, é música/ruído. Por fim, os movimentos mínimos não impedem a existência da tensão, assim como havia na câmera estática mais famosa da história do cinema, de "A Chegada do Trem à Estação", dos irmãos Lumière.

  • "The Traveller" (1974): Como todo garoto de 10 anos, Qasem vive em uma pequena cidade iraniana e sua maior diversão é passar a tarde inteira jogando futebol com os amigos. Os deveres do colégio são, portanto, deixados para serem realizados à noite. Quando descobre que a seleção do país tem um jogo marcado em Teerã, o menino se desespera tentando encontrar uma maneira de viajar até a capital. Para conseguir o dinheiro da passagem, ele mente, rouba e trapaceia até o melhor amigo.

  • "The Report" (1977): O protagonista é um coletor de impostos, acusado de aceitar suborno. Além dos problemas no trabalho, o homem ainda tem que lidar com as crises da esposa que há pouco tentou se suicidar. Após a Revolução Islâmica, em 1979, o filme foi censurado por abordar temas que só diziam respeito à família

  • "First Graders" (1984): O documentário foi rodado na escola primária Tohid, na metade da década de 80. Os alunos arrumam alguma confusão e o diretor é chamado para resolver o conflito. Ele observa, interroga e confronta as crianças de maneira a incutir nelas senso de responsabilidade. Fica visível uma espécie de jogo pedagógico baseado em métodos severos utilizados no sistema de ensino do Irã.

  • "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" (1987): O garoto Ahmad, ao fazer seu dever de casa, percebe que pegou o caderno de seu amigo por engano. Sabendo que o professor exige que as tarefas sejam feitas no caderno, escapa das vistas de sua mãe e parte em busca do colega. Ele vai até uma vila nos arredores com o intuito de encontrá-lo para devolver o caderno. Chegando lá, encontra-se com diversos moradores e vivencia o dia-a-dia de cada um num ritmo lento e extremamente real. A vila fica no alto das montanhas e já foi utilizada em outros dois filmes de Kiarostami. Com essa história, o diretor deu início a uma trilogia que mostra a vida dos moradores de um vilarejo simples e pacato do Irã, retratando como estes se recuperam de um terremoto devastador. Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) é o primeiro da série. Em seguida realizou Vida e Nada Mais (E A Vida Continua) (1992, 17a. Mostra) e Através das Oliveiras (1994, 18a. Mostra).

  • "Lição de Casa" (1989): O diretor Abbas Kiarostami, que já trabalhou como professor de artes e cinema, faz uma análise do sistema de ensino em seu país. As crianças expressam suas opiniões, contam um pouco de suas vidas e falam dos problemas que enfrentam diante dos pais analfabetos ou impacientes, que não estão familiarizados com os modernos métodos de ensino e não conseguem ajudar os filhos com as lições de casa que consideram excessivas.

  • "Close Up" (1990): Semidocumentário sobre um jovem cinéfilo frustrado, preso pela polícia ao se fazer passar por Mohsen Makhmalbaf, célebre diretor de cinema iraniano. Apresentando-se como Makhmalbaf perante uma família rica, o homem dizia pretender usar sua casa como cenário e escalá-los como atores em seu próximo filme. Desmascarado, é preso e levado a julgamento. Ao visitar o acusado na prisão e obtendo permissão para filmar seu julgamento, Abbas Kiarostami dá ao acusado a oportunidade de revelar suas razões e argumentos para montar esta farsa, revelando uma pessoa que apenas no momento em que se fez passar por outro se sentiu realmente importante.

  • "Vida e Nada Mais - a Vida Continua" (1991): Um road movie que mistura crítica social com o registro de uma tragédia. Junto com seu filho, um cineasta faz uma viagem pela região norte do Irã, local atingido por um forte terremoto em 1990, para reencontrar os dois jovens atores de seu filme Onde Fica a Casa do Meu Amigo (do próprio Abbas Kiarostami). No caminho, testemunham diversos acidentes e se defrontam com o caos gerado pelo terremoto. Apesar de desolados, os habitantes da região não se abatem e, ao mesmo tempo em que lutam para resgatar dos escombros o que restou, assistem aos jogos da Copa do Mundo.

  • "Através das Oliveiras" (1994): Um cineasta filma no interior do Irã, numa região marcada pela pobreza e abalada por um terremoto. Paciente, ele conversa com as pessoas e se interessa pelos pequenos dramas de todos. Os atores são recrutados entre os habitantes e o final das filmagens acaba retardado porque dois dos selecionados não conseguem repetir as falas de uma cena banal. O jovem está apaixonado pela atriz e, no fundo, ele erra as falas para retardar a separação dos dois. Nos intervalos, implora que ela se case com ele e, quando o diretor encerra os trabalhos, ele aproveita os últimos instantes para conquistá-la. Vencedor do Prêmio da Crítica da 18ª Mostra.

  • "Gosto de Cereja" (1996): Premiado com a Palma de Ouro no 50º Festival de Cannes, o filme acompanha a trajetória do senhor Badii. Ele é um homem de 50 anos e está vagando em seu carro pelos pontos da cidade onde desempregados se oferecem para trabalhos avulsos e ocasionais. O senhor Badii tenta encontrar em meio a esse gente alguém disposto a entrar no seu carro e ganhar um dinheiro rápido e fácil em troca de um trabalho. Um trabalho difícil de explicar e que ninguém parece disposto a aceitar. O senhor Badii dialoga com uma série de personagens que vivem mais ou menos à margem da sociedade e que recebem sua proposta com reações variadas. Há quem aceite entrar no seu carro e ouvi-lo até o final. Difícil é encontrar alguém que aceite a sua generosa oferta. O que o senhor Badii quer é alguém que se disponha a atender ao seu último desejo, na aurora do dia seguinte: chamá-lo pelo nome duas vezes, ao pé de uma cova já cavada; se ele responder, socorrê-lo; se não responder, cobri-lo com terra. O gosto da cereja é uma lembrança sugerida pelo único personagem que deixa aberta a possibilidade de colaborar com o senhor Badii. O seu relato emocionante também usa o tema do suicídio, mas para inspirar amor à vida.

  • "O Vento nos Levará" (1999): Abbas Kiarostami retoma a temática da morte, tratada com brilhantismo no premiado Gosto de Cereja. Poesia, sensibilidade e fotografia belíssima compõem o quadro das certezas e das dúvidas humanas. Mais uma vez Kiarostami trabalha com pessoas comuns, adultos e crianças sem experiência no cinema, de uma forma comovente e encantadora. Um grupo de pessoas saem de Teerã para passar alguns dias na remota vila de Siah Dareh, no Curdistão iraniano. Os habitantes ignoram a razão de estarem ali. Os visitantes vão a um antigo cemitério e andam em torno dele, fazendo com que os moradores acreditem que estão procurando por tesouros. Mas eles deixam o lugar como se não tivessem encontrado o que estavam buscando. Na verdade, é o ritual funerário que atrai uma rede de TV iraniana para a pequena vila de Siah Dareh, no Curdistão iraniano. Querem filmar um destes rituais mas não podem prever a morte para realizar o documentário. A vida insiste em vencer neste filme que ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Veneza/1999.

  • "ABC Africa" (2001): O filme rendeu algumas experiências inéditas na vida do consagrado diretor iraniano Abbas Kiarostami. Pela primeira vez ele filmou fora do Irã e utilizou câmeras e tecnologia digitais. O diretor viu ainda modificada toda a visão que tinha da África. "Honestamente, eu não tinha nenhum conhecimento sobre o continente africano além daquele que recebia pela mídia, mas devo acrescentar que esse conhecimento foi totalmente transformado depois dessa experiência", diz o cineasta. Tudo começou em abril de 2000, quando Kiarostami viajou para Kampala (Uganda) a convite do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (IFAD), associação humanitária mantida pela ONU. Durante dez dias filmou as histórias de centenas de crianças e adolescentes, todos órfãos, cujos pais foram vítimas da Aids, doença que já deixou 1,6 milhão de órfãos no país. O convite era para que registrasse a ação da Uweso (Uganda Women´s Effort to Save Orphans), uma associação de mulheres ugandenses que trabalha para a salvação de centenas de milhares de órfãos da Aids no país. O registro rendeu um documentário tocante, repleto de risos e lágrimas e marcado por desilusões e esperanças

  • "Dez" (2002): Dez seqüências na vida emocional de seis mulheres e os desafios com que elas se deparam num momento particular de suas vidas. Dez episódios que se passam em dias diferentes, mas sempre no carro de uma jovem mulher. Divorciada e recém-casada com outro homem, ela tem um filho do primeiro casamento, que, no entanto, não cansa de culpá-la por não agir dentro do código moral do Irã. Além de seu filho, ela dá carona a várias mulheres: uma prostituta, uma jovem apaixonada, uma senhora, criando um sensível retrato da feminilidade no Irã.

  • "10 sobre dez" (2003): Abbas Kiarostami voltou a Teerã, mergulhando na reflexão sobre seu processo criativo. O resultado está neste filme, em que ele compartilha as experiências de uma carreira de mais de 30 anos e 36 filmes, dividindo-as em dez capítulos: introdução; câmera; assunto; roteiro; locações; música; o ator; equipamentos; o diretor de cinema; a última lição. Para o diretor, o cinema é simples: tudo o que se precisa é uma câmera, três lentes e um par de tripés. Cada movimento de câmera ou a ausência dele deve ter uma boa razão. A câmera DV, que ele descobriu quando precisou refilmar às pressas as cenas finais de Gosto de Cereja, arruinadas no laboratório, é hoje uma de suas paixões. Kiarostami vê nessa pequena câmera portátil o instrumento ideal para abolir clichês e superar pretensões estéticas. No seu entender, por seu baixo custo, a tecnologia digital libera os cineastas para serem tão independentes como escritores, pintores e escultores, além de fornecer-lhes mais uma arma em países onde ainda existe a censura, como o seu. Finalmente, Kiarostami estabelece as ligações de seu cinema com o neo-realismo italiano, invocando os ensinamentos de Cesare Zavattini, que acreditava que os temas para os filmes podem ser encontrados sempre à nossa volta, nas ruas.

  • "Cinco" (2004): Neste trabalho intensamente contemplativo, Abbas Kiarostami convida o espectador, como ele mesmo diz ( a olhar para as coisas que, em si mesmas, não são particularmente merecedoras de um olhar mais atento). Encontrando-se no norte do Irã, perto do mar Cáspio, o diretor utilizou-se apenas de sua câmera DV para filmar os acontecimentos singelos que aconteciam nos 500 metros de praia diante de sua casa - um pedaço de madeira levado ao sabor das ondas, pessoas caminhando à beira-mar, patos barulhentos, a paisagem desolada de uma praia no inverno. Para Kiarostami, aqui se revela um mundo inteiro. "É um trabalho que se aproxima da poesia, da pintura, e que me liberou da obrigação da narrativa e da escravidão da direção". Através de sutis mudanças no enquadramento e suaves movimentos de câmera, o diretor consegue criar uma atmosfera diferente em cada tomada. O filme teve sua pré-estréia mundial no Festival de Cannes de 2004, onde foi exibido fora de competição.



  • 27.10.04

    Somente socos e explosões, fogo e batalha...


    No último DATASPOILER, perguntei qual o filme que representava melhor o gênero ficção científica. O resultado foi inesperado: A trilogia "De Volta para o Futuro" foi escolhida por 25% dos leitores, ao passo que "Star Wars" ficou em segundo com 23% e "Blade Runner" em terceiro com 15%. Agora chegou a hora do gênero AÇÃO!

    Existe, creio eu, uma razão comum à todos aqueles que não gostam de filmes de ação: 99% das lutas são gratuitas, completamente desprovidas de significado, o que denota uma extrema pobreza nos roteiros que se resumem a criar situações para socos e explosões - as mais diversos e mirabolantes - e convenhamos, muitas vezes cômicas. Existem alguns filmes que quase "se salvam" porquê se tornam praticamente comédias invonluntárias. Mas na maioria não valem a pena.

    "Matrix", por exemplo, andou sempre em terreno perigoso. No primeiro filme, as lutas tinham um significado, mostravam o desenvolvimento de Neo. Já no segundo se tornaram exageradas e gratuitas, consequentemente maçantes. Eu assisti o filme duas vezes e nas duas a galera caiu na risada quando aquelas portas se abrem e saem dezenas de Smiths para dar mais alguns minutos a cena, que já estava longa. Na cena da rodovia o Morpheus planta bananeira na extremidade lateral do caminhão, depois volta, fica pendurado, volta de novo, pra depois cair de costas no carro da Niobe, depois de ficar "batendo asas". Não afirmo que o filme perdeu o seu conteúdo mítico e filosófico. Mas acho que "Reloaded" é inferior ao primeiro por insistir em demasia nestes recursos. Além disso, sejamos honestos, não há uma só performance dramática de relevância em todo o filme. Mesmo assim arrisquei assistir o terceiro e a decepção foi maior ainda.

    Compilando os melhores filmes de ação, percebe-se definitivamente que não suporto o gênero! Não esperem portanto, filmes do Van Damme, Arnold Swazenegger e Sylvester Stallone nessa lista. No fim, acabei optando pelos sub-generos Fantasia ("Senhor dos Aneis" e Star Wars"), Artes Marciais ("Sete Samurais", "Kill Bill" e "O Tigre e o Dragão") e Guerra ("Apocalipse Now" e "O Resgate do Soldado Ryan"), restanto somente "Cães de Aluguel" como ' Action-movie' legítimo, mas esse é do Tarantino e portanto uma exceção.

    1. Trilogia "Senhor dos Anéis" (2001, 2002, 2003): O sucesso de ''O Senhor dos Anéis'' em condições tão adversas (basta se ver a quantidade de erros e fracassos que Hollywood produz a cada ano), adaptando uma obra tão difícil e monumental, é realmente algo a ser louvado e celebrado. Tanto que certamente os fãs, antigos e novos, ainda vão querer assistir às outras edições (por uns anos ainda teremos filhos dele, até um dia chegar a um único filme unindo os três episódios). É curioso como se tem menos a dizer quando se gosta de um filme. Malhar é até mais fácil. De qualquer forma, ''O Senhor dos Anéis é uma grande trilogia.

    2. "Os Sete Samurais" (1954): Akira Kurosawa nunca deixou de reconhecer a influência que os épicos do norte-americano John Ford exerceram sobre Os Sete Samurais. Na realidade, a obra-prima do diretor japonês foge do excessivo formalismo do cinema nipônico tradicional, com suas imagens altamente estilizadas, para se situar na vertente da cultura ocidental, notadamente dos westerns. Em Os Sete Samurais tudo é grandioso, mas pautado por um rigor absoluto, como fica evidente nas seqüências de batalha, as quais lembram grandes afrescos que anunciam, três decadas antes, as inesquecíveis imagens bélicas de Kagemusha, a Sombra dos Samurais e, sobretudo, Ran. A epopéia dos camponeses que contratam os serviços de samurais para se proteger de bandoleiros foi recontada por John Sturges, seis anos depois, em Sete Homens e Um Destino.

    3. Trilogia "Star Wars" (1977, 1980, 1983): Numa estrutura mitológica típica, é um desafio comum deixar o mundo limitado em que se foi criado, enfrentar provações orientado por alguém, adquirir algo que estava faltando e voltar. Em "Star Wars", Luke Skywalker (Mark Hammil), deixa o planetinha desértico em que vive, inicia suas viagens pela galáxia na companhia de Obi-Wan Kenobi, o mesmo mestre que orientou seu pai no passado, enfrenta o lado negro da força, torna-se um jedi e retorna ao seu planeta para libertar seus amigos, incluindo sua irmã gêmea - outra idéia arquetípica. Essa é a jornada do herói, apenas uma entre dezenas de estruturas míticas existentes nos filmes.

    4. Trilogia "Indiana Jones" (1981, 1984, 1989): Por mais que tente, jamais poderei dizer quando foi que Indiana Jones passou a ser um símbolo para mim. Um dos poucos heróis criados originalmente para o cinema, o arqueólogo aventureiro conseguiu com apenas três filmes se tornar parte da cultura pop do final do século XX, curiosamente sem qualquer ligação com a pretensão tecnológica comum a tudo que nasceu neste período. Opondo-se a saga futurista do jovem Skywalker, Indiana Jones impressiona pela simplicidade da produção. A dupla e toda a equipe sempre tiveram em mente o que queriam do filme. Professor de Arqueologia e apaixonado por história, Dr. Jones não fugia de uma aventura regada a muitos perigosos e ação desde que estivesse envolvido algum artefato lendário, que em mãos erradas, poderia levar a humanidade a destruição. Por se ambientar em pleno período pré-Segunda Guerra Mundial, nunca teríamos uma arma tecnológica ou dispositivo 007 para ajudar Indiana. Suas únicas armas eram um revólver e o chicote, além dos inseparáveis chapéu e a jaqueta de couro.

    5. "Apocalipse Now" (1979): A nova versão do clássico de Francis Ford Coppola voltou recentemente ao cinema reeditada, remixada e com 53 minutos inéditos! Considerada por muitos como o melhor filme feito sobre a Guerra do Vietnã, Apocalypse Now conta a história do Capitão Willard (Martin Sheen), um oficial do exército americano cuja missão secreta se resume a ir ao Camboja e matar um tal Coronel Kurtz (Marlon Brando). Kurtz aparentemente enlouqueceu e passou a agir por conta própria, usando métodos "anormais". Mas isso é apenas um pedaço desta obra ganhadora de vários prêmios, entre eles a Palma de Ouro em Cannes, o Globo de Ouro e dois Oscar (fotografia e som). Por trás, há um filme de metáforas, difícil de abarcar em uma sinopse. "Apocalypse Now" não é um filme para ser entendido. É para ser sentido.

    6. "Matrix" (1999): Como posso falar do melhor filme de ficção da história e um dos melhores filmes já feitos? Ficou em 3º lugar nas bilheterias de 1999, arrecadou mais de 450 milhões de dólares, o filme mais vendido da história e as melhores cenas de ação já feitas, e o que falar? Eu aqui escrevendo essa círtica pensando que sou uma partizinha, um pedacinho minúsculo de um progama de computador, ou seja sou dominado e controlado por máquinas com inteligência artificial, e Matrix é o nome do mundo onde estou vivendo a realidade, que fora desse mundo estaremos em um futuro que nós os seres humanos somos cultivados por essas máquinas. Você acredita nessa possibilidade? Bem...

    7. "Kill Bill vols 1 e 2" (2003): Tome um filme de Bruce Lee produzido na China, depois pegue um clássico de Sérgio Leone e uma mente tresloucada de um cinéfilo incondicional. Misture tudo isso a referências cinematográficas diversas, muita informação de cultura pop, situações improváveis, diálogos incisivos e muito, muito sangue. O produto final é Kill Bill, filme que só poderia sair da cabeça do genial Quentin Tarantino, maluco o suficiente para ter o controle de fazer um filme sangrento, mas que, após um balanço racional, não descamba para a violência desnecessária.

    8. "O Resgate do Soldado Ryan" (1998): Quando entrou em cartaz nos Estados Unidos, em julho de 1998, O filme causou grande comoção pelos seus 20 minutos iniciais, tidos como os mais violentos da história do cinema. Sem dúvida, há mais sangue ali do que se costuma ver nos blockbusters comumente lançados nesta época do ano, o verão deles. Mas há de se convir também que aquela seqüência inicial representa apenas uma parte do que realmente aconteceu no dia 6 de junho de 1944, o Dia D. Nesta batalha inicial há cenas que fizeram muita gente no cinema fechar os olhos, ou até sair da sala. Ainda na água, soldados morriam afogados tentando se livrar de todo o pesado equipamento que carregavam. Outros, eram atingidos por balas. Na terra, a coisa não estava melhor. Os alemães descarregavam sua artilharia sem piedade de dentro dos bankers (pequenas fortificações). Explosões faziam voar pedaços de americanos para todos os lados. Uma das cenas que mais marcou foi a do soldado procurando seu braço, ou então aquela em que outro leva um tiro na cabeça enquanto verificava o capacete que tinha salvado sua vida segundos antes. Ironias sem graça que só uma guerra pode produzir. Só por essa cena, vale o filme todo que recebeu 5 OSCARs, incluindo diretor (Spielberg) e Edição de Som (A minha referência clássica para aqueles que não sabem o que é Edição de Som).

    9. "Cães de Aluguel" (1992): Violento, engraçado, original, ousado, arrebatador, surpreendente, obra-prima. Isso é Cães de Aluguel. O filme de estréia do diretor que, com apenas dois filmes, iria sacudir os alicerces de toda uma indústria bilionária, é uma obra de arte em todos os sentidos. Cães de Aluguel é um exercício sublime da linguagem cinematográfica, um filme inovador que conseguiu arrancar risadas do público em meio a um banho de sangue exagerado e surreal. Originalidade é o nome do meio do gênio que é Quentin Tarantino.

    10. "O Tigre e o Dragão" (2000): Brinquedos, pérolas ou eletrodomésticos. Os produtos chineses são geralmente discriminados e taxados como de segunda linha. O mesmo acontece com o cinema. Apesar de ser um dos mais ricos mercados produtores de filmes do mundo e o maior do oriente, os filmes da região dificilmente conseguem emplacar na América. "O Tigre e o Dragão" chegou para quebrar este tabu. Dirigido por Ang Lee, este épico baseado numa série de livros chineses foi aplaudido em pé em Cannes, é o filme em língua estrangeira mais visto no poderoso mercado ianque e recebeu quatro Oscar´s em 2001. Público, mercado e críticos se renderam ao estilo chinês de fazer filmes de ação. Quem gostou das lutas de Matrix vai se deliciar com o trabalho do coreógrafo Yuen Wo-Ping, fazendo os atores voar, andar sobre a água e, claro, lutar como nunca!

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  • 26.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "O Abraço Partido" mostra Buenos Aires multicultural


    Em "O Abraço Partido", do argentino Daniel Burman, os pequenos detalhes têm uma extrema importância. Apresentando uma Buenos Aires multicultural, o cineasta mostra que o jovem cinema argentino tem muita força. E para provar essa tese, basta dar uma olhada em "La Niña Santa", de Lucrecia Martel, e "Família Rodante", de Pablo Trapero, que também fazem parte da 28a Mostra BR de Cinema.

    "O Abraço Partido" foi exibido nesta segunda-feira, no Cineclube Directv, e deve ser reprisado na terça-feira, às 18h10, no Cinearte.

    Quando o brasileiro "Olga" (de Jayme Monjardim, 2004) foi escolhido para tentar uma vaga entre os cinco finalistas ao Oscar de Melhor filme estrangeiro, a reação foi quase imediata: "enfim temos chances de ganhar o troféu". Tal pensamento veio à mente porque o filme sobre a judia-alemã-comunista tem tudo para cair no gosto dos votantes desta categoria, na sua maioria judeus de idade avançada. Desta vez, o nosso indicado finalmente fala de judaísmo, sofrimento e holocausto, temas tão caros à Academia.

    Porém, depois de ver "O abraço partido", a chama da esperança começa a evanescer. O filme que representa o cinema argentino, em excelente fase, compartilha o judaísmo e tem muito mais. A história sobre um jovem nos seus vinte e tantos anos em busca da sua própria identidade não usa de golpes baixos para conseguir lágrimas e ainda consegue algumas risadas.

    O protagonista e narrador é Ariel Makaroff (Daniel Hendler). Vale a pena chegar mais cedo ao cinema para não correr o risco de perder os primeiros minutos, quando ele vai mostrar a Galeria onde a maior parte da história se passa e todos os seus personagens. Segundo Burman, que tem apenas 30 anos, aquele amontoado de lojas no centro de Buenos Aires é uma das possíveis leituras da Argentina das últimas crises. Há por ali um cheiro de fracasso e marasmo. E para Ariel, há algo ainda pior: todos os seus traumas de infância. A loja na qual trabalha é gerenciada por sua mãe (Adriana Aizenberg) e estampa no vidro o nome do pai, que saiu da Argentina quando ele era apenas um bebê e nunca voltou.

    Sua única lembrança do pai vem de um vídeo velho. Era o dia de sua circuncisão e Elias (Jorge D´Elía) aparece rapidamente na tela. "Que tipo de cara é este que se diverte cortando o pipi de seu filho e em seguida desaparece por trinta anos, sem dar explicações?", questiona Ariel. Ele sabe que o pai está vivo - em Israel, onde lutou na Guerra de Yom Kippur, e decidiu ficar - , mas não compreende, nem desculpa esta atitude.

    Para fugir de todos estes problemas há uma solução: conseguir o passaporte polonês a que tem direito por ter avós emigrantes de lá. Assim, poderá finalmente terminar sua faculdade na Europa e ficar pelo velho continente. Durante e após a última forte crise argentina, em 2001, a buscar por passaportes europeus disparou no país. Este foi o ponto de partida para que Burman escrevesse o roteiro junto com o jornalista Marcelo Birmajer. O diretor chegou a conseguir sua cidadania polaca e conta que a entrevista na embaixada polonesa que ele mostra em seu filme é muito parecida com a que teve de enfrentar. Mas o que mais lhe movia era o dilema moral: por que ele estava pedindo cidadania de um país que expulsou seus avós pelo simples fato de serem judeus?

    Para ajudá-lo a contar mais esta história, Burman chamou novamente o ator uruguaio Daniel Hendler. Esta é a terceira vez que trabalham juntos. Antes, fizeram "Esperando o Messias" (2000) e "Todas as aeromoças merecem o céu" (2002). A primeira colaboração, que foi também a estréia de Hendler no cinema, é considerada pelo diretor o início de uma trilogia, cuja segunda parte é justamente O abraço partido. A amizade e cumplicidade entre os dois já vem sendo comparada à dupla formada por François Truffaut e Jean-Pierre Léaud, que em vinte anos trabalharam juntos sete vezes.

    E comparações com mestres do cinema parecem ser uma constante para Burman. Segundo alguns críticos, seu estilo lembra muito os trabalhos de Woody Allen ("Igual a tudo na vida", 2003) e Nanni Moretti ("O quarto do filho", 2001). Realmente, estão lá a ousadia de conseguir tirar sarro de si mesmo, como faz o judeu norte-americano, e a emoção e humanidade do italiano. Estas características ajudaram "O abraço partido" a ser premiado com o Urso de Prata do Festival de Berlim deste ano e Hendler a ganhar o mesmo troféu pela sua atuação. Agora, aquele passaporte polonês pode continuar no fundo da gaveta, afinal, ele já conquistou o velho continente com seu cinema.

    Por Marcelo Forlani

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  • SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Quase Dois Irmãos" aborda abismo social no Brasil


    A trajetória vitoriosa de Quase dois Irmãos, consagrada no Festival do Rio 2004 - onde levou os prêmios de direção (Lúcia Murat) e ator (Flávio Bauraqui) - começou em 1998, quando o roteiro do filme - criado por Murat e Paulo Lins (Cidade de Deus) - foi premiado pelo Ministério da Cultura. Mais tarde, em 2002, foi também um dos 10 selecionados para o Laboratório Sundance e garantiu o apoio do Ministério das Relações Exteriores da França. O currículo de sucesso prenuncia um ótimo filme, no entanto, não garante uma produção isenta de defeitos.

    O longa-metragem parte de uma premissa interessante: a exploração sociológica do encontro entre militantes de esquerda e prisioneiros comuns nas penitenciárias federais durante a ditadura.

    A história é contada em três tempos narrativos diferentes e intercalados. O primeiro, nos românticos anos 50, mostra como um garoto da classe-média, filho de um jornalista apaixonado por samba, tomou contato com o mundo da favela e se tornou amigo do filho de um importante compositor do morro (interpretado por Luis Melodia). Vinte anos depois, o reencontro. Miguelzinho - agora Miguel (Caco Ciocler) - é um preso político, condenado pela oposição ao regime. Jorginho (Flávio Bauraqui), o filho do sambista, é detento comum, preso por assalto a banco. O terceiro momento do filme - na década de 1990 - traz os dois (vividos por Werner Schünemann e Antonio Pompeo) debatendo melhorias sociais no morro, ambos líderes estabelecidos de suas comunidades. O primeiro um deputado, o outro um chefe do narcotráfico, cada um com seus filhos ou protegidos.

    Favorecidos pelo alto número de presos políticos no presídio carioca de Ilha Grande durante a ditatura, os chamados "subversivos" - como Miguel - criam normas de comportamento para toda a cadeia. Porém, com o tempo, a quantidade de detentos intelectualizados é superada pela de presos comuns e a balança começa a pender para os marginais. A disputa pelo poder provoca conflitos e culmina com o surgimento da Falange Vermelha (o futuro Comando Vermelho), uma organização criada pelos detentos comuns aplicando as técnicas de organização aprendidas com os militantes.

    A análise desse momento crucial para a sociedade brasileira é fascinante. A ascenção das duas organizações - tanto a criminosa quanto a militante - ao poder é um pertinente convite ao debate.

    "Quase dois irmãos" só perde o passo ao intercalar esse momento tão interessante com as dispensáveis tramas da década de 50 - que pouco agrega à história - e dos anos 90, quando os debates entre Jorge e Miguel soam redundantes com as imagens do dia-a-dia da favela, que se parece demais com Cidade de Deus (até os atores do grupo Nós do Cinema são empregados). O mesmo ocorre com as visitas da filha do ex-militante (Maria Flor) ao morro para relacionar-se com um traficante (Renato de Souza), entre outras cenas que chocam, mas trazem pouca relevância.

    Tamanha discrepância deixa claro que o tema do coração da diretora - que também foi presa política - é mesmo a parte central. Assim, fica a dúvida da necessidade da divisão narrativa. Felizmente, tais segmentos não prejudicam o coração do filme, em que Flávio Bauraqui (Madame Satã) faz um trabalho excepcional, cheio de vitalidade, e eclipsa a contida, mas também ótima, atuação do competente Caco Ciocler (Desmundo). Sem dúvida, parte do sucesso de "Quase dois irmãos" pode ser atribuída a Flávio, que transcende suas cenas e ajuda o filme a posicionar-se como um dos melhores do ano no Brasil.



    25.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Agnès Jaoui recria com moralismo retrógrado fábula do patinho feio


    Vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes deste ano, "Questão de Imagem", ao contrário do que o título sugere, é um filme em que a imagem não tem qualquer autonomia em relação ao texto.

    Tudo o que se vê na tela é atrelado aos diálogos e à orquestração de dezenas de personagens em torno de uma questão central. No fundo, Agnès Jaoui (diretora, atriz e, ao lado do marido, Jean-Pierre Bacri, co-roteirista), filma (bons) diálogos, em uma versão um pouco mais sofisticada de um bom programa de televisão.
    Não faltam, portanto, clichês. Agnès Jaoui simplesmente recria, uma vez mais, a fábula do patinho feio, com uma roupagem contemporânea. Faz isso com simpatia e algum humor, mas flertando perigosamente com um moralismo retrógrado.

    A ditadura do corpo na sociedade moderna massacra a auto-estima da protagonista, a jovem gordinha Lolita (Marilou Berri). O talento para o canto, que ela desenvolve com a professora Sylvia (Jaoui), não chega a aliviar sua aflição maior: a indiferença do pai, o escritor egocêntrico Étienne Cassard (Bacri).

    Como em "O Gosto dos Outros", longa-metragem anterior da diretora, a trajetória psicológica independente desses três personagens e de outros tantos vai se cruzar, caminhando para o inevitável final catártico.

    Seguindo uma estrutura muito parecida, "O Gosto" apresentava seus personagens de maneira um pouco mais original. Aqui, Jaoui se deixou guiar por caminhos ainda mais convencionais, que em nenhum momento são criticados. O tom final do filme, portanto, é um tanto óbvio, "revelando" os valores fúteis de uma sociedade baseada em estereótipos físicos. Nada que já não tenha sido dito.
    "É um tema que mexe comigo", diz diretora

    Com uma história articulada em torno da relação entre um pai e uma filha, "Questão de Imagem", da francesa Agnès Jaoui, venceu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes deste ano. Na entrevista abaixo, a cineasta fala sobre o filme, seus traumas e sua imagem.

    SPOILER - O filme se articula em torno da relação entre pai e filha. Por que essa escolha?
    Agnès Jaoui - É um tema que mexe comigo. Há dez anos, Jean-Pierre Bacri e eu já pensávamos em tratar esse tema no teatro, falar desses pais que refazem a vida com uma mulher que tem a idade de sua filha e das dificuldades que isso pode gerar. É evidente que nossos comportamentos decorrem da maneira como "administramos" as relações em nossas famílias. Se não conseguimos dizer "não" a nosso pai, é pouco provável que consigamos dizer "não" a um chefe, a um superior ou mesmo a qualquer pessoa que represente um poder.Tudo isso passa primeiramente pelo olhar do pai. O filme fala dessa contradição e de nossa capacidade de resistência às segregações sociais.

    SPOILER - No filme você interpreta uma professora de canto, mas o personagem com que você mais se identifica não seria Lolita?
    Jaoui - Confesso que sim. Assim como Lolita, eu me sentia pouco à vontade comigo mesma. Também me inspirei em minha melhor amiga, que, por temperamento, assumiu seu lado próprio. Quanto a mim, eu vivia encerrada na sedução.

    SPOILER - Encerrada por quem, pelo quê?
    Jaoui - Sempre fui prisioneira dessa contradição. Fascinada pela beleza, pelo desejo de agradar, e revoltada por essa forma de escravidão, motivada por um desejo de desabrochar, de desenvolver outras qualidades em mim -tudo aquilo que vem do trabalho, do talento, do ser.

    SPOILER - Por que você, como Lolita, decidiu cantar?
    Jaoui - Aos 15 anos fiz o curso Florent, depois freqüentei diversos outros cursos de arte dramática, sentindo um desejo muito grande de reconhecimento. A cada seis meses eu comparecia a um teste de elenco, e me lançavam um olhar que me fazia compreender que jamais conseguiria. Me recordo de ter voltado para casa debulhada em lágrimas, um dia, e de minha mãe me ter dito: "Mas você não é um pedaço de carne!". Aos 17 anos me matriculei num conservatório de canto, onde comecei a respirar, em sentido literal e figurado.

    SPOILER - Podemos falar de terapia?
    Jaoui - O termo é um pouco forte, já que, de qualquer maneira, implica um trabalho feito com você mesmo. Depois de certo tempo, voltei a sofrer um bloqueio. Eu percebi que o problema vinha também de mim mesma e, então, comecei uma psicanálise. Mas é um lugar privilegiado, onde se aprende o rigor, se aprende a tomar seu tempo e onde ninguém dá bola para seu físico. Aprendi o que é a harmonia, o que se pode fazer de mais belo quando os seres humanos estão em grupo.

    SPOILER - As pessoas comparam você a Claude Sautet. Você entende a razão disso?
    Jaoui - No início eu não entendia, a não ser pelo fato de que, como ele, eu jogo com muitos personagens e escrevo muitas cenas em cafés. Depois disso, revi "César et Rosalie" e percebi uma dimensão social que antes me passara despercebida: o personagem de Yves Montand, que não vem do mesmo meio que os outros.

    SPOILER - Como gostaria de ser percebida?
    Jaoui - Digamos que, da mesma maneira que fui uma garotinha e uma adolescente que se emocionou com Anne Frank ou Jane Austen, também eu, por minha vez, gostaria de ajudar as pessoas a se sentirem menos sozinhas, menos diferentes.

    Por Pedro Butcher (Folha) e Jean-Luc Douin (Le Monde)

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  • 24.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Doce escuro


    "O seqüestro foi assim." O ator se serve de uma pasta de couro, quadrada, com a forma de um livro avantajado. "O chofer estava aqui." Mostra com o dedo. "O outro se sentou aqui." "O general entrou por esta porta." "Quando eu fui abrir a minha, estava travada. O carro partiu."

    Em seu filme "Agente Triplo", apresentado no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, é assim, pouco mais ou menos, que Rohmer cria uma cena de ação. Não há flashback, não há violência visual. A pasta, o dedo, as palavras adquirem existência intensa. Tornam-se verdade cinematográfica, mas guardam consigo a possibilidade traiçoeira de que essa persuasão seja mentirosa.

    No início, um letreiro avisa, com delicadeza, que o filme se inspira em "um acontecimento verdadeiro, ainda não inteiramente elucidado". Testemunho, convicção e suspeita são inseparáveis: eles formam o instrumento essencial para sondar o que passou. A História, com "H" maiúsculo, desenha, no filme, o lugar das verdades não reveladas. Vem focalizada num momento agudo, quando os falsos semblantes e os blefes se precipitam, graças ao pacto germano-soviético.

    Mas há também a força dos laços pessoais, inscrita na expressão dos afetos, nas intensidades eróticas, exasperada por um gesto ou uma roupa. Há a intuição de cada um sobre o sentido das coisas, fundando-se em crenças e, por isso mesmo, sujeitas às traições. Há a sinceridade do amor e o cinismo do cálculo, a confiança ideológica e o oportunismo político. O cinema de Rohmer filma o invisível, um invisível densamente povoado. As imagens na tela parecem acidentais, como indícios desse invisível maior.

  • Latências: Dario Argento tem o mais terrível surrealismo nas veias. Não por uma filiação intencional ao movimento, mas porque há, nesse diretor, uma fatalidade de ser surrealista. Em "Il Cartaio" (O Jogador de Cartas), sempre no Festival de Cinema do Rio, Argento constrói sua história a partir dos esquemas rocambolescos dos "serials"; chega a incluir uma cena em que a heroína é algemada nos trilhos de um trem, na melhor tradição de Pearl White e "Os Perigos de Pauline".

    O jogo com formas de narração cinematográficas, antigas e populares, desconcerta o público de hoje e mesmo alguns fiéis admiradores. Argento desdenha a verossimilhança do "plot" para investir em angústias desesperadas, nas quais morte e arbitrário vão de par.

  • Passado: Outro filme, do mesmo festival: "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci. Faz uma incursão pelos tempos esperançosos de 1968, pela memória desses tempos. Traz uma luz que contrasta com o horizonte cinzento dos impulsos e dos afetos vividos hoje em dia. Sexualidades são descobertas e exploradas com fascínio e com inocência. Eclodem pulsões libertárias, libertinas, destinadas a todas as juventudes. É, no entanto, proibido para menores de 18 anos.

  • Bisturi: "Non Ti Muovere" (Não Se Mova), filme italiano de Sergio Castellito, ainda no Festival de Cinema do Rio de Janeiro: melodrama como não se faz mais, com a emoção levada ao extremo das lágrimas. Sem imitar, sem citações, sem referências ou intenções intelectuais. Penélope Cruz, "the latest latino actress with sexy legs and luscious lips" [a última atriz latina com pernas sexy e lábios suculentos], como diz um site, explode seu gênio interpretativo, quase feia, num personagem sofrido.

  • Praia: As delirantes produções de Bollywood compartilham as telas com uma crônica de sentimentos delicados, feita na Noruega, ou com o as cenas resplandecentes de Zhang Yimou, em "Herói". Pode-se passar dos Sérgio Leone ao último Rivette. O extraordinário "Contra Todos", de Roberto Moreira, sai premiado. No Festival de Cinema do Rio de Janeiro, o hedonismo é múltiplo. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, séria, sisuda, intelectual, paulistana, tem o mérito de trazer produções raras de países distantes, feitas por diretores impronunciáveis.
    No Rio, o mote do festival deste ano foi "cinema da cabeça aos pés". A de São Paulo deveria ser: "Festival do filme-cabeça".

    Por Jorge Coli

  • EMOTION: Especial Mostra BR - "Má Educação" de Almodóvar é um 'soco no estomâgo'
  • CLASSICS: Especial Mostra BR - "Kedma" resume as informações ao essencial
  • ACTION: Especial Mostra BR - Série "Heimat" traça painel da Alemanha dos anos 1990




  • SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Antes do Pôr-do-Sol" é um romance diferente


    "Antes do pôr-do-sol" é uma continuação diferente do que se vê normalmente por aí. O principal motivo é que seu original, "Antes do amanhecer", é um filme BEM diferente do que se vê normalmente por aí. O diretor Richard Linklater (Escola de rock) e seus protagonistas, Ethan Hawke e Julie Delpy começaram a contar uma história de amor há nove anos e agora retomam o tema exatamente do ponto onde pararam.

    Jesse (Hawke) e Celine (Delpy) se conheceram num trem que corta a Europa, começaram a conversar, sorrir, flertar e, ao chegar em Viena, deveriam dizer adeus, pois o jovem americano ficaria por ali e pegaria o avião de volta para casa, enquanto ela continua sua viagem para Paris. Antes do derradeiro tchau, uma última cartada "desça aqui e passe a noite comigo". Assim, sem compromisso, os dois descobrem a capital austríaca, encontram videntes, dançarinas, poetas e o amor. Antes do amanhecer, eles correm até a estação de trem, de onde a francesa seguiria viagem, e, sem trocar telefones, endereços, ou sobrenomes, fazem uma última promessa: vão se reencontrar naquela mesma estação em seis meses.

    A história acima é o resumo do lindíssimo Antes do amanhecer, um romance que paradoxalmente é utópico e realista ao mesmo tempo. É também o ponto de partida para Antes do pôr-do-sol, já que Jesse usou sua experiência ao lado de Celine para escrever um livro. Após passar por diversas cidades européias em uma turnê promocional de sua obra, ele finalmente chega a Paris. Em uma pequena livraria que fica ao lado da Catedral de Notre Dame, ele conversa com jornalistas locais. Sua resposta à pergunta sobre o possível reencontro dos dois protagonistas é a síntese perfeita de como as pessoas poderiam entender o primeiro filme. Os românticos acreditariam que os dois se reencontraram e viveram felizes para sempre. Os céticos, que nada mais aconteceu. E, finalmente, há os que até hoje estão em dúvida, como o tal jornalista que fez a pergunta. Em seguida, Jesse vê Celine no fundo da loja e as dúvidas começam a desaparecer quando os dois saem dali em direção a um Café.

    Antes do pôr-do-sol foi feito para retratar uma conversa em tempo real, de meros 90 minutos, mas que consegue ser mais denso do que as 14 horas do encontro anterior. Caminhando junto com Jesse e Celine, o espectador não só descobre se os dois se encontraram novamente, mas matam a curiosidade sobre o rumo que suas vidas tomaram, suas carreiras profissionais, seus sonhos e suas frustrações.

    As ótimas atuações de Julie Delpy e Ethan Hawke são melhor compreendidas quando se sabe que os dois ajudaram Linklater a escrever o roteiro. Os três passaram cinco meses trocando e-mails, telefonemas, faxes e fazendo reuniões. Os atores colocaram no texto muito de suas vidas pessoais. Hawke, que na época estava se separando de Uma Thurman, fala de alguns problemas conjugais. Delpy conta que "quando era garota, queria me envolver com política", dando dicas de que Celine é também um pouco dela mesma. O resultado de tanto envolvimento individual é que o filme consegue passar a idéia de que os dois não estão atuando, mas apenas conversando como amigos muito queridos.

    O papo entre os dois, os flertes, as indiretas, tudo isso nos faz lembrar porque o romance é tão cultuado há nove anos. Méritos para o diretor que criou uma franquia completamente diferente das comédias românticas acéfalas que pululam por aí.

    Embora assistir a "Antes do amanhecer" não seja necessário para entender o novo filme, ajuda a captar as nuances de cada personagem. No primeiro, há uma paixão juvenil, inocente, insegura, selvagem e louca a ponto de acreditar no destino. Agora, há um sentimento ainda mais forte, como dois pedaços de ímã, que até podem se repelir, mas que quando estão na posição certa, são difíceis de separar.




    Almodóvar diz que não faz filmes só para ganhar prêmios


    A sombra do Oscar acompanha Pedro Almodóvar e seu novo filme, "Má educação", em sua passagem por Los Angeles, onde a crítica fala de prêmios e ele só tem ouvidos para o resultado das eleições nos Estados Unidos.

    "Em momentos como esse, parece que a gente faz cinema para ganhar prêmios, mas essa não é a razão", comenta à SPOILER o diretor espanhol.

    Apesar de sua declaração, a ligação entre o novo filme de Almodóvar e um possível Oscar está na mente de todos em Hollywood.

    Afinal de contas, suas duas últimas visitas profissionais à meca do cinema corresponderam a dois Oscar: primeiro, o de melhor filme estrangeiro para "Tudo sobre minha mãe" e, no ano seguinte, o de melhor roteiro original para "Fale com ela", com o qual também concorreu ao prêmio de melhor diretor.

    Assim como aconteceu com "Fale com ela", "Má educação" ficou de fora da categoria de melhor filme estrangeiro, já que a Academia espanhola selecionou "Mar adentro" para concorrer ao prêmio. No entanto, a ausência do filme foi sentida na imprensa, que mencionou "Má educação" como possível candidato na categoria de melhor roteiro original.

    "Dizem que é uma categoria para alguém como eu, que escreve histórias mais pessoais", acrescenta, com certa modéstia.

    Almodóvar prefere não acreditar nesses rumores, mas sabe que se Hollywood sofre de algo, é de roteiros originais. Dois filmes em castelhano muito comentados hoje, como "Mar adentro" e "Diários de motocicleta", são histórias adaptadas.

    Aconteça o que acontecer com "Má educação" na hora da entrega do Oscar, Almodóvar tem mais histórias para contar, e seus dias em Los Angeles alternam entrevistas de divulgação com o trabalho diário em seus próximos roteiros.

    "Diria que tenho dois roteiros, mas de fato são quatro, só que me dá vergonha de admitir", acrescenta, ruborizado. "Não sei de onde me sai esta veia tão trabalhadora", crescenta.

    O mais adiantado é "Vover", uma comédia "com muitas meninas", que transcorre entre três gerações de mulheres em um mundo que Almodóvar conhece bem, pois se trata "de gente que vem do interior para Madri".

    "É o que meu irmão (Agustín) quer que eu faça. As pessoas querem uma comédia, e eu me sinto como: 'Meu Deus, não faço o que se espera de mim!'", afirma depois de uma filmografia recente de histórias mais pessoais, afastadas da loucura de outros sucessos como "Mulheres à beira de um ataque de nervos".

    Almodóvar não saberá se este é seu próximo projeto enquanto não acabar o roteiro. Talvez, no final, acabe escolhedo "Tarántula", a adaptação na qual trabalha há cinco anos e onde já não há lugar para os papéis que tinha pensado para Antonio Banderas e Penélope Cruz.

    "Onde acho que há espaço para Penélope é em qualquer dos outros dois roteiros e tenho muitas vontade de voltar a trabalhar com ela", afirma sobre uma de suas musas.

    Almodóvar vê a possibilidade de trabalhar em Hollywood cada vez mais distante, embora o filme "Brokeback Mountain", que Ang Lee está dirigindo agora, o tenha deixado em dúvida durante muito tempo.

    Muita gente em Hollywood também quer trabalhar com ele, e atrizes como Kirsten Dunst asseguram que só tirariam a roupa por ele, enquanto veteranas como Susan Sarandon lhe pedem um papel de "americana que fale espanhol muito mal" em seus filmes. "Fico com raiva, porque são atrizes que adoro e tenho certeza de que me daria
    muito bem com elas, mas tudo depende do idioma."

    Agora, de passagem pelos EUA na reta final de uma eleição presidencial muito disputada, há algo mais que o preocupa. "Estou morrendo de curiosidade", afirma, aflito por não poder votar em um pleito na qual, dada sua repercussão no resto do mundo, "todos deveriam votar".

    Almodóvar se mostra esperançoso no resultado das eleições. "Mas, claro, não sei o que pensam em Atlanta", em referência à chamada "América profunda", pela qual não passou. "Na minha opinião, o mundo está muito mal e (o presidente George W.) Bush é um dos grandes perigos para o planeta", resume.



    22.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Bertolucci interioriza sonhos cinematográficos


    Segundo a lógica cruel dos modismos cinematográficos, Bernardo Bertolucci está "em baixa". Seus filmes recentes já não desfrutam o prestígio dos grandes prêmios, não caem nas graças da crítica e tampouco colhem os louros do mercado. A trajetória quase inócua de "Os Sonhadores" é um bom exemplo desse limbo em que Bertolucci caiu, e que também afetou, de maneira cruel, o anterior "Assédio" (1998).

    "Os Sonhadores" foi exibido pela primeira vez no Festival de Veneza do ano passado, fora de competição. As primeiras reações o rotularam de "ingênuo", "risível" e até mesmo de "reacionário". O lançamento nos Estados Unidos, no fim do ano passado, limitou-se a uma só polêmica: se a distribuidora deveria ou não cortar os nus frontais masculinos para que o filme pudesse receber uma classificação indicativa menos rigorosa (não cortou mas também não investiu um tostão no seu lançamento). Pouco depois, o filme caiu em um amargo esquecimento.

    É difícil encontrar razões para tanto desprezo. Talvez elas estejam no fato de Bertolucci ter optado por situar seu filme em maio de 68 em Paris, uma época de difícil aproximação, por ainda estar cercada de afetos e de mitos. Opção ainda mais arriscada, talvez, tenha sido a de evitar uma abordagem mais óbvia, que fosse submissa aos ditames do cinema político tradicional. Se maio de 1968 sugeria o épico, Bertolucci optou pelo "filme de câmara"; se sugeria uma juventude militante e obstinada, ele preferiu mostrar jovens que se mantiveram à distância desse perfil.

    Quase todo o filme se passa dentro de um amplo apartamento parisiense onde dois irmãos (Eva Green e Louis Garrel) aproveitam a ausência dos pais para praticar jogos sexuais e cinematográficos com o amigo americano (Michael Pitt), que eles conheceram há pouco na porta da Cinemateca Francesa. Como a belíssima casa romana que serviu de cenário para "Assédio", Bertolucci filma esse apartamento parisiense como um espaço do desejo. A arquitetura interna é muito mais importante do que a exterioridade, que a certa altura invade o apartamento violentamente, na forma de uma pedra que quebra a janela (já quase no fim do filme, quando os protestos nas ruas de Paris se tornaram mais violentos).

    Bertolucci não segue a cartilha do filme político, mas nem por isso abandona a política. Esta transparece no filme em outras formas, sobretudo carnal (o sexo), e espiritual (a literatura, o cinema e a música, que são temas de discussões inflamadas).

    O que Bertolucci filma, com a fluidez de um diretor amadurecido, são três jovens descobrindo imensos prazeres da vida. Entre as quatro paredes de um quarto aconchegante eles recriam momentos de filmes que são evocados literalmente, em montagem paralela, como "Rainha Cristina", com Greta Garbo, ou "Mouchette", de Robert Bresson.

    E, em um dos raros momentos que o filme escapa do apartamento, os três correm pelo museu do Louvre recriando a clássica cena de "Band à Part", de Godard. Detalhes que fazem de "Os Sonhadores", para qualquer pessoa que ama o cinema, um sonho (erótico) particularmente maravilhoso.

    O filme será exibido nesta sexta-feira na 28a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, às 23h30, na Sala Uol. Haverá reprises nos dias 23, 24 e 27 de outubro.

    Por Pedro Butcher

  • NEWS: Especial Mostra BR - O Crime do amor pelo cinema: O cineasta italiano Bernado Bertolucci fala à SPOILER sobre o seu nove filme "Os Sonhadores"
  • ACTION: Especial Mostra BR - "Contra Todos" exibe violência de SP como modo de vida
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  • HAPPY: Especial Mostra BR - "Um Toque de Rosa" explora a diversidade de forma simples, inteligente e engraçada




  • SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Maria Cheia de Graça" humaniza personagens do tráfico


    Mais do que o sensacionalismo globalizado que persiste em filmes sobre tráfico de drogas, "Maria Cheia de Graça", de Joshua Marston, centra-se no lado humano daqueles que são conhecidos como "mulas", pessoas que aceitam transportar drogas para um outro país. Desde "Traffic", de Steven Soderbergh, não se via um filme abordar o tráfico de forma tão honesta.

    O filme é destaque da programação de sexta-feira na 28a. Mostra de Cinema de São Paulo, às 20h20, no Unibanco Arteplex 1. O trabalho será reprisado no dia 25 de outubro e também em 1 e 4 de novembro.

    No caso desse longa, a mula é Maria (a ótima Catalina Sandino Moreno), uma jovem colombiana de 17 anos que vive na periferia de Bogotá e trabalha cortando galhos e espinhos de rosas.

    Cansada de ser humilhada em seu emprego, decide abandoná-lo, para desespero de sua mãe, que suplica que ela volte ao trabalho, pois é com este dinheiro que sustenta a família.

    Para piorar, a moça descobre que está grávida de seu namorado. Ironicamente, essa gravidez vai lhe ser muito útil mais tarde.

    É nesse momento que ela conhece Franklin, um rapaz que sabe persuadir as pessoas. Usando o argumento de que ela receberá um bom dinheiro pelo trabalho, ele acaba convencendo Maria a entrar nos EUA com mais de 60 papelotes de heroína em seu estômago.

    Mas engolir os papelotes não é tão simples quanto se possa imaginar -- afinal eles são bem maiores do que pílulas de remédio. São especialmente assustadoras as cenas em que Maria treina utilizando uvas, e posteriormente ingere os papelotes de heroína.

    Além dos problemas, desconforto e riscos físicos -- se um dos papelotes se abrir, ela morre de overdose --, há a pressão psicológica de conseguir entrar nos EUA sem ser pega. Dessa forma, o roteiro, também de Marston, cresce em uma tensão angustiante, que consome não só Maria, mas também a platéia.

    Uma das escolhas mais acertadas do diretor foi evitar julgamentos morais sobre as decisões da personagem, e dessa forma o longa assume um ar quase documental.

    Além disso, o diretor consegue driblar o baixo orçamento, extraindo excelentes performances de todo o seu elenco. Especialmente de Catalina, que, embora não convença como uma moça de 17 anos, consegue passar todas as aflições e angústias de seu personagem.

    "Maria Cheia de Graça" foi produzido pela HBO, nos mesmos moldes de "Elefante" e "Anti-herói Americano". A cada novo longa produzido, o canal de TV se transforma em uma conceituada produtora para o cinema.

    Embora os três filmes fossem originalmente planejados para a televisão, acabaram fazendo sucesso e sendo premiados em festivais e foram parar na tela grande. Portanto, não será nenhuma surpresa se nos próximos anos o canal também produzir filmes originalmente planejados para cinema.



    21.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Viagem insólita


    28ª Mostra de SP começa hoje com filme de Wenders e a partir de amanhã, festival destaca retrospectiva do estranho mundo do diretor canadense Guy Maddin

    "Ainda sou bem rudimentar, como no início de minha carreira, mas estou mais maduro. Sempre invejei a felicidade das crianças ao fazer arte, então tento me aproximar ao máximo disso, ser honesto e até, de certa forma, ingênuo. Busco essa beleza primitiva." GUY MADDIN

    Tudo começou faz 18 anos. Em 1986, um jovem caixa de banco, então com 30 anos, se lançou ao mundo cinematográfico utilizando um formato experimental. "The Dead Father" (O Pai Morto) foi o primeiro curta do canadense Guy Maddin. "Aprendi, logo de cara, que no cinema, sem clima, não se tem nada", conta.

    O diretor fez desde então mais de 20 filmes, todos com roteiros insólitos e texturas de produções antigas. "Muitas pessoas me disseram ao longo de minha carreira que meus filmes são muito experimentais ou difíceis de serem acompanhados, mas eles sempre gostam da atmosfera e da estranheza. Ou do fato de não haver história em si nos filmes", brinca.

    Maddin deve chegar hoje a São Paulo, diretamente de Montréal, para ser homenageado com uma retrospectiva na 28ª Mostra, que tem abertura à noite, para convidados, com a exibição de "Terra da Fartura", de Wim Wenders.

    "É uma honra esse convite. Espero que alguém veja meus filmes [risos] e que eu descubra o que São Paulo acha deles, se eles fazem algum sentido. Quero falar com as pessoas depois das sessões para ajudá-las a compreender os filmes. É uma grande chance."

    A obra de Maddin já esteve presente na Mostra do ano passado, com "A Música Mais Triste do Mundo", sua última produção. É um longa esquisito, com pitadas de bom humor e altas doses de surrealismo, como um par de pernas feitos de vidro e cheios de cerveja, em que ele retrata a ganância humana em um concurso para eleger a canção mais triste de todo o mundo, valendo US$ 25 mil em plena época da Depressão e da Lei Seca norte-americana.
    A seguir trechos da entrevista, por telefone, com o cineasta.

    SPOILER - O que o sr. acha de ter toda a sua obra disponível para o paulistano assistir de uma vez?
    Guy Maddin - É uma grande aposta. Espero que dê certo. As pessoas podem ignorar todo o meu trabalho de uma vez também. Quase nada que fiz foi exibido na América do Sul. O mais perto que cheguei foi a Buenos Aires. Acho que São Paulo é um lugar sensacional para começar.

    SPOILER - Qual seu conselho para entrar no universo de Maddin?
    Maddin - Acho que, embora seja o mais recente, "A Música Mais Triste do Mundo" é um bom começo. Sempre tento contar histórias que importam para mim, e esse filme é dos que contam bem uma história. Se a pessoa gostar dele, pode voltar um pouco no tempo e ver algo mais primitivo como "Cuidadoso" ou "Drácula: Páginas do Diário de uma Virgem". Talvez "Arcanjo" seja o mais difícil de todos eles, mas é o meu favorito, porque a trama está tão... escondida.

    SPOILER - Como o sr. definiria o tipo de filme que faz?
    Maddin - Gosto da idéia de conto de fadas que as histórias transmitem. Mas é um conto de fadas impróprio para crianças, é só para adultos [risos]. Durante o processo de rodar um filme, você se esquece do que estava tentando fazer, e as coisas ficam meio confusas. Bem... Não sei, definição não é o que mais aprecio no mundo.

    SPOILER - Por que escolheu usar essa textura mais primitiva, misturando o preto-e-branco às cores?
    Maddin - Aprendi, logo em meu primeiro filme, que sem clima não se tem nada. Não foi uma coisa planejada [o uso do p&b e do estilo de longas antigos]. Foi mais uma mensagem que quis incluir no enredo. As minhas histórias ganharam sabor dessa maneira.

    SPOILER - Foi intencional fazer em "A Música Mais Triste do Mundo" uma crítica pesada aos EUA?
    Maddin - Não pensei em fazer um filme político. Por outro lado, estava consciente de que, ao ter um personagem que era norte-americano, outro sérvio e outro africano, eles assumiriam as respectivas alegorias de seus países. O protagonista acabou se tornando a representação da relação de amor e ódio que até mesmo os americanos sentem pelos EUA.

    SPOILER - Qual a parte mais difícil de um filme?
    Maddin - Escolher o elenco, com certeza. Costumava chorar a cada fase de testes. Certa vez, peguei uma lista de atores e liguei para o agente de um finlandês. Ele me disse que o cara tinha morrido havia três anos. Quando percebi que estava tentando contratar atores mortos, vi que estava com problemas sérios. Tinham-se acabado as opções entre os vivos [risos].

    SPOILER - Por que escolheu usar essa textura mais primitiva, misturando o preto-e-branco às cores?
    Maddin - Aprendi, logo em meu primeiro filme, que sem clima não se tem nada. Não foi uma coisa planejada [o uso do p&b e do estilo de longas antigos]. Foi mais uma mensagem que quis incluir no enredo. As minhas histórias ganharam sabor dessa maneira.

    SPOILER - Foi intencional fazer em "A Música Mais Triste do Mundo" uma crítica pesada aos EUA?
    Maddin - Não pensei em fazer um filme político. Por outro lado, estava consciente de que, ao ter um personagem que era norte-americano, outro sérvio e outro africano, eles assumiriam as respectivas alegorias de seus países. O protagonista acabou se tornando a representação da relação de amor e ódio que até mesmo os americanos sentem pelos EUA.

    SPOILER - Qual a parte mais difícil de um filme?
    Maddin - Escolher o elenco, com certeza. Costumava chorar a cada fase de testes. Certa vez, peguei uma lista de atores e liguei para o agente de um finlandês. Ele me disse que o cara tinha morrido havia três anos. Quando percebi que estava tentando contratar atores mortos, vi que estava com problemas sérios. Tinham-se acabado as opções entre os vivos [risos].

    SPOILER - E o próximo filme?
    Maddin - Vou rodar um curta com Isabella Rossellini para homenagear o centenário de nascimento de seu pai, Roberto Rossellini, que é em 2006. Mas estou num período de transição. Terei de sentar e esperar algumas vozes me dizerem o que fazer.
    Diretor cria estranho mundo velho

    Quem viu "A Música Mais Triste do Mundo" já deve ter suspeitado, mas era mesmo preciso uma retrospectiva de Guy Maddin para confirmar: seu estilo retrô-vanguardista (só mesmo um paradoxo para defini-lo), o estranho mundo velho, é a novidade na cena contemporânea.

    Novidade não é o termo: tudo se passa como se o imaginário de uma era (clássica) do cinema voltasse como pesadelo. Um pesadelo claustrofóbico e edipiano.
    Seus primeiros filmes ("Contos do Hospital Gimli", "Arcanjo"), amadores só no sentido que Jean Cocteau atribuía à palavra, como sinônimo de liberdade de invenção, surgem povoados pelos fantasmas dessa era, espectros da infância do século 20.

    Ninfas que se movimentam como em número musical de Busby Berkeley, vultos saídos dos expressionismo alemão, Sissys e menestréis (os estereótipos dos homossexuais e dos negros, respectivamente, na velha Hollywood) tornados arquetípicos.

    Para quem não conhece "A Música...", o melhor cartão de visitas para o mundo de Maddin talvez seja "Covardes se Ajoelham", história de tom confessional cheia de dados autobiográficos (o salão de beleza da tia, o time de hóquei do pai de Maddin) encenada à maneira de um filme mudo.

    No mundo silencioso do cinema, o canadense encontra, a exemplo dos surrealistas, o próprio inconsciente. O filme, concebido para ser exposto em museus, cada capítulo num compartimento, começa com o personagem do papai Maddin observando por um microscópio o próprio esperma e deriva aos poucos, como a maioria de seus filmes, para uma fantasia de perversão edipiana.

    Na estilística do cinema mudo, que manuseia sem afetação, Maddin não busca a inocência perdida do cinema, como fazia a geração da nouvelle vague nos anos 60, antes o contrário. Se ele incursiona no imaginário do cinema dos anos 20/30, é para explorar-lhe a inconsciência, para dele retirar toda a (recalcada) perversão -o imaginário dos filmes de montanha alemães dos anos 20 (gênero que consagrou Leni Riefensthal) resulta assim, em "Cuidadoso", numa fantasia kitsch e edípica.

    Maddin visita a era do cinema do pré-Segunda Guerra tomado pela obsessão freudiana do cinema do pós-guerra. Sabe que a inconsciência e o sonho do cinema clássico culminaram, de certa forma, no pesadelo da guerra. Daí sua obra ser povoada por autômatos espirituais, seres que tiveram o espírito roubado, sonâmbulos, espectros perdidos do cortejo fúnebre que fez a história (psicológica) do cinema clássico caminhar, segundo Siegfried Kracauer, de Caligari a Hitler.

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  • 20.10.04

    Disney persegue sucesso com ação para adultos


    Nicholas Cage em "National Treasure" é a nova imagem ao estúdio

    "National Treasure", da Walt Disney Co., chega aos cinemas americanos no dia 19 de novembro, estrelado por Nicolas Cage. Ele conta a história de um aventureiro em uma caça ao tesouros, com pistas escondidas em peças da cultura americana, como na Declaração da Independência e em imagens estranhas em notas de um dólar.

    A missão de Cage não é diferente da aventura da Disney. Ela espera que o filme ajude a revelar o segredo de um novo tipo de entretenimento para a família que se torne a cara de sua marca Walt Disney Pictures. Antes, os filmes da Walt Disney, em geral, dependiam de jovens na tela, como em "Pesos Pesados", "Sexta-Feira Muito Louca" e "O Diário da Princesa".

    Até agora, "National Treasure", um filme de orçamento gordo dirigido por Jon Turteltaub, teve relativamente pouca atenção da mídia, em meio a uma agitação de lançamentos de fim de ano, que incluem "O Expresso Polar" da Warner Brothers e "Os Incríveis", do grupo parceiro de animação da Disney, Pixar. Mas isso está prestes a mudar, quando o estúdio lançar uma campanha promocional para polir a jóia da família, a marca Disney.

    Nesta quarta-feira (20/10) a empresa vai apresentar, extraordinariamente, 10 minutos de cenas de "National Treasure", pela Internet. Depois, será iniciada o que a empresa está chamando de a maior promoção de todos os tempos. A campanha para o filme, que está sendo produzido por Turteltaub e Jerry Bruckheimer, ex-mestre de filmes para maiores de 18 anos, como "Bad Boys" e "A Rocha", envolverá McDonald's, Verizon, Visa, Kodak, Dodge e Nascar.

    Os executivos da Disney dizem que sua intenção é mais do que vender "National Treasure", apesar de estarem interessados nisso. O objetivo é "abrir cada vez mais possibilidades para os filmes da Disney", disse Nina Jacobson, presidente do Buena Vista Motion Pictures Group, parte da Disney Co.

    O novo filme, com classificação PG (censura livre, mas orientação dos pais sugerida), é o próximo grande passo da estratégia da Disney. Há poucas semanas, o presidente da empresa Robert A. Iger descreveu-a aos investidores e disse ser crucial ao futuro dos filmes de ação da Disney.

    O estúdio balançou este ano com fracassos caros como "Álamo" e "Mar de Fogo", ambos de sua divisão Touchstone. Agora, e empresa, com base em Burbank, Califórnia, quer se concentrar em filmes de ação do selo Walt Disney, filmes menos brutais, como a surpresa de Bruckheimer de 2003, o mega-sucesso "Piratas do Caribe: A Maldição da Pérola Negra" e o épico de fantasia "The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe" (crônicas de Narnia: o leão, a bruxa e o guarda-roupa), esperado para o final do ano que vem.

    Os incentivos são claros. Os filmes PG e PG 13 (orientação dos pais sugerida e fortemente recomendada) atraíram 75% a 90% da bilheteria nacional, comparados com 10% ou menos dos filmes de censura livre, ou G. Os dados levaram em conta os 20 filmes mais lucrativos em cada um dos quatro últimos anos, de acordo com a Motion Picture Association of America.

    "É o pote de mel", disse Robert Marich, autor de "Marketing to Moviegoers: A Handbook of Strategies Used by Major Studios and Independents" (marketing para freqüentadores de cinema: um guia de estratégias usadas pelos principais estúdios e produtores independentes), que será publicado no ano que vem pela Focal Press.

    Alguns competidores acham que a Disney está no caminho certo na ampliação das características da marca. "Imitamos a Disney", disse Terry Curtin, chefe de marketing e distribuição da Revolution Studios. "Certamente eles não estão nos imitando."

    Curtin disse que "National Treasure" estava sendo comentado na indústria. Segundo ele, o lançamento de sua empresa para o Natal: "Christmas With the Kranks" (Natal com os Kranks) tinha a intenção de imitar a nova fórmula da Disney. Os principais atores do filme, Tim Allen e Jamie Lee Curtis, tornaram-se estrelas do cinema nas mãos da Disney. E o filme foi dirigido por Joe Roth, sócio da Revolution, que antes era diretor da Walt Disney Studios.

    Alguns observadores advertem que a Disney poderá diluir seu apelo, se for longe demais em se identificar com estrelas como Cage, que fez papéis marcantes em filmes adultos como "Despedida em Las Vegas" e "A Outra Face".

    "Se eles fizerem muitos filmes que deviam ser para maiores de 18, mas entram como PG 13, então poderão prejudicar a marca", disse James Steyer, fundador e diretor executivo da Commonsense Media, organização de defesa das crianças que publica críticas de filmes.

    Steyer disse que acreditava que a Disney ia manter seus limites. Os executivos da Disney disseram que não tinham intenção de ferir a confiança de seu público central. Jacobson disse: "A idéia é passar de uma definição convencional de um filme de família para uma noção mais sofisticada de um filme para o público em geral, que é adequado para a família."
    Bruckheimer é "família"

    Curiosamente, com "National Treasure", Bruckheimer surgiu como um homem chave da nova linha para a família da Disney. O produtor entrou no setor por acaso, quando começou a fazer um filme de futebol para maiores de 18, mas acabou produzindo o sucesso PG-13 "Duelo de Titãs", lançado em 2000. O filme foi patrocinado pelo diretor da Disney Studios, Richard Cook, depois que competidores vetaram a versão mais dura.

    "Eu fui arredio, a princípio", disse Bruckheimer por telefone, da Universidade Estadual de Louisiana, enquanto almoçava na semana passada. Ele estava em Baton Rouge filmando "Glory Road", que ele descreveu como a história de um técnico que mudou o basquete em 1996.

    Bruckheimer disse que os filmes em sua agenda de produção eram PG e PG-13, apesar de ter alguns filmes adultos na fila. Ele concordou em produzir "National Treasure" somente dois anos e meio atrás, cerca de seis anos depois de ter sido concebido.

    A idéia foi de um executivo de marketing da Disney, Oren Aviv, e um amigo seu, Charles Segars, que antes era da CBS e agora está na rede de televisão a cabo Fine Living. Ela foi desenvolvida com uma série de roteiristas e Turteltaub, que é menos famoso por filmes de ação do que por retratos de personagens fortes, em filmes como "Kids", com Bruce Willis, da Disney.

    Se Bruckheimer, o empresário por trás de experiências audaciosas de 1980, como "Gigolô Americano" e "Beverly Hills Cop", tornou-se mais brando, e a Disney, mais intensa, uma coisa não mudou: dias atrás, o produtor --conhecido por atenção ao detalhe-- ainda estava dando os últimos retoques em "National Treasure". Seu diretor estava em uma ilha de edição em Santa Mônica, Califórnia.

    "Desculpe-me", disse Turteltaub a um visitante, voltando ao trabalho. "Se eu não voltar, não haverá filme".

  • Assista 10 minutos do filme aqui!
  • Confira o site do filme aqui!
    Fonte: Neal Koch - NYTimes 19/10/04

  • HAPPY: Críticos de cinema de Los Angeles homenageiam Jerry Lewis
  • NEWS: Os dramas de um palhaço - Jerry Lewis combate doenças e tragédias pessoais para continuar sorrindo
  • EMOTION: Depois de "Dogville", Lars von Trier encerra as filmagens de "Manderlay", produção polêmica sobre a escravidão nos EUA
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  • 19.10.04

    George Lucas será premiado pelo American Film Institute


    George Lucas, de 60 anos, criador de filmes de sucesso como "Guerra nas Estrelas", "Caçadores da Arca Perdida" e "American Graffiti - Loucuras de Verão", foi escolhido nessa semana para receber o prêmio pelo conjunto de sua obra concedido pelo American Film Institute.

    O cineasta foi escolhido para receber o 33.º prêmio anual da instituição, após a escolha de estrelas como Meryl Streep, Robert De Niro e Tom Hanks. "Tenho muita sorte de ter conseguido uma longa carreira fazendo o que eu amo. Ser reconhecido por isso pelo AFI é realmente uma honra", disse Lucas. "Estou orgulhoso de ser colocado no mesmo grupo de pessoas extraordinárias cujas vidas são dedicadas à arte de fazer filmes". A lista de personalidades premiadas inclui nomes como Jack Nicholson, Barbra Streisand, Elizabeth Taylor, Steven Spielberg, Alfred Hitchcock, Sidney Poitier e Orson Welles.

    O jantar de gala e a cerimônia, quando trechos de seus filmes serão apresentados por diversos artistas que trabalharam com ele ao longo dos anos, estão marcados para junho do ano que vem, em Los Angeles.

    O prêmio marca um ano cheio para Lucas. No mês passado, a trilogia original de Guerra nas Estrelas foi lançada em DVD pela primeira vez (e tornou-se um best seller), assim como o primeiro thriller de ficção do cineasta, THX 1138, que ganhou uma versão revisada.

    Em maio de 2005, Lucas vai finalizar a nova trilogia de Guerra nas Estrelas, com o lançamento do Episódio III - A Vingança de Sith que vai revelar como Darth Vader tornou-se o assustador vilão visto na trilogia original.

    E aproveitando o gancho, mantenho o embalo para publicar o "TOP10 SPOILER - Ficção". Divirtam-se!

    1. "Trilogia Star Wars" (1977, 1980, 1983) A trilogia composta pelos capítulos "Ep.4: Uma Nova Esperança" (1977), "Ep.5: O Império Contra Ataca" (1980) e "Ep.6: O Retorno de Jedi" (1983) é um marco para o cinema. Basicamente é uma estrutura mitológica típica, aonde Luke Skywalker (Mark Hammil), deixa o planetinha desértico em que vive, inicia suas viagens pela galáxia na companhia de Obi-Wan Kenobi, o mesmo mestre que orientou seu pai no passado, enfrenta o lado negro da força, torna-se um jedi e retorna ao seu planeta para libertar seus amigos, incluindo sua irmã gêmea - outra idéia arquetípica. Essa é a jornada do herói, apenas uma entre dezenas de estruturas míticas existentes nos filmes que carregam consigo uma verdadeira legião de fãs enaltecidos.

    2. "Dr. Fantástico" (1964) Roger Ebert, crítico de cinema na TV americana, descreveu de maneira objetiva as entrelinhas da moral desta obra lançada numa época em que a Guerra Fria estava no seu auge e termos como ''bomba nuclear'' eram facilmente compreendidos por todas as audiências: ''se você explodir meu país eu irei explodir o seu... e nós dois estaremos mortos (...)'' É partir dessa estupidez de raciocínio que o mundo encontrava seu eixo. Stanley Kubrick ironiza inclusive na inteligente escolha do título ''Como eu aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba" nessa sátira às relações políticas internacionais, retratando os conflitos e a disputa do poder global entre americanos e soviéticos.

    3. "Matrix" (1999) Como posso falar do melhor filme de ficção da história e um dos melhores filmes já feitos? Ficou em 3º lugar nas bilheterias de 1999, arrecadou mais de 450 milhões de dólares, o filme mais vendido da história e as melhores cenas de ação já feitas, e o que falar? Eu aqui escrevendo essa círtica pensando que sou uma partizinha, um pedacinho minúsculo de um progama de computador, ou seja sou dominado e controlado por máquinas com inteligência artificial, e Matrix é o nome do mundo onde estou vivendo a realidade, que fora desse mundo estaremos em um futuro que nós os seres humanos somos cultivados por essas máquinas. Você acredita nessa possibilidade? Bem...

    4. "Metropolis" (1927) Metropolis é uma das maiores produções dos tempos mudos do Cinema. Realizado apenas um ano antes do lançamento de O Cantor de Jazz (primeiro filme falado realizado), o filme é um autêntico representante - provavelmente o maior - do expressionismo alemão. Aqui, Fritz Lang nos mostra um cidade do século XXI, marcada pela brutal diferença entre classes. Enquanto os operários, fundamentais para a manutenção das máquinas e da própria cidade, vivem nos subterrâneos de Metropolis, os Mestres (a classe dominadora) vivem na superfície, levando uma existência de prazeres e despreocupação. Uma superprodução para sua época (na verdade, até mesmo para os dias de hoje), Metropolis contou com a participação de nada menos do que 36.000 figurantes, levando dois anos para ser filmada. À época de seu lançamento, contudo, o filme foi bastante criticado por aqueles que não gostaram de seu contexto político, sendo muitos os que atacaram a obra de Fritz Lang - entre eles, o escritor H.G. Wells. Detalhe: em função deste filme, Lang foi convidado por Goebbels a assumir a 'chefia' da indústria cinematográfica alemã. O diretor agradeceu, recusou a proposta e partiu às pressas para Paris. No entanto, sua esposa (Thea von Harbou, autora do roteiro de Metropolis) não só ficou para trás, como também se tornou uma nazista.

    5. "Alien" (1979) Alien, o oitavo passageiro é um filme de ambientação. Digo ambientação porque toda a atenção e brilhantismo do filme está escorado pelo terror de uma personificaçãp que pouco se vê. No caso uma criatura alienígena de aparência e agressiveidade medonhas, como poucas coisa o cinema foi capaz de criar, tudo isso somado a cenários e ambientes simplesmente perfeitos, da nave estranha no planeta desconhecido, à espaçonave de mineração Nostromo - local onde a criatura se abriga e se desenvolve fisicamente, caçando com perversidade um a um dos sete tripulantes que tiveram a infeliz idéia de explorar o sinal emitido da nave desconhecida, que continha os ovos do alienígena. A nave Nostromo é de fato um primor de cenografia, são ambientes úmidos e escuros na parte inferior e claros e limpos na parte superior da nave onde está localizada a parte social, os contrastes perfeitos de pureza clara e escuridão suja dão a medida certa de ficção cietífica e mistério ao terror absoluto.

    6. "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (1968) Um filme faz você pensar, mesmo ele sendo extremamente lento. Não dá para prestar atenção e entender, você tem que raciocinar, tentar entender o que se quer transmitir. As conexões entre os acontecimentos são complicadas e bem elaboradas. A trilha sonora é fabulosa, as cenas tem grande sincronismo entre música e ação, os movimentos por si só parecem soar como música. Não conseguimos responder a nenhuma resposta do filme, ele só cria mais questões. Não indico para qualquer um ver, só para apaixonados por cinema, porque apesar do bom roteiro o filme é parado, cansa. Um filme de pouquíssimas falas, e que se concentra totalmente nas belas imagens.

    7. "Laranja Mecânica" (1971) Bombástio, escandaloso, polêmico, violento, questionador, poítico e crítico... o filme de Kubrick é isso e muito mais. É uma exemplar obra em se tratando de nos fazer entender o processo pelo qual nossa mente é levado a compreender e assimilar tudo o que acontece à nossa volta - Alex, ao passar por um processo interessantíssimo de reabilitação perde a capacidade de escolher, perde sua liberdade. A verdade é... até que ponto é válido a reabilitação a qualquer custo por obtenções poíticas e aspirações maquineistas - o final de Laranja Mecânica é assombroso por causa disso, e aí - se jogam às favas as convenções pregadas, por interesses políticos - a justiça se torna algo tênue em meio à um mundo onde nada é verdadeiramente correto. Pasmem, ninguém é perfeitamente bom e ninguém é perfeitamente ruim - ao se imaginar transando, Alex diz, `Estou curado!`, mas o ato de transar não é nada abominável - sim é o ato de matar, estuprar, roubar e tantas outras coisas que levam milhares de pessoas à prisão... Laranja Mecânica nos faz perceber que o simples ato de reabilitar não dá à pessoa o que ela precisa para se tornar perfeitamente boa, caso contrário estaríamos todos na prisão ou todos fora dela...

    8. "Blade Runner" (1982) O filme estrelado por Harrison Ford não é apenas uma ficção que marcou seu tempo. É, sim, um filme emocionante, que discute questões complexas envolvendo vida, ética, redenção e morte. A história se passa em 2019 e cria um futuro sombrio, em que o homem criou replicantes (andróides) para auxiliá-lo nos trabalhos de colonização do espaço. Estes seres são fisicamente idênticos ao homem, mas vivem por apenas quatro anos. Depois de uma revolta, os replicantes estão proibidos de irem à Terra, sob pena de serem `removidos` (eufemismo para `exterminados`). É nesta realidade que Rick Deckard, ex-blade runner (caçador de replicantes) é reconvocado para capturar cinco espécimes que estão à solta em Los Angeles. Só que Deckard se sente mal em eliminar tais seres, mas é obrigado a fazer o serviço. Esta obra, que marcou a década de 80 e até hoje mantém sua riqueza e impacto, é obrigatória para todos que se interessem ou não pelo gênero, pois suas idéias vão além da mera ficção científica.

    9. "De Volta Para o Fututo" (1985, 1989, 1990) É impressionante a capacidade que esta produção de Steven Spielberg tem em me fazer sentir as mesmas emoções todas as vezes em que a assisto: eu rio, vibro, me arrepio, torço como se fosse a primeira vez. E de certa maneira é, já que sempre há uma descoberta, uma sutileza do roteiro que havia passado desapercebida antes (só percebi que o bêbado no banco da praça era o prefeito de Hill Valley em 1955 por volta da quinta vez que assisti o filme). Trata-se de um grande filme que deve ser visto, revisto e rerevisto. Aliás, mal posso esperar para revê-lo ao lado de meus filhos (que ainda nem nasceram) e conferir suas reações às aventuras de Marty. Ou será que foram eles que, voltando para o passado, me fizeram conhecer minha esposa? Posso estar delirando, mas até que seria divertido. Como o filme.

    10. "King Kong" (1933) Entre todos os filmes de monstros gigantes que o cinema já produziu, King Kong é o principal deles. Lançado em 1933, o filme arrecadou 90 mil dólares no final de semana de estréia nos Estados Unidos, um novo recorde para a época, e transformou-se logo em um clássico. Hoje, Kong é um dos principais ícones do cinema de todos os tempos, e já serviu de inspiração para centenas de outros diretores ao longo dos anos. Em 2005, Peter Jackson lançará um novo remake desse filme (após o semi-fiasco do remake lançado em 1976), então esperamos que seja um filme respeitoso para com o material original (e provavelmente será, já que a versão de 33 é o filme favorito do diretor, e ele não gostaria de estragar a sua imagem nem a do filme, certamente).

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  • 18.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Bola de cristal


    No dia 19 de agosto de 1991, um grupo conservador do Partido Comunista soviético tenta um golpe, na busca da volta impossível ao passado. Imediatamente, a revista francesa "Le Nouvel Observateur" propõe artigos analisando o acontecimento. O historiador Marc Ferro não hesita. Afirma que a União Soviética não podia mesmo desaparecer como se imaginava. O putsch confirmava a solidez do projeto comunista, contra todas as expectativas. Ocorre que o golpe não passou de três dias, e as profecias do retorno, desmentidas tão rapidamente, adquiriram um sabor irrisório.

    O mesmo Marc Ferro declarou, há poucas semanas que o filme de Éric Rohmer "A Inglesa e o Duque" é o mais reacionário dos filmes reacionários". Acrescenta: "É sempre o modelo das boas e belas pessoas, vítimas de gente ruim e feia, da multidão ensandecida, do povo, ou seja, dentro da tradição contra-revolucionária, muito comum no pós-guerra francês, na historiografia, na literatura e no cinema". Conclui: "Rohmer, que é conhecido como um bom cineasta, faz aqui um filme com o ponto de vista da direita. Ele revelou nesse filme seus sentimentos políticos profundos".

    A primeira situação mostra o historiador em dificuldades com as previsões. A história não é uma ciência, felizmente. É um processo reflexivo sobre o passado. A segunda, mostra o historiador em dificuldades para lidar com o passado. É mais grave. Num caso, como no outro, a convicção precede a análise, e os "sentimentos", como diz o próprio Ferro, falam mais forte. Eles predispõem a um ponto de vista imperativo, exclusivo, sumário e, em ambos os casos, enganoso.

  • Labirintos: "A Inglesa e o Duque", de Éric Rohmer, é um filme admirável e também uma lição de história. A execução de Luís 16 não vem mostrada: intuem-se os sentimentos dolorosos que essa morte provoca na protagonista. A questão não é um impossível e objetivo "fato histórico", mas o modo de vivê-lo por um contemporâneo. A inglesa é amante de Philippe-Égalité, o duque regicida, que votou pela morte de seu primo, o rei. Philippe-Égalité guarda em si estratégias e interesses dissimulados, a inglesa possui convicções sinceras. Cada um tem suas razões; elas multiplicam os sentidos do que ocorre, sem nenhum maniqueísmo.

    O novo filme de Rohmer, "Agente Triplo", apresentado no Festival do Rio, volta-se ainda para a história, mais recente desta vez, em tempos que precedem a Segunda Guerra Mundial. Há nele a vertigem das máscaras. As versões públicas dos acontecimentos, oferecidas por partidos, governos ou pela imprensa, mostram-se como arranjos fictícios, cuja ação sobre a ingenuidade de cada um é poderosa. Nada de relevante é exposto; os "fatos" importantes surgem pela narração de alguém, não pela narração do filme. Tudo se dá na maneira pela qual os personagens compreendem -ou não- o que está ocorrendo. A história tece suas teias, dissimula armadilhas a cada passo e faz com que o futuro sempre surpreenda pelo imprevisível.

  • Ersatz: "Agente Triplo" trata de militância comunista no mesmo período em que se passa o terrível drama de Olga Benário Prestes. Nele também a protagonista termina sacrificada, mas seu martírio não nos é mostrado. O filme "Olga", de Jayme Monjardim, ao contrário, insiste nas imagens que se querem cruéis. Porém é tão primário que tudo vira um conto da carochinha, mal contado. Podia ser um melodrama intenso, mas falta-lhe a força da emoção. Podia debruçar-se sobre os movimentos coletivos, mas falta-lhe poder narrativo, para não falar de energia épica ou capacidade de análise. Podia ser cinema; não é mais que um simulacro.

  • Espantalho: Ninguém, com alguma coisa na cachola, pode imaginar que "Olga", o filme, possua qualquer poder subversivo. Não assusta porque não tem força para isso. Desfaz a história, desfaz os sentimentos, desfaz os personagens numa estranha espécie de nada. Engana seu público com alguns fantoches, com algumas cenas eróticas, com uma trama amorosa muito anêmica, com efeitos sentimentais bem pobrezinhos.

    Por Jorge Coli
    JOSÉ SIMÃO: Mostra de Cinema! Vou comer pipoca em iraniano!

    Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto do País da Piada Pronta! E esta é a Semana da Bunda Quadrada! Mostra Internacional de Cinema. E a fila? Você passa duas horas em pé esperando o filme começar e duas horas sentado esperando o filme terminar. E não termina nunca, porque filme iraniano é mais lento que o Eduardo Suplicy! E não pode comer pipoca, porque pipoca não combina com filme iraniano. E na saída você ainda tem de dizer alguma coisa inteligente, senão passa por burro! E já imaginou a agonia, o filme acabando, e você ainda não bolou nada inteligente pra falar? No ano passado um amigo pensou tanto que teve um derrame cerebral! Dentro do cinema. E um outro me passou a definição de filme-cabeça: um monte de gente pelada DISCUTINDO! E o bom da Mostra é que você não encontra o atendente da Blockbuster. E ainda assiste a filme falado em sânscrito, dublado em curdo e com legendas em vietnamita. Só país que não tem água potável. Não perco!

  • ACTION: Em "Mar Aberto", um casal enfrenta dois desafios: discutir a relação e se manter inteiro
  • EMOTION: Em "Wimbledon", Paul Bettany mostra o melhor do esporte inglês de rir à própria custa
  • CLASSICS: Mostra São Paulo: Entrevistamos Abbas Kiarostami e sua Arte da Inadequação



  • 17.10.04

    Marionetes de "Team America" se rebelam em Hollywood


    Criadores de "South Park" fazem sátira com bonecos à guerra contra o terror

    Nem "Fahrenheit 11/9" de Michael Moore nem "A paixão de Cristo", de Mel Gibson, causaram tanta controvérsia como as marionetes de "Team America", filme dos criadores de "South Park".

    Trey Parker e Matt Stone preferem descrever sua obra, que estréia nesta sexta-feira nas telas americanas, como uma sátira, um exercício de anarquismo e subversão no mesmo tom que lhes deu a fama com a série de televisão "South Park".Trata-se de uma força especial encarregada de operações de elite contra o terrorismo no mundo, uma paródia da política internacional americana em um polêmico filme.

    Desde a guerra inicada pelo presidente George W. Bush contra o terrorismo, passando pelo ativismo pacifista do ator Sean Penn e do polêmico cineasta Michael Moore, o filme ataca todos os protagonistas da política e a indústria do cinema americano, distribuindo seus ataques mordazes entre patriotas, terroristas e progressistas, e as críticas também vieram de todas as frentes.

    Estrelada por marionetes primitivas que inclusive mostram suas cordas, "Team America: World Police" parodia um grupo de defensores da paz mundial. No filme, o líder coreano Kim Jong II tenta acabar com a Terra com suas armas de destruição em massa, mas antes disso convoca os atores pacifistas de Hollywood Sean Penn, Alec Baldwin, Tim Robbins, Susan Sarandon e George Clooney para uma reunião de cúpula da paz. Enquanto os atores -conhecidos como ferrenhos opositores à guerra no Iraque- discutem seus planos para a paz, a marionete de Kim Jong II dá início a seu plano para destruir o mundo.

    E não sobra nada: A Torre Eiffel, as pirâmides de Egito e o monte Rushmore são alguns dos monumentos destruídos em um filme que queima, destroça ou corta a cabeça de marionetes

    "Achamos que tudo é gracioso. Nada fora dos limites", disse Parker em entrevista à imprensa. Este é um filme animado como os dos videogames para crianças.

    "Quem não tem senso de humor acha que a comédia faz um gênero com frases estúpidas, sem sentido. As pessoas não se dão conta de que pode haver algo muito mais profundo por trás daquilo", indicou.

    "Nunca me importei em estar a serviço da sátira e da bobagem", diz Penn em carta enviada aos diretores.

    "O que me importa é que alguém que não tem filhos, que não tem ninguém na frente, alguém que não se vê afetado diretamente pela guerra, dizer que não há problema algum em não votar", critica o ator.

    A internet é também um fórum de debate sobre as intenções do filme, onde os conservadores não parecem se divertir com a idéia que fazer piada com a guerra contra o terrorismo.

    A Associação Americana do Cinema também tem sua guerra particular contra um filme que considera tão ofensivo que queria proibir a entrada dos menores de 18 anos.

    "É ridículo, porque nossas marionetes não fazem mais que do que as crianças fazem quando brincam de bonecas", comparou Parker.

    A produção inclui cenas de sexo, em várias posições, que inicialmente duravam mais de 13 minutos e foram cortadas para o cinema, deixando o resto para o DVD.

    Tudo para obter uma qualificação "R", que autoriza a entrada a menores de 18 acompanhados, e um cartaz de advertência que parece parte da publicidade.

    "O filme contém cenas de humor de tom gráfico e sexual, imagens violentas e uma linguagem chula, tudo isso com marionetes", explica a advertência da Associação Americana do Cinema.

    Quanto às outras críticas, Parker e Stone asseguram que seu filme não tem nenhuma intenção política além de fazer rir.

    "Em um momento o projeto foi mais sério, mas a gente é pago para fazer as pessoas rirem", resumem os criadores também da série de televisão "That's My Bush", muito crítica com o presidente americano.

    Os primeiros roteiros para "Team America" incluíam Bush e o candidato democrata à presidência, John Kerry, em suas paródias.

    No entanto, os humoristas preferiram se afastar da realidade para parodiar um filme de ação "a la Jerry Bruckheimer" ("Pearl Harbor", "Con Air" e "A Rocha"), utilizando marionetes ao estilo dos "Thunderbirds", série britânica de televisão da década de 60.

    "O fato de a estréia de 'Team America' ser logo antes das eleições não tem nada a ver. Além disso, não acho que ninguém deva mudar seu voto por causa de um filme", comentou Stone.

    Os dois colegas de universidade também não vêem nenhuma intenção política em suas críticas contra os atores mais progressistas de Hollywood, de quem asseguram que são amigos.

    Ainda assim, não querem dissimular a irritação causada pelo que consideram como propaganda por parte de atores, não políticos.

    "Suponho que este é um filme com um ponto de vista muito americano e que é difícil de entender, a menos que se compartilhe esta visão dos Estados Unidos", resume Stone sobre o que vê como um discurso apolítico.

    O filme, que critica principalmente Bush, gerou polêmica também porque insinua que os cidadãos preguiçosos e ignorantes não devem votar.

    Confira o site oficial do filme aqui!



    15.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    28ª Mostra tem mais espaços gratuitos


    O diretor Manoel de Oliveira confirma vinda ao país para ser homenageado em livro e participar de filme

    Nem a 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começou e já traz um adendo: a presença do português Manoel de Oliveira, que deve chegar provavelmente na última semana do evento (de 22 de outubro a 4 de novembro).

    O cineasta não vem apenas como convidado. Ele também será tema de um livro, a ser lançado na edição do ano que vem do festival, e terá um episódio no filme coletivo "Bem-Vindo a São Paulo", homenagem de diversos diretores ao iraniano Abbas Kiarostami.

    O curta de Oliveira deve se ambientar num parque da cidade, onde dois amigos se encontram durante um cooper. O cotidiano do mundo moderno vai impedir a comunicação entre eles.

    O diretor português não estava previsto nas filmagens iniciais. "Não o convidei porque sabia que ele estava filmando seu "O Quinto Império - Ontem como Hoje" [que também será apresentado na 28ª Mostra]. Mas, ao saber do projeto, ele fez questão de participar", conta Leon Cakoff, organizador e curador do evento. "O que exibiremos é um "work in progress" [trabalho em andamento], então talvez dê tempo de entrar o episódio do Manoel já nessa primeira apresentação que faremos durante a Mostra." O filme, feito por nomes como o brasileiro Caetano Veloso, o australiano Phillip Noyce, a portuguesa Maria de Medeiros, o japonês Kiju Yoshida, o malaio Tsai Ming-liang, entra em circuito no ano que vem.

    Outra novidade está no circuito gratuito, que cresce com a inclusão da sala da galeria Olido e de sessões ao ar livre no vão do Masp. A programação ainda não está definida e só deve sair no sábado, quando começam a ser vendidos os ingressos no quiosque oficial do evento, no Conjunto Nacional, na avenida Paulista.

    De graça também vão ser as sessões no CEU Vila Curuçá, na zona leste da cidade, com uma programação de filmes nacionais e cópias dubladas. É uma das poucas participações da Prefeitura de São Paulo neste ano, como assinalou o secretário municipal de Cultura, Celso Frateschi, anteontem em entrevista coletiva: "A prefeitura colabora como e quando pode. Neste ano pôde um pouco menos". Mas não desmereceu a maratona cinematográfica: "Só a loucura de alguns faz com que esta cidade se movimente, cresça".

    Ao custo de R$ 4,3 milhões, esta 28ª edição reúne 329 produções -entre 268 longas e 61 curtas. É quase o mesmo número da gigantesca edição do ano passado, que teve 265 longas e 81 curtas.

    As retrospectivas homenageiam o canadense Guy Maddin, o iraniano Abbas Kiarostami e o israelense Amos Gitai. Os dois últimos, além de lançarem livros e abrirem exposições, também darão aulas magnas na Faap.

    O festival também conta uma presença mais marcante dos documentários. "Não tinha reparado nesse aspecto ainda", diz Leon Cakoff, "mas o mundo precisa de documentários. Faz parte do despojamento que caracteriza esta edição da Mostra".

    A cantora Jane Birkin, além de estrelar o longa "Obrigada, Dra. Rey", de Andrew Litvack, faz show no encerramento, no dia 4 de novembro, no Sesc Pinheiros. Tendo lançado recentemente um disco de duetos com nomes como Manu Chao, Caetano Veloso e Brian Ferry, ainda não definiu como será sua apresentação. Mas a música não estará presente apenas no final do evento. O DJ Joakim fará uma trilha eletrônica para acompanhar as exibições de "A Queda da Casa de Usher" (1928), de Jean Epstein.

    Confira aqui o site Oficial da 28a. Mostra!

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  • 14.10.04

    O Que é Afinal um Filme Noir?


    O filme noir (lê-se nuá) é um dos gêneros cinematográficos 'de época' mais admirados e populares do final do século vinte, apesar de o termo noir ser desconhecido à época na qual os filmes foram produzidos. Basicamente, ele significa "filme escuro" - uma variação do termo francês do século 19 "novela escura" - referindo-se a qualquer número de dramas policiais carregados psicologicamente dos anos 1940-50.

    O filme noir como gênero definido começou no início dos anos 40, com filmes que lidavam com o lado sinistro de uma psicologia idêntica entre perseguidores e criminosos, a ponto de em "The Big Sleep" (1946), de Howard Hawks, a seqüência de crimes que suportam a trama ser difícil de discernir. Por outro lado, o primeiro filme genuinamente noir, segundo muitos críticos, foi "I Wake up Screaming", de H. Bruce Humberstone, baseado numa novela de Steve Fisher e estrelando Victor Mature, Betty Grable e Laird Cregar. O título pode dar calafrios na espinha, mas os elementos verdadeiramente noir residem no sadismo pesado do personagem de Cregar, um policial obsessivo e homicida que atormenta os dois suspeitos (Mature, Grable) pelo assassinato de uma atriz. O filme conta a história do crime e da investigação, mas sua verdadeira força está na habilidade em fazer com que o espectador se sinta tão ameaçado quanto os dois suspeitos - eles se encontram encurralados numa intricada teia legal e psicológica tecida pelo policial. O espectador sente cada choque, à medida que os fios da teia são puxados bruscamente e tensionados fortemente, assim como os próprios personagens. Torna-se claro após alguns minutos de filme que estamos na presença de algo perigoso e doentio; mesmo nos dias de hoje, assistir a esse filme é uma experiência indescritível. Apesar de ninguém tentar rivalizar conscientemente com "I Wake Up Screaming", ele foi padronizado filme noir padrão - a selva de pedra habitada por personagens que parecem perdidos ou feridos psicologicamente e cercados por armadilhas que são mais imaginárias do que reais, com a lei e a justiça sempre excedendo seus limites no sentido de destruí-los. "I Wake Up Screaming" acrescenta o elemento necessário para representar a lei como uma força sinistra e ardilosa simbolizando a injustiça.

    "O Falcão Maltês" (1941), de John Huston, é também freqüentemente citado como um dos pioneiros do filme noir, mas sua psicologia é mais fraca que a do filme de Humberstone. Sam Spade, personagem vivido por Humphrey Bogart, entretanto se movimenta por um mundo reconhecidamente noir, repleto de homens e mulheres obsessivos com temperamento homicida, policiais cuja dedicação beira ao sadismo, mulheres cuja sexualidade é pessimamente controlada - e utilizada conscientemente para fins de destruição - e, no centro de tudo, um herói que luta constantemente contra seus piores impulsos. Um outro filme do mesmo período que parece definir o nascimento do gênero foi This Gun for Hire (1941), de Frank Tuttle, baseado em "Alma Torturada", de Graham Greene, e estrelando Alan Ladd, Veronica Lake e o onipresente Laird Cregar. A estória de um matador de aluguel era fora do convencional para os padrões de Hollywood, mas Ladd trouxe tanta humanidade e desespero para seu personagem que as platéias acharam irresistível - e essa mistura de psicose e honradez tornou-o o mais extraordinário anti-herói de Hollywood, contrastando bem com o personagem patético e caprichoso de Laird Cregar e o empresário traidor de Tully Marshall. As origens do filme noir durante esta época, tendo como fundo o início da Segunda Guerra Mundial, não foram uma mera coincidência.

    A chegada da Guerra à Europa degradou o humor do povo americano tal como a Grande Depressão, em todos exceto nos piores dias, não tinha feito. Os EUA sobreviveram à Depressão, mas subitamente o mundo parecia estar se tornando mais ameaçador do que tinha sido durante aqueles dias agitados - os líderes da Alemanha democraticamente eleitos planejavam conquistar a Europa e o extermínio de milhões, e os outros líderes comparáveis na cena internacional eram os ditadores da URSS e Japão; Inglaterra e França estavam paralisados; e os EUA, cuja participação prévia na política internacional durante a Primeira Guerra Mundial terminou em desastre para o Presidente e o Congresso, estavam incapazes de agir. Para tornar pior as coisas, havia o fato do início da Segunda Guerra coincidir com o fim dos últimos vestígios do desemprego da Grande Depressão. O filme noir foi uma reação ao mundo que se desenhava em 1941. Na época, os filmes estavam mais preparados para um novo tipo de herói e um novo leque de personagens. A imposição do Código de Produção (Production Code), censurando o conteúdo dos filmes a partir de 1933, teve o efeito de limpar e clarificar as superfícies externas dos personagens e das tramas, mais do que seus autores, atores e diretores poderiam ter gostado. Atores como James Cagney, Humphrey Bogart e mesmo John Wayne (dê uma olhada em sua representação como Ringo Kid em Stagecoach) tinham trabalhado para trazer algum lado obscuro para sua representação, mas somente de uma maneira muito limitada. Geralmente, os filmes se tornaram menos abrangentes após oito anos de censura auto-imposta.

    Quando o filme noir apareceu durante o início dos anos 40, mostrando lados do comportamento humano anteriormente ignorados, o público respondeu mais entusiasticamente. A Guerra também ajudou em outro aspecto ¿ muitos dos trabalhos que se seguiram não teriam passado pelos censores nos anos 30, mas após a entrada da América na guerra, os padrões se perderam à medida que a indústria cinematográfica reconheceu que o mundo era um lugar mais violento e perigoso. E uma nova geração de escritores chegou em Hollywood para se aproveitar disso. O trabalho do autor Cornell Woolrich, em particular, serviu como ponto de referência para estes dramas psicológicos obscuros. Uma pessoa profundamente atormentada, porém um escritor talentoso que sofria de depressão crônica e uma obsessão por sua própria mãe e que era homossexual, Woolrich foi um dos mais populares escritores de ficção policial no início dos anos 40; seu trabalho foi extensamente publicado em revistas assim como em novelas. Sua estória "Black Friday" e novelas como "Phantom Lady" e "The Night Has A Thousand Eyes" tornaram-se a base para muitos filmes importantes durante os primeiros anos daquela década; além disso, ele criou o texto que subseqüentemente foi adaptado ao cinema como "Janela Indiscreta", de Alfred Hitchcock.

    Ao nível mais popular, Daniel Hammett ("O Falcão Maltês") e Raymond Chandler ("À Beira do Abismo", "Adeus, Querida!") estavam em demanda como nunca e nos anos 40 eles finalmente viram as personalidades sinistras de seus personagens levadas às telas razoavelmente intactas. O filme noir foi o primeiro gênero no qual o perigo com o qual os personagens se defrontavam era mais psicológico do que físico. A platéia parecia responder bem a esse fenômeno, e o sucesso de "This Gun for Hire" e "I Wake up Screaming", em particular, anunciou uma era de dramas policiais sinistros e mistérios habitados por personagens estranhos e obcecados: "Phantom Lady", "Deadline At Dawn", "The Woman In the Window", "Scarlet Street", "Murder My Sweet", "The Lost Weekend", "The Strange Love of Martha Ivers", "Pitfall", "Dead Reckoning", "The Dark Corner", "Edge of Doom", "Force Of Evil", "Kiss of Death", "The Asphalt Jungle", "They Live By Night", "D.O.A". Os títulos por si só falam a respeito desses filmes. Uma típica trama noir poderia envolver uma pessoa que comete um pequeno e aparente sem importância ato de indiscrição ¿ estando bêbada, fazendo um favor para um estranho ou falhando ao realizar uma tarefa para um estranho ¿ e acaba se encontrando num dilema de vida ou morte. Em "Dark Corner", Mark Stevens se vê perseguido, agredido e preso por um detetive particular por um assassinato que não cometeu, tudo a pedido de um homem (Clifton Webb) que mal sabe ou se lembra de sua própria motivação pervertida por vingança. Em "Deadline At Dawn", o único filme dirigido pelo renomado diretor de teatro Harold Clurman, o marinheiro Bill Williams, durante uma visita a Nova Iorque, acorda após um porre e descobre que a mulher com a qual estava ¿ e que estava tentando roubá-lo - foi estrangulada e ele pode ficar comprometido por vários indícios e testemunhas. Em "Pitfall", Dick Powell, investigador de uma companhia de seguros, dá atenção para uma mulher aparentemente carente e vulnerável (Lizabeth Scott) e isto o envolve em uma fraude, uma chantagem e um assassinato. Finalmente, em "D.O.A.", talvez o mais sinistro dos filmes noir, o empresário Edmond O´Brien percebe que lhe foi dado um veneno letal, de efeito prolongado, que o matará em 24 horas e ele gasta este tempo tentando descobrir o porquê do envenenamento; ao final, descobre que foi assassinado somente porque documentou uma conta de venda para um homem que nunca vira antes, o que tornara-o uma testemunha em potencial num caso de fraude e assassinato.

    Em outros exemplos do gênero, os personagens são tudo, menos inocentes. O filme "Laura" (1944), de Otto Preminger, por exemplo, o qual também é um dos mais românticos noir feitos, todos os envolvidos na trama (exceto por um mordomo) são potenciais suspeitos do assassinato e têm motivos para tanto. Mesmo o policial, interpretado por Dana Andrews, está tão absorvido por seu trabalho que ele não percebe a selvageria e o sadismo que movem suas ações e motivações. Andrews, Preminger, e a estrela do filme, Gene Tierney explorariam novamente esse personagem em 1950, no filme "Where The Sidewalk Ends", no qual Andrews representa um policial que inadvertidamente se envolve num assassinato - ironicamente, um dos poucos crimes que ele é acusado e que não é culpado!

    Um outro exemplo brilhante do gênero é "Force of Evil" (1948), de Abraham Polonsky, o único que não nasceu em Hollywood. Filme de uma produtora independente chamada Enterprise Studios, em Force of Evil estrelava John Garfield como um empresário bem-sucedido de Wall Street tentando comandar um sindicato que planeja quebrar o jogo-do-bicho local e transformá-lo em uma loteria legal, mas, para isso, ele precisa arruinar a vida de seu irmão - com o qual está brigado - , um pequeno bicheiro. Garfield é destruído quando ele tenta salvar o bem-estar financeiro de seu irmão, o que custa a vida deste (brilhantemente interpretado por Thomas Gomez) no processo. A Força da Maldade mencionada no título original é o capitalismo e a ganância do sistema. Em "The Asphalt Jungle" (1950), de John Huston, todos são culpados e ou são pegos ou mortos - saber disso não diminui a importância do filme, pois o modo como eles são pegos ou mortos é do que realmente trata o filme. Mesmo Samuel Goldwyn, conhecido por fazer filmes para atingir o maior público possível ("The Best Years of Our Lives", "Hans Christian Andersen", etc.), produziu um filme noir, "Edge of Doom", o qual provou ser um dos mais sombrios e bizarros exemplos do gênero. Farley Granger, que trabalharia muito melhor em "Side Street", interpreta um garoto pobre de Boston que mata acidentalmente um padre e passa o resto do filme tentando escapar de sua responsabilidade e sua perseguição por outro padre (Dana Andrews).

    A importância do filme noir diminuiu durante os anos 50, algum tempo após o final da Guerra Mundial que deu origem ao seu nascimento. A longevidade do gênero, contudo, pode ser atribuída primeiro à sua flexibilidade - ao contrário dos westerns, os filmes policiais nunca saem de moda e as diferentes manifestações do crime oferecem uma rica seleção de matéria-prima. Ao final dos anos 40, à medida que a delinqüência juvenil estava se tornando um assunto prioritário, a Universal produziu "City Across The River" (basedo no best seller "The Amboy Dukes", de Irving Shulman), sobre gangues de rua na região de Brownsville do Brooklyn. E nos anos 50, mesmo o "Terror Vermelho" (a paranóia anti-comunista) manifestou-se no filme noir, em um dos melhores thrillers policiais da década, "Pickup On South Street" (1953), de Samuel Fuller, no qual um batedor de carteiras (Richard Widmark) se encontra metido com espiões inimigos e agentes do F.B.I quando ele rouba a bolsa de uma mulher que contém um valioso pedaço de microfilme - Thelma Ritter, a qual, apesar da produção "B", recebeu uma indicação ao Oscar.

    O ciclo do film noir deu origem a várias partituras musicais marcantes, compostas por maestros como David Raksin (Laura) e, principalmente, o lendário Miklos Rozsa (Double Indemnity, The Lost Weekend, Naked City). O interesse pelo gênero somente diminuiu quando a televisão acabou com o mercado deste tipo de baixa produção, e o tiro de misericórdia foi dado quando o filme colorido se tornou padrão em Hollywood. Era muito difícil, senão impossível, filmar estórias da natureza do noir em cores sem o ambiente sinistro que a fotografia em preto-e-branco propiciava a cor, tal como usada naqueles dias, tirava a concentração e, por questão de necessidade, criava imagens muito brilhantes. O filme noir, contudo, não desapareceu inteiramente como gênero e campo de estudo. Na França, diretores como Jean-Pierre Melville (Bob Le Flambeur) e Jean-Luc Godard (Breathless) foram profundamente influenciados pelo gênero americano. Jules Dassin também fez um clássico filme noir, Riffifi. Ocasionalmente, um filme como "Cry Terror" de Andrew e Virginia Stone ou Key Witness, de Phil Karlson - ambos datando do começo dos anos 60 - emergiriam de Hollywood, mas foram apenas uma exceção e nenhum atingiu o sucesso esperado, de modo a trazer um interesse maior.

    Como a qualidade dos filmes de Hollywood piorou, cinéfilos e estudantes de cinema crescentemente se voltaram aos gêneros mais antigos e descobriram o filme noir. Além disso, a total fixação americana pelo filme noir data a partir dos anos 60, à medida que expectadores e estudantes - procurando por algo mais do que "A Noviça Rebelde" ou mesmo a série de filmes de James Bond poderiam oferecer - começaram a levar a sério estes velhos filmes policiais e estudando-os em modos que teriam surpreendido seus produtores. Nos anos 70 e 80, qualquer um podia encontrar a influência do filme noir em bons mistérios como "The Midnight Man" (1974), de Burt Lancaster e Roland Kibbee, "Blade Runner" (1982), de Riddley Scott e "A Honra do Poderoso Prizzi" (1985), de John Huston; nos anos 90, filmes como "Cães de Aluguel" (1992), de Quentin Tarantino, ajudaram a preservar o gênero.

    Há sete elementos de um filme noir que Raymond Borde e Etienne Chauteton apontaram em Panorama du Film Americain (extraído e traduzido em Film Noir Reader, editado por Alain Silver e James Ursini). São eles:

  • Um crime;

  • A perspectiva dos criminosos, não da polícia;

  • Uma visão invertida das tradicionais fontes de autoridade, tal como a corrupção policial;

  • Alianças e lealdades instáveis;

  • A "femme fatale" (fêmea fatal): a mulher que causa a ruína e/ou morte de um bom homem;

  • Violência bruta;

  • Motivação e mudanças em complôs bizarros

    Por fim, segue a lista TOP10 de filmes Noir:

    1. "Crepúsculo dos Deuses" (1950) - Dir: Billy Wilder;
    2. "Pacto de Sangue" (1944) - Dir: Billy Wilder;
    3. "O Terceiro Homem" (1949) - Dir. Carol Reed;
    4. "O Falcão Maltês" (1941) - Dir. John Huston;
    5. "A Marca da Maldade" (1958) - Dir. Orson Welles;
    6. "Pacto Sinistro" (1951) - Dir. Alfred Hitchcock;
    7. "À beira do abismo" (1946) - Dir. Howard Hawks;
    8. "Interlúdio" (1946) - Dir. Alfred Hitchcock;
    9. "O Mensageiro do Diabo" (1955) - Dir. Charles Laughton;
    10. "Fúria Sanguinária" (1949) - Dir. Raoul Walsh.



  • 13.10.04

    Uma gigantesca fantasia retrô


    Sabe aquelas visões que Hollywood fazia na década de 20 sobre o futuro? Pois bem, estamos no terceiro milênio! Desfrutamos de Microondas, de Internet e de celulares...no entanto, a cerca daqueles robôs brilhantes e daqueles veiculos de vôo fabulosos que permearam a imaginação de muitos, nada se viu ainda!

    O filme de estréia do diretor americano Kerry Conran (que também escreveu o roteiro) é o primeiro de uma trilogia que será toda filmada contra cromaquis: os cenários, paisagens e profundidade serão todos preenchidos depois, com imagens de computador. O processo foi desenvolvido pelo próprio diretor em um programa de computador e é bem provável que revolucione a indústria cinematográfica, já que reconstrói fielmente a visão que se tinha do futuro há cerca de 50 anos numa farta e gigantesca fantasia retrô: Enquanto o zeppelin sobrevoa o Empire State, robôs enormes marcham pela quinta avenida, e no mar - uma batalha de submarinos! Esse é o pano de fundo de "Sky Captain and the World of Tomorrow", um verdadeiro pastiche de tudo que foi visto desde "King Kong" até "O Mágico de Oz", de "Star Wars" até "Os Caçadores da Arca Perdida" numa deliciosa série de referências clássicas combinadas numa experiência inteiramente nova.

    Com jeito de superprodução, o jovem diretor optou por convocar estrelas para o seu primeiro longa: Jude Law, Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie estão no elenco, além de Giovanni Ribisi e da chinesa Ling Bai. O argumento do filme é bem simples: O filme se passa em Nova York, em 1939, e gira em torno da repórter do Chronicle, Polly Perkins (Paltrow), que percebe o misterioso desaparecimento de vários famosos cientistas em todo o mundo. O responsável pelos sumiços é Dr. Totenkopf, uma espécie de gênio maluco que, claro, pretende dominar o mundo. A repórter de Gwyneth Paltrow ajuda os pilotos de caça Sky Captain (Law) e Franky Cook (Jolie) a vencer o inimigo.

    Os efeitos CGI foram capazes de combinar a ação eletrizante do filme com o cenário digital de "World of Tomorrow", numa visão impressionista e glamourosa. "Sky Captain..." é um filme que aguça a imaginação e se tratando do futuro, tudo é possível...

    Confira o site oficial do filme aqui!

  • HAPPY: Marilyn Manson será Rainha de Copas em adaptação de "Alice No País Das Maravilhas"



  • 10.10.04


    SPOILER ESPECIAL: Festival do Rio 2004

    "Quase Dois Irmãos" e "Contra Todos" ganham Festival do Rio


    "Quase Dois Irmãos", da carioca Lúcia Murat, arrematou três prêmios na sexta edição do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, durante a cerimônia de encerramento na noite de quinta-feira, no Cine Odeon. O longa "Contra Todos" e o curta "O Jaqueirão do Zeca" ficaram com dois troféus cada.

    Murat recebeu das mãos do cineasta Nelson Pereira dos Santos o prêmio de melhor direção da escolha do júri oficial, composto pelo diretor Alain Fresnot, a atriz Dira Paes e o diretor artístico da Cinefondation do Festival de Cannes, Laurent Jacob.

    "Quase Dois Irmãos", sobre a relação entre a classe média e a favela carioca, valeu a Flávio Bauraqui o prêmio de melhor ator. O júri da Federação Internacional da Imprensa, que reconhece o melhor longa latino-americano, escolheu o trabalho de Murat, que já foi exibido nos festivais de Toronto e Montreal.

    "Contra Todos", do estreante paulista Roberto Moreira, ficou com um dos principais troféus da noite, o de melhor longa-metragem de ficção do júri oficial. Silvia Lourenço, que faz a filha adolescente de uma família da periferia de São Paulo no filme de Moreira, foi considerada a melhor atriz.

    Já o júri popular -- formado pelas platéias que votavam na saída de cada sessão dos filmes nacionais -- escolheu como melhor ficção "Vida de Menina", de Helena Solberg, vencedor de seis prêmios no Festival de Gramado deste ano. Em 2003, a escolha do público e do júri foi a mesma nesta categoria, premiando "Narradores de Javé".

    Para os documentários em competição deste ano, o júri oficial ficou com "Estamira", filme de Marcos Prado sobre uma mulher de 63 anos que há duas décadas trabalha num aterro sanitário do Rio, e júri popular com o filme de surfista "Fábio Fabuloso", de Antonio Ricardo, Pedro Cezar e Ricardo Bocão.

    Entre os curtas-metragens, "O Jaqueirão do Zeca", de Denise Moraes e Ricardo Bravo, sobre o cantor e compositor Zeca Pagodinho, dividiu o prêmio do júri oficial com "Quero ser Jack White", de Charly Braun.

    "O Jaqueirão" foi também a escolha do júri da Associação Brasileira de Documentarista e Curta-metragista. Na votação popular, o melhor curta ficou com "Nada a Declarar", de Gustavo Acioli.

    A estimativa final de público pagante foi de 230 mil espectadores, e os filmes mais procurados, segundo a organização, foram "Má Educação", de Pedro Almodóvar, "Antes do Pôr-do-Sol", de Richard Linklater, "Kill Bill -- Vol. 2", de Quentin Tarantino, "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci, "Vera Drake", de Mike Leigh, "Herói" e "The House of Flying Daggers", ambos do chinês Zhang Yimou.

    O Festival de Cinema do Rio exibiu 347 filmes durante os 15 dias de evento, em cerca de 30 salas de cinemas espalhadas pela cidade. Confira a lista dos premiados:

    JÚRI POPULAR

  • Longa de ficção: "Vida de Menina", de Helena Solberg
  • Documentário: "Fábio Fabuloso", de Antonio Ricardo, Pedro Cezar e Ricardo Bocão
  • Curta-metragem: "Nada a Declarar", de Gustavo Acioli

    JÚRI OFICIAL

  • Longa de ficção: "Contra Todos", de Roberto Moreira
  • Documentário: "Estamira", de Marcos Prado
  • Curta-metragem, dois vencedores: "O Jaqueirão do Zeca", de Denise Moraes e Ricardo Bravo, e "Quero Ser Jack White", de Charly Braun
  • Direção: Lúcia Murat ("Quase Dois Irmãos")
  • Ator: Flávio Bauraqui ("Quase Dois Irmãos")
  • Atriz: Silvia Lourenço ("Contra Todos")
  • Prêmio especial: "Soldado de Deus", de Sérigo Sanz

    JÚRI FIPRESCI (Federação Internacional da Imprensa)

  • Melhor filme latino-americano: "Quase Dois Irmãos"

    JÚRI DA ABD E C (Associação Brasileira de Documentarista e Curta-metragista)

  • "O Jaqueirão do Zeca", de Denise Moraes e Ricardo Bravo

    DATASPOILER revela preferência por Spielberg e Eastwood

    Segundo os leitores de SPOILER, não importa qual seja o filme de guerra, o fundamental é que ele seja dirigido por Steven Spielberg. Na enquete realizada entre 21 a 26 de setembro, tanto "A Lista de Schindler" (1993) como "O Resgate do Soldado Ryan" (1998) terminaram em primeiro na escolha popular com 30% dos votos. Curiosamente foram esse filmes que renderam o tão sonhado OSCAR à Spielberg que o perseguia desde 1985 com "A Cor Púrpura". O clássico "A Ponte do Rio Kwai " de 1957 ficou em terceiro com 18%

    Já quando o assunto é faroeste a escolha é unânime: Clint Eastwood e seu "Os Imperdoáveis" de 1992 foi a opção de 57% dos internautas (Filme que também lhe rendeu dois OSCARs como diretor e produtor). Sergio Leone, John Ford e George Stevens também foram lembrados por seus respectivos filmes, "Por um Punhado de Dólares", "No Tempo de Diligências" e "Os Brutos Também Amam". Todos empataram em segundo com 14%. Numa enquete ápatica, nenhum outro filme foi votado.



  • 8.10.04

    "O Espanta Tubarões" desperta o lado adulto das crianças


    O produtor Jeff Katzenberg cunhou uma definição precisa para "O Espanta Tubarões", animação da Dreamworks que estréia hoje no Brasil: "É um filme feito para despertar o pequeno adulto que há dentro de cada criança".

    A piada de Katzenberg não é só graça: é uma estocada em seus antigos patrões e atuais rivais (não declarados) na Disney, onde trabalhou por dez anos.

    A companhia de Mickey Mouse tem como lema "despertar a criança que há em cada adulto", e foi revertendo esse conceito que Katzenberg conseguiu fazer sua Dreamworks SKG (ele está entre o S de Steven Spielberg e o G de David Geffen) se sobressair com "Shrek" e a seqüência "Shrek 2".

    "Mas dedicamos boa parte de nosso tempo tentando garantir que o filme seja divertido também para as crianças", diz.

    O estúdio apostou alto em seu último lançamento, que levou cinco anos do projeto à tela e já tem seqüência engatilhada para 2006. Reza a lenda --e Katzenberg, não desmente-- que nunca uma animação entregou contracheques tão vultosos para o elenco. "Crianças podem não ligar para nomes, mas acho que ter atores como De Niro e Jack Black deixa o filme bacana para elas também", disse o produtor em entrevista da qual a Folha participou.

    Ganharam cara de peixe Will Smith, Renée Zellweger, Jack Black, Angelina Jolie, Robert de Niro e Martin Scorsese. O diretor, que não fazia um papel creditado no cinema desde "Quiz Show" (1994), está hilário como o baiacu Sykes, um dono de lava-rápido ligado à máfia (é para crianças?).

    De Niro e Scorsese não só juram que é para crianças como dizem que aceitaram os papéis pensando em seus filhos pequenos, que nunca podem assistir seus filmes. Mas a impressão que dá é que eles estavam aproveitando para se divertir e dar à antiga parceria, que rendeu clássicos como "Taxi Driver" e "Os Bons Companheiros", uma versão descompromissada.

    A produção parece tão preocupada com o público que liga para nomes que deixou detalhes das feições de cada intérprete nos peixes. Estão ali, em versão animada, as imensas sobrancelhas de Scorsese, a pinta de De Niro, as orelhas avantajadas de Smith, os olhos apertados de Zellweger. A boca carnuda e as curvas de Jolie, disse o protagonista Will Smith, despertaram-lhe uma súbita vontade de comer sushi (de novo: é para crianças?).

    No fundo do mar, em um recife que parece Nova York, o peixe Oscar (Smith) sonha em ficar famoso e rico enquanto trabalha no lava-rápido de Sykes (Scorsese). Até que um tubarão, ao tentar atacá-lo, morre atingido por uma âncora. Ele leva o crédito por erradicar a maior ameaça ao recife e vira celebridade instantânea.

    Só que o morto é o herdeiro do chefão mafioso local, Don Lino (De Niro). Para manter a mentira que o fez famoso, o pseudo-algoz faz amizade com o irmão de sua pretensa vítima, Lenny (Black), um tubarão vegetariano que queria ser um golfinho. A cena de Lenny saindo do armário para o pai é de longe a melhor do filme, calcada nos filhos que assumem sua homossexualidade diante dos pais. Katzenberg e a diretora, Vicky Jenson, dizem que seu tubarão não é gay. OK. E esse é um filme para crianças.

    Fonte: Luciana Coelho - Folha de S.Paulo 08/10/04

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  • 7.10.04

    E Tarantino, quem diria, tem sentimentos


    Em Kill Bill - Volume 2, o diretor declara seu amor ao faroeste e a Uma Thurman

    A última coisa que se espera ao assistir a um filme de Quentin Tarantino é sentir lágrimas nos olhos, um nó na garganta e um aperto no coração. Mas em Kill Bill - Volume 2 que estréia nesta sexta-feira no país, esses sintomas são recorrentes. Tarantino se desloca agora do Leste, a grande inspiração do Volume 1, para o Oeste, sob cujo signo transcorre este epílogo. O espalhafato e o exagero dos filmes de artes marciais dão lugar ao clima crepuscular e pesaroso dos faroestes, e muito muda também na maneira como o diretor mostra sua protagonista, a Noiva (Uma Thurman) - não mais apenas como a máquina de matar da primeira parte, mas como um objeto de amor e uma personagem de contornos quase religiosos. Na belíssima introdução, que homenageia "Rastros de Ódio", de John Ford, o diretor finalmente expõe a verdadeira razão para a saga de vingança iniciada no primeiro filme. A Noiva, uma ex-assassina profissional, não quer apenas eliminar seu líder, Bill (David Carradine), e seus colegas de esquadrão por invadirem seu casamento e massacrarem noivo e convidados, deixando-a ali meio morta, muito grávida e com uma bala na cabeça. Como uma figura bíblica, a Noiva quer lavar, com sangue, um crime maior: ter sido roubada do direito de ressurgir. Fica-se sabendo, agora, que a Noiva fugiu de Bill e de seu passado no exato instante em que se descobriu grávida. No código de Tarantino, abdicar da violência equivale mais ou menos a voltar a ser virgem - e, como se sabe de uma única outra virgem que tenha sido mãe, está aí uma boa pista para entender a importância que a Noiva tem para o diretor.

    Tarantino sempre preferiu tratar seus personagens como marionetes: ele puxa os fios, eles obedecem. Bill, por exemplo, não tem vida própria. David Carradine faz o papel porque ficou cristalizado como o monge do seriado Kung Fu, nos anos 70, e porque é um nome ideal para o jogo do diretor de ressuscitar carreiras esquecidas. A Noiva, porém, escapa ao seu poder e é maior do que ele, e talvez esteja aí um dos motivos pelos quais Volume 2 transmita a sensação de ser um imenso passo à frente. Todas as marcas registradas de Tarantino continuam, claro, presentes: a mistura de gêneros, a audácia visual, os diálogos de alto teor pop e as referências obscuras. Mas, pela primeira vez, essas proezas deixam de ser um fim em si mesmas. Tome-se, por exemplo, a cena em que a Noiva é enterrada viva por Budd (Michael Madsen), um de seus adversários. Durante longos minutos, a platéia compartilha com ela o terror da escuridão, da falta de ar e do barulho cada vez mais abafado da terra cobrindo seu caixão. É uma demonstração de bravura cinematográfica, que o diretor virtuosisticamente cola a um desfecho cômico - a Noiva se safa de seu túmulo e, coberta de pó e andando com rigidez cadavérica, atravessa a rua em direção a uma lanchonete, onde um funcionário a observa aterrorizado. Tudo o que ela faz, porém, é se sentar ao balcão e, com a timidez e os bons modos de uma menina de colégio, pedir um copo d'água. A cena é irônica e desconcertante, e também uma prova inesperada da confiança de Tarantino em sua personagem e em Uma Thurman.

    Desde "Pulp Fiction", todos os filmes do diretor têm personagens femininas fortes - uma influência que ele já creditou, em diversas entrevistas, à fibra de sua mãe, que o criou sozinho. E, desde "Pulp Fiction" também, um dos passatempos preferidos da crítica tem sido anotar a contradição entre essa admiração pelas mulheres e a misoginia de Tarantino. A contradição é só aparente: pela maneira como fala, o diretor nunca deve ter duvidado de que foi o centro do universo de sua mãe. Seus filmes, até hoje, só refletiram essa auto-absorção masculina, para o bem e para o mal. É sobretudo aí que "Kill Bill - Volume 2" rompe com o passado. Bill não é a única figura paterna que, a despeito de seu amor genuíno, a Noiva tem de aniquilar para ganhar uma existência. Tarantino, na qualidade de diretor que tudo pode, é a outra - e, ao aceitar que Uma aja segundo seus próprios instintos de atriz (bons instintos, diga-se), ele parece ter aceitado também que não tem mais idade para ser o filho em tudo festejado e atendido. Ao menos em termos hipotéticos, o diretor está enamorado é da idéia da paternidade, e visivelmente inebriado com a maternidade de Uma, tanto a fictícia quanto a real. Os filhos, ele acaba de descobrir, são o único antídoto possível para a velhice e a morte. No decorrer de Volume 2, a Noiva apanha, se fere e sofre incontáveis abusos físicos, que vêm acompanhados aqui de toda a dor que o diretor nunca se preocupou em mostrar. Mas, para ela, pouco importa, se esse for o meio de proteger a filha que, talvez, tenha nascido após o massacre, durante seu coma. Para os fãs de Tarantino, pode ser um choque e um desânimo, mas não há como negar - ele amadureceu.

    Maratona Kill Bill em São Paulo: O HSBC Belas Artes vai exibir, de 8 a 14 de outubro, "Kill Bill Vol. 1" na sala 3 (Carmen Miranda) nos mesmos horários em que a sala 1 (Villa Lobos) vai estrear "Kill Bill Vol. 2". Entendeu a dica mega-nerd de SPOILER? Você pode assistir ao Volume 1 às 14 horas ou 16h30 e emendar o Volume 2 na sessão seguinte na sala ao lado. Assim, confere a saga de vingança da Noiva na íntegra, do jeito que Quentin Tarantino a criou! No total, são 247 minutos (também conhecidos como 4 horas e 7 minutos) de jorros de sangue, kung fu, músicas bacanas, homenagens ao cinema oriental, western spaghetti, vilões caricatos, drama, suspense, ação, romance e a sensacional five point palm exploding heart technique! Ah! E fique até o segundo final dos créditos do Volume 2!

    O HSBC Belas Artes fica na R. da Consolação, 2.423 - São Paulo - Tel.: 3258-4092.

    Fonte: Isabela Boscov - Revista Veja Ed.1874

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  • 6.10.04

    Faroeste, um mago, um mito - Parte 3


    E, é claro, Maureen O´Hara!

    O Western teve atrizes maravilhosas, como Angie Dickinson, Claudette Colbert, Claudia Cardinale, Dorothy Malone, Katy Jurado, Linda Darnell, Marlene Dietrich e, claro, Maureen O'Hara, talvez o maior 'desafio' de John Wayne, nos westerns e fora deles.

    Irlandesa além da raiz dos cabelos é uma descrição que cabe aqui e remete a seu gênio: não havia quem a provocasse impunemente, como aconteceu com John Ford durante as filmagens de "Depois do Vendaval" (ver texto anterior sobre Ford). Mas nem sempre levava a melhor. O mesmo filme tem uma sequência que se tornou antológica: Wayne a encontra limpando a cabana que ele acabara de comprar e, depois de trocarem algumas palavras, ele a puxa e a beija, os cabelos ruivos ondulando com o vento forte da tempestade. Nesta mesma sequência, em determinado momento, ela dá um tapa em Wayne. Pois bem: Ford, como era seu costume, passara o dia provocando Maureen (ele sempre escolhia um ator para se divertir às custas dele). Wayne entrou na onda e passou a provocá-la também. "Pois eles que esperem o momento do tapa", pensou ela. Dito e feito. Quando chegou a hora, caprichou: mandou o tapa mais forte que conseguiu dar. Wayne, malandro, colocou a mão na frente do rosto. Maureen teve o pulso aberto.

    Foi das mais lindas mulheres surgidas no cinema na década de 40; era altiva, olhos cor de avelã, despertava paixões que, quando não convinham, sabia muito bem manter à distância.

    Seu nome de batismo foi Maureen FitzSimmons e nasceu em Milwall, perto de Dublin. Começou pelo rádio, interpretou como amadora em várias peças até que chamou a atenção e foi levada para estúdios de Londres. Filmou com Hitchcock, ao lado de Charles Laughton, em seu primeiro filme importante, Jamaica Inn, em 1939. Em 1941 John Ford entrou em sua vida escolhendo-a para representar Angahared Morgan em Como Era Verde o Meu Vale. O resto, como diz o lugar comum, é História.



    5.10.04

    Faroeste, um mago, um mito - Parte 2


    O MITO JOHN WAYNE: Ele começou no cinema como faz-tudo nos estúdios. Acabou como sinônimo de western

    Tom Mix, o famoso cowboy do cinema, era um grande fã do futebol americano. E como vivia na Califórnia, um grande fã do time da USC, a Universidade do Sul da Califórnia. Ele fez um acordo: 'Coach Jones', o treinador da USC, daria a ele lugares na linha das 50 jardas para todos os jogos da equipe; ele, Tom Mix, retribuiria com igressos para o cinema e empregos de verão, nos estúdios da Fox, para alguns dos jogadores de Jones. E quem era um dos melhores jogadores de Jones? Marion Michael Morrison, filho de Clyde e Mary Morrison, nascido em Winterset, Iowa, EUA, em 27 de maio de 1907. Um dia, anos mais tarde, um diretor de cinema olharia para ele e diria: 'Você tem cara de John Wayne'. E John Wayne nasceria.

    O garoto Marion Morrison estava com cinco anos quando seu pai teve sérios problemas de saúde e precisou mudar-se para um clima melhor. A família foi para Palmdale, Califórnia, e mais tarde, com a saúde do senhor Clyde recuperada, para Glendale, subúrbio de Los Angeles. Marion era ainda uma criança quando ganhou um cachorrinho, um terrier airdale, que chamou de Duke. Tornaram-se inseparáveis. Aos poucos, os nomes dos dois foram se misturando. As pessoas passaram a se referir a Marion como o Pequeno Duke, e depois apenas Duke, e o apelido grudou nele pelo resto da vida. O grande John Ford o chamava de Duke. Em coletivas de imprensa, John Wayne teve que explicar várias vezes a origem do título, insistindo em que não era parente de qualquer realeza.

    O Duke menino adorava o pai. Jamais esqueceu três conselhos dele:
    1 - Mantenha sempre sua palavra;
    2 - Um cavalheiro nunca insulta alguém intencionalmente;
    3 - Não saia por aí procurando encrenca. Mas, se se envolver em uma briga, trate de vencê-la.

    Voltando ao trato de Tom Mix com 'Coach Jones'. Duke Morrison viu o cowboy em ação em incontáveis matinês. No verão de 1926, Tom o contratou como quarto assistente de produção na Fox, com um salário de 35 dólares por semana. Quarto assistente de produção queria dizer faz-tudo. E como tal, no primeiro filme do qual participou, 'Mother Machree', de John Ford aos 31 anos, ele era encarregado de levar para dentro e fora do set um punhado de gansos. Sam Shaw, um fotógrafo que acompanhou Wayne em uma fase importante da vida dele, e que recolheu e publicou algumas histórias, conta que, no primeiro dia de filmagem, Ford não disse uma palavra ao jovem estreante.

    No segundo dia, gritou: 'Ei, Morrison, não foi você o garoto que marcou o ponto da vitória sobre o Notre Dame na última temporada?' Morrison respondeu que sim. 'Tome posição, está bem?', disse-lhe Ford. O rapaz abaixou-se e, tal como fazia nos estádios, plantou as duas mãos no chão. Ford, que tinha muito orgulho de sua forma física, investiu contra ele. O Duke não caía facilmente, mas Ford atingiu um de seus braços e o derrubou de costas no chão. Todos riram muito, principalmente Ford. Que, em seguida, desafiou o humilhado garoto a detê-lo enquanto supostamente correria em direção ao gol. E correu. Duke escorou-o duramente, e Ford foi ao chão. Levantou-se rindo.

    Para Sam Shaw, nasceu ali uma das grandes amizades do mundo do cinema.

    Depois disso Duke já havia participado de vários filmes, muitos como dublê, e alguns em papéis tão variados que chegou a cantar em um musical, quando, em 1930, Raul Walsh perguntou a John Ford se poderia indicar-lhe alguém para o papel principal de The Big Trail (A Grande Jornada). Ford disse-lhe que Duke Morrison poderia servir. Walsh acabara de ler um livro sobre o general Anthony Wayne (1745 - 1796), figura de destaque na Revolução Americana. Ele ouviu o nome Marion Michael Morrison, olhou para o Duke e disse 'Não, você tem cara de Wayne'. Acrescentou o John e deu-se por satisfeito. Era um bom nome para um herói do western, pensou.

    - Quando comecei -disse Duke -, sabia que não era um ator; então comecei a trabalhar nessa coisa de John Wayne. Eu era uma projeção deliberada e estudada o tempo todo. Percebi que precisava de uma imagem, e então idealizei aquela fala mansa, aquele olhar malicioso e um jeito de me mover sugerindo que não procurava encrenca, mas quebraria uma garrafa em sua cabeça para provar que não. Foi erro e acerto por algum tempo, mas começou a se desenvolver.

    The Big Trail foi um fracasso, e Wayne passou os nove anos seguintes fazendo filmes B para vários estúdios. Enquanto isso John Ford procurava um produtor que bancasse um projeto que lhe veio à cabeça quando leu uma história curta de Ernest Haycox, Stage do Landsburg. A United Artists deu o sinal verde em 1939.

    Alguns contam que Ford submeteu a John Wayne o script de Stagecoach (No Tempo das Diligências) e pediu a ele que sugerisse alguém para o papel de Ringo Kid. Wayne teria sugerido Lloyd Nolan. Vejamos uma historinha contada anos mais tarde pelo próprio Wayne:

    - Trabalhei para John Ford durante anos como faz-tudo, dublê e fiz algumas pontas. Desenvolvi por ele a admiração que se tem por um herói, e que ainda existe. Mas, quando me vi limitado a westerns de três dias e meio, ele passava por mim sem me falar. Isso aconteceu durante três anos: ele simplesmente nem olhava para mim. Então um dia eu estava em um bar quando a filha dele entrou e disse 'Papai quer você no iate dele'. Eu não sabia o que fazer. Mais tarde Mary, a mulher dele, apareceu e disse 'Ele quer você'. Fui vê-lo, e ele disse que me queria em Stagecoach.

    Foi o filme que o levou ao estrelato, e fez seu salário saltar de 200 dólares semanais para 1.500. Pouco depois os Estados Unidos entrariam na Segunda Guerra e Wayne também, fazendo filmes de combate bem de acordo com seus sentimentos altamente patrióticos. Fez novas obras-primas com Ford, como Fort Apache (Forte Apache), em 48, She Wore a Yellow Ribbon (Legião Invencível), em 49, e Rio Grande (Rio Grande), em 50. Nesse período, em 49, ele fez também Red River (Rio Vermelho), dirigido por Howard Hawks.

    - Stagecoach me fez um astro - disse Wayne - e serei grato a Ford para sempre. Mas não penso que ele tivesse realmente algum respeito por mim como ator até que fiz Red River com Hawks, dez anos depois. Mesmo assim nunca tive muita certeza.

    Em 1956, também com John Ford, Wayne fez The Searchers (Rastros de Ódio). Foi um dos seus favoritos, tanto que deu a um dos filhos o nome Ethan, o mesmo do personagem que interpreta, Ethan Edwards. Uma das muitas lendas que cercam Wayne e Ford contam que, terminada a filmagem, Ford teria dito 'Eu não sabia que ele é capaz de interpretar'. Falando sério ou não, e mais provavelmente sim, Ford sempre criticou as atuações de Wayne. Certa vez contou que, durante as filmagens de Stagecoach, Wayne disse-lhe que não sabia como interpretar o amor que sentia por Dallas, a jovem prostituta. E que teria lhe dito 'Erga as sobrancelhas e franza a testa'. E acrescentou 'Ele continuaria fazendo aquilo pelos 40 anos seguintes'.

    Nos anos 50 John Wayne tinha o altíssimo salário (para a época) de 500 mil dólares por filme, era o maior sucesso de bilheteria do show-business, e isso permitiu a ele duas aventuras fracassadas na produção: The Alamo (O Álamo) em 1960 e The Green Berets (Os Boinas-Verdes), em 68. Este último, em que tentou dar pinceladas de glória na guerra do Vietnã, custou-lhe muitas críticas daqueles que nunca aceitaram nele o comportamento que taxavam de direitista e reacionário.

    Mas em 1969 ele seria o xerife bêbado Rooster Cogburn em True Grit (Bravura Indômita), de Henry Hathaway, papel que lhe deu o único Oscar da carreira e o colocou de volta no primeiro posto das bilheterias. Naquela época ele já lutava contra o câncer e havia passado por uma operação do pulmão em l964.

    Em 1976 John Wayne fez seu último filme: The Shootist (O Último Pistoleiro), com Don Siegel. Na sua despedida das telas ele não poderia ter tido um papel mais apropriado: o de um maduro e famoso pistoleiro, um tanto deslocado em uma época em que o velho Oeste já não era tão velho assim, que ouve do médico o diagnóstico de câncer.

    - Se eu tivesse a sua coragem - diz-lhe o médico depois de descrever o que o esperava - não teria uma morte assim.

    Não. John Bernard Books, o personagem de Wayne em The Shootist, não teria uma morte assim. Ele compra uma lápide para seu túmulo, desafia três desafetos e marca com eles um encontro no saloon da cidade. Chegando ao saloon, vai ao balcão e faz o pedido ao barman: 'Hoje é meu aniversário. Me dê o melhor na casa'. Ele bebe o uísque de uma talagada, e vira-se para enfrentar os três.

    Uma vez John Wayne disse: - Tive uma regra que tentei seguir em todos os meus filmes, e que era interpretar papéis com que os homens pudessem se identificar. Meus personagens podiam ser duros e cruéis, mas nunca maus ou mesquinhos, nunca pequenos. Isso provavelmente aconteceu por causa dos meus sentimentos a respeito da vida. Eu nunca aceitei papéis que não fossem assim.

    Fonte: O Estado de São Paulo - 01/12/2003



    4.10.04

    Faroeste, um mago, um mito - Parte 1


    O MAGO JOHN FORD: O grande mestre do western começou a dirigir filmes em 1917. Acredite: foi por acaso.

    "A verdade da minha vida é cá comigo, e não se metam nisso." John Ford falou muito sobre sua vida, e mentiu bastante, mas não quando, querendo apresentar-se com uma frase de efeito, declarou 'Eu me chamo John Ford. Faço westerns'. Nasceu a primeiro de fevereiro de l895, em Cape Elisabeth, Maine, Estados Unidos, com o nome de John Augustine Feeney. Diria mais tarde que não foi batizado John, mas Sean, nome irlandês, como ele gostaria de ter sido, e que muitas vezes disse que era.
    Não há certeza sobre o motivo que o levou a adotar o nome Ford. Já se disse que, talvez, por admiração ao poeta inglês John Ford (1586 - 1640), ou simplesmente porque um de seus irmãos mais velhos, Francis Feeney, havia decidido que seria Francis Ford. Mas ao mudar o sobrenome, mudou também o nome, e passou a apresentar-se como Jack. Foi como Jack Ford que se envolveu com o cinema.

    John A. Feeney e Barbara Curran, irlandeses de Galway, na costa leste da Irlanda, só se conheceram em território americano. Casaram-se em 1880 e tiveram onze filhos - John Ford foi o último.

    O senhor Feeney teve primeiro um 'saloon', depois tornou-se agricultor, e como o que nos interessa aqui é Ford, ele tinha 12 anos quando Francis, 13 anos mais velho, estava trabalhando com o senhor Edison como ator. Foi então, por volta de 1908, que o garoto viu filmes pela primeira vez e, seis anos mais tarde, pôde assistir Francis em ação na tela. Decidiu-se. Estava com 19 anos, fôra aceito na Universidade de Maine, mas deixou-a de lado e, chamado por Francis, rumou para Hollywood. Francis era diretor na Universal, onde fazia seriados, e contratou o então Jack Ford como terceiro assistente. Alguns biógrafos dizem que, entre 1914 e 1917, ele participou de alguns filmes, como ator, e que chegou mesmo a dirigir, mas Ford foi sempre o primeiro a discordar. Tinha uma lembrança concreta do período: em 1915 fez uma ponta em The Birth of a Nation (O Nascimento de uma Nação), de Griffith, no papel de um dos cavaleiros da Ku Klux Klan. "Eu era o de óculos", dizia (tinha problemas na vista desde a infância, e usava óculos de lentes bem grossas). Foi em 1917 que passou a dirigir, o que aconteceu por puro acaso.

    A Universal estava inaugurando novos estúdios, e seu fundador, Carl Laemmle, resolveu dar uma festa em grande estilo. Uma enorme lista de convidados resultou em uma grande delegação de Nova Yorque, pessoal importantíssimo, ao qual todos os assistentes da companhia deveriam servir do bom e do melhor, principalmente da melhor bebida. Ford estava entre os que serviam, e contaria depois que fez isso até as seis da manhã, quando resolveu tirar um cochilo e deitou-se atrás do bar. Acordou às oito, lembrando-se de que fazia parte do programa a filmagem de algumas cenas de um western dirigido pelo irmão, Francis, do qual ele era agora o primeiro assistente.

    O cenário estava montado: uma multidão de cowboys circulava pela rua principal de uma cidadezinha típica do Oeste, esperando. Os ilustres convidados esperavam também. Mas onde estava Francis, onde estavam os outros assistentes? De ressaca, era a resposta. E não apareciam. Até que um dos diretores da Universal recorreu a ele, Ford. Ford contaria:

    - Não havia maneira de Francis chegar, e eu esperava com os cowboys e o produtor. O senhor Bernstein me procurou: 'Pelo amor de Deus, faça alguma coisa, diga que você é o Francis e comece'. (...) Toda a gente esperava impaciente, e então eu disse a um dos cowboys que trotasse com o cavalo ao longo da rua. Bernie acompanhava: 'Isso mesmo, continua, faz mais alguma coisa'. Mandei então uns cinquenta cowboys cavalgarem por toda a cidade. Naquele tempo, uma queda de cavalo custava um dólar a mais no salário. Hoje uma queda sindical vale 250 dólares, mas naquela altura era um dólar que tocava a um cowboy que se deixasse cair do cavalo (Ford contou essa história em entrevista em 1966). De maneira que disse aos cowboys: 'Será que podemos ter algumas quedas? Quando eu disparar o revólver, você, você e você caem, ok? Vamos recomeçar'. Foi então que disparei e os cinquenta cowboys atiraram-se dos cavalos. Os convidados acharam a coisa formidável. Bernie olhava-me e disse-me: 'O que mais você sabe fazer?'. ' Quanto é que vale o nosso cenário da cidadezinha?', perguntei eu. Respondeu-me que valia 215 dólares. Mandei vir alguns galões de gasolina, espalhamos por todo lado e acendemos o fogo, enquanto os cowboys percorriam as ruas disparando em todas as direções. Nessa altura os convidados foram embora, estava tudo acabado e não havia mais motivo para ficar. Um mês depois, quando precisaram de alguém para dirigir Harry Carey, o senhor Laemmle disse: 'E por que não Jack Ford? É um bom diretor e sabe se impor pelo grito'. E foi desse modo que tudo começou.

    Harry Carey, quase vinte anos mais velho que Ford, começou no cinema em 1909 e fez centenas de filmes nos anos 10. Em 1917 foi escolhido pela Universal para disputar com Tom Mix, Williams S. Hart e Buck Jones a preferência de um público enorme vidrado em westerns. Jack Ford fez 26 filmes com ele. Em 1919 uma crítica citava os dois como melhor ator e melhor diretor de westerns do mundo.

    Foram dezenas de filmes para a Universal até que, em 1921, Ford a trocou pela Fox. Naquele ano também, visitou a Irlanda pela primeira vez, e um de seus principais biógrafos, Andrew Sinclair, considera que a partir daí ele esteve envolvido em espionagem e, possivelmente, com o IRA, o Exército Revolucionário Irlandês. Admirador confesso da Marinha, ele se ofereceu como voluntário durante a Primeira Guerra, mas não o aceitaram por causa da vista. Insistiu tanto que foi finalmente aceito, mas já havia o armistício. Sinclair acha que logo depois disso, em 1919, ele foi incorporado à reserva da Marinha, como agente secreto. Muitos de seus filmes a partir de então teriam servido de cobertura para importantes ações de espionagem.

    (Esse amor à Marinha, e as ações de espionagem em que estaria envolvido, deram a Ford a fama de reacionário. Por isso, bem mais tarde, nos anos 50, auge do macartismo, suas ações eram muito observadas. Houve uma famosa reunião daquele que seria o sindicato dos diretores de Hollywood, do qual Cecil B. De Mille era o presidente, e este defendia os propósitos do senador MacCarthy a respeito de atividades anti-americanas. O diretor Joseph Mankiewicz estava do lado contrário, e era um dos alvos. Depois de quatro horas de discussões,

    Ford pediu a palavra: 'Meu nome é John Ford. Faço westerns. Acho que não há ninguém nesta sala que saiba melhor o que o público americano quer do que Cecil B. De Mille. Ninguém melhor do que ele lhe deu a ver o que queriam. Por isso o admiro'. Ford fez uma pausa e virou-se para De Mille. 'Mas eu não gosto de você C. B.. Não gosto do que tem estado a defender. E não gosto do que tem estado a dizer esta noite'. Pediu a De Mille que se desculpasse com Mankiewicz. Ele se negou. Ford propôs um voto de censura a ele, que foi aceito. De Mille demitiu-se. Mankiewicz recebeu um voto de louvor).

    Em 1926, Ford trocou o Jack pelo John. Já tinha filmes importantes então, e muitos consideram que seu primeiro grande filme foi feito em 1923, The Covered Wagon, que custou 280 mil dólares, muito dinheiro na época, e que rendeu três milhões. Em 1935, aos 40 anos, fez The Informer (O Delator), seu primeiro Oscar. Foi também em 1935 que ficou definitivamente cego de um dos olhos, passando a usar o tapa-olho. Brincou muito com isso, dizia imitar o Almirante Nelson e divertia-se colocando o tapa-olho na vista boa, ou usando o binóculo apenas no olho cego. "Seu eu decidir me tornar um bandido, precisarei apenas de meia máscara", repetia.

    Em 1939 fez Stagecoach (No Tempo das Diligências), e com ele mudou o rumo dos westerns. Em 1957 fez The Searchers (Rastros de Ódio), e em 1962 The Man Who Shot Liberty Valance (O Homem que Matou o Facínora).

    Há sempre um punhado de bons críticos que consideram The Searchers o melhor filme do gênero em todos os tempos. Em Stagecoach, Ford passou a filmagem toda provocando John Wayne e reclamando dele. Quando o roteiro foi apresentado, o produtor, que já não gostava da idéia de investir em um western, nem queria ouvir falar em Wayne, um ator de filmes B pouco conhecido. Ele preferia Gary Cooper. Ford tanto insistiu que ganhou, mas depois não perdia a oportunidade de jogar na cara de Wayne 'Eu devia ter ficado com Cooper'. Era um sujeito temperamental e todos o temiam. Os atores, que ele não parava de importunar (dizem que escolhia uma vítima por dia, e então que Deus tivesse piedade dela), variavam seus humores do ódio ao amor, como contou Harry Carey Jr., o filho de Harry Carey: 'Em um determinado momento, a gente o odiava, mas vinte minutos depois queríamos nos jogar nos braços dele'. Maureen O´Hara, que trabalhou com ele em The Quiet Man (Depois do Vendaval), um dos quatro filmes que lhe deram o Oscar de melhor diretor, conta um episódio da sequência da corrida de cavalos a que ela, como personagem, assistia. Ford ia filmá-la em close.

    - Ele colocou ventiladores atrás de mim, para que soprassem meus cabelos para a frente. E os meus cabelos eram grossos, muito grossos e resistentes, e eles batiam nos meus olhos e me machucavam, e então eu quase os fechava. E ele começou: 'Você tem que apertar os olhos? Você não pode abrir essa merda desses olhos?' E ele continuou me amolando o dia inteiro, até que não pude aguentar mais, e gritei: 'O que um velho careca filho da puta como você sabe sobre cabelo batendo nos olhos de alguém?'. E fiquei apavorada.'Por que não fiquei com minha boca fechada?', pensei. Ford olhava para todos no estúdio, e todos tinham a boca aberta. Então ele riu. Todos no estúdio riram, e aquilo foi um alívio, porque eles pensavam que ele ia me matar. John Ford recebeu seis Oscars por seus documentários (inclusive o de um desembarque dos aliados na Segunda Guerra, que ele filmou enquanto morteiros explodiam ao seu lado), e pelos filmes The Informer (O Delator), The Grapes of Wrath (Vinhas da Ira), How Green Was My Valley (Como era Verde o Meu Vale) e The Quiet Man (Depois do Vendaval). Em uma entrevista ao Cahiers du Cinéma, em março de 1966, Ford falou sobre westerns:

    - Gosto do western, da época do western. (...) O lado mais simpático do western, penso, é que todos podem se identificar com os cowboys. O herói do western é talvez demasiado grande, sobre-humano, mas não mais do que os outros heróis da História. (...) Há pecado somente quando fazemos heróis a partir de personagens fundamentalmente repugnantes. Billy the Kid, por exemplo. Era um bandido brutal e vicioso. Não penso ter conscientemente vestido os meus heróis de branco e os meus maus de negro. Recordo-me de que uma vez, numa sala de projeções, assistia a versão final de um western e uma pessoa que lá estava, pouco importa quem, dizia-me - e ainda era o princípio do filme - que já sabia quem era o mau. 'É o rapaz lá do fundo, vestido de negro, num cavalo negro'. Fiquei furioso e parei a projeção, mandei o sujeito passear e mudei o plano. Não estava certo. É preciso ser justo na vida. Quando perguntaram a Orson Welles quais os cineastas americanos que mais o impressionaram, ele respondeu: 'Os velhos mestres. Isto é, John Ford, John Ford e John Ford'.

    Fonte: O Estado de São Paulo - 01/12/2003



    3.10.04

    No tempo das Diligências


    Talvez não haja gênero cinematográfico mais norte-americano que o western. Curiosamente, porém, um de seus clássicos foi inspirado num filme japonês e feito por italianos: "Por Um Punhado de Dólares" (Itália, 1964), dirigido por Sergio Leone. Em 1960, o diretor John Sturges já tinha ido ao oriente buscar inspiração para o seu western. "Sete Homens e um Destino" era uma nova versão de um filme de Akira Kurosawa, "Os Sete Samurais", substituindo os guerreiros japoneses por cowboys americanos. Sergio Leone seguiu a mesma fórmula e também usou um filme de Kurosawa (que depois o processaria por plágio), "Yojimbo", como ponto de partida para "Por Um Punhado de Dólares".

    A história é simples. Um pistoleiro sem nome chega numa cidadezinha perdida na fronteira dos EUA com o México, onde dois grupos rivais, os Baxters e os Rojos, disputam o controle local. Aproveitando a situação, ele atiça o fogo dos dois lados para lucrar como gatilho de aluguel. No papel principal, um rapazinho que se tornaria símbolo não só dos cowboys mas de todos os valentões da tela: Clint Eastwood. De todo o elenco, ele era o único que falava inglês, todos os outros foram dublados. Interpretando o grande vilão, o italiano Gian Maria Volonté, outro ator que ficaria famoso (não tanto como Eastwood, é claro), principalmente por seus filmes políticos (Sacco e Vanzetti, La Classe operaia va in paradiso, Il Caso Mattei, etc). "Por Um Punhado de Dólares" custou cerca de duzentos mil dólares para ser feito, sendo quinze mil para o cachê de Eastwood.

    Se no western clássico os heróis pautavam-se pela honra, em "Por Um Punhado de Dólares" as coisas mudam radicalmente. Bem afinado com os anos 60, o pistoleiro aqui mostra-se como uma espécie de rebelde, e só é o "mocinho" porque todos os outros são muito piores que ele. Extremamente violento para a época, o filme era tão árido como a paisagem que mostrava. Poucos diálogos, muitos planos fechados, roupas sujas, barbas por fazer. Clint Eastwood passa quase todo o tempo de cara fechada e com os olhos semicerrados, e contam as lendas da produção que isso era resultado de filmar contra o sol e ter sempre na boca aquele cigarrinho de gosto terrível.

    Para mascarar a produção em seu lançamento europeu, os italianos foram inicialmente apresentados com nomes norte-americanos: Sergio Leone era Bob Robertson, Ennio Morricone (em sua primeira trilha sonora para o cinema) era Dan Savio e Gian Maria Volonté era John Wels. "Por Um Punhado de Dólares" foi um grande sucesso tanto na Europa como nos EUA. Duas continuações vieram em 1966 e 1967, "Por Uns Dólares a Mais" (Per qualche dollaro in più) e Três Homens em Conflito (Il Buono, il brutto, il cattivo), introduzindo mais um durão na história, Lee Van Cleef (Volonté também voltaria para este último filme, num papel diferente). Mas nenhum deles igualou o ao mesmo tempo lacônico e eloqüente "Por Um Punhado de Dólares". As continuações deslizavam um pouco para o lado da comédia, gerando o termo "spaghetti western", enquanto o primeiro da série era seco até em seus raros momentos de humor. Como o cego que passa com um letreiro nas costas, "adiós, amigo".

    1."Por um Punhado de Dólares" (1964): Depois da introdução acima, dispenso maiores justificativas para encabeçar minha lista com esse filme. A historia dessa fita se confunde com a historia do Faroeste que resume bem a filmografia do diretor italiano Sergio Leone.

    2."Três Homens em Conflito" (1966): Disse Quentin Tarantino, em mais uma de suas sérias piadas referenciais, que existem dois tipos de pessoas no mundo: as que viram e as que não viram "The Good, the Bad and the Ugly" (1966), do cineasta italiano Sergio Leone. A frase, na verdade, recria o bordão de Tuco, o vértice "feio" deste faroeste triangular que, no Brasil, perdeu a ótima alcunha de "O Bom, o Mau e o Feio" para um insosso "Três Homens em Conflito". O filme mostra a gênese da criação da persona silenciosa e obscura de Clint Eastwood, jovem ator que topou a aventura de filmar faroestes na Itália e que, mais tarde, como cineasta, refletiria essa influência européia.

    3."No Tempo de Diligências" (1939): É a síntese de todos os westerns que vieram depois dele. Naquela diligência estão a prostituta Dallas (Claire Trevor), expulsa da cidade por um bando de matronas indignadas; Doc Boone (Thomas Mitchel), o médico bêbado; Henry Gatewood (Berton Churchill), o banqueiro que rouba o banco; a esnobe senhora Lucy Mallory (Louise Platt), grávida, viajando ao encontro do marido; Hatfield (John Carradine), o jogador; Samuel Peacock (Donald Meek), o vendedor de uísque; o xerife Curley Wilcox (George Bancroft); e o cocheiro Buck Rickabaugh (Andy Devine). Com eles, Ringo Kid (John Wayne), o pistoleiro que fugiu da cadeia para vingar a morte do irmão e do pai. Uma história de amor permeia a trama: Ringo Kid apaixona-se por Dallas. Todos ali têm seus problemas pessoais e, além deles, um temor coletivo: em algum ponto do caminho poderão ser atacados por Gerônimo, o implacável cacique apache. À medida em que os personagens vão surgindo já se estabelece o clima de preconceito que Ford quis explorar. De um lado, a aristocrática senhora Mallory (e o jogador, que se coloca ao seu dispor) e o pernóstico banqueiro Gatewood, um corrupto que ainda não foi revelado. De outro, Dallas e Doc Boone, obrigados a deixar a cidade - ela por ser prostituta, ele por não ter como pagar o aluguel. Aos dois junta-se o Kid, um fora-da-lei. A diligência vai avançando e os dramas se entrelaçam. A senhora Mallory precisa do médico bêbado e da prostituta para ter seu filho, o banqueiro precisa do condutor para fugir, todos precisam do pistoleiro para sobreviver aos índios. Os apaches atacam (uma sequência como o cinema ainda não conhecia). A diligência chega finalmente ao seu destino. Ringo Kid, que o xerife mantém prisioneiro, precisa cumprir um ano de prisão. Ele tem um rancho ali perto, pouco além da fronteira, e quer que Dallas o espere lá até que seja libertado. Mas antes, e o xerife concorda, ele tem que enfrentar seus inimigos...

    4."Matar ou Morrer" (1952): No filme dirigido por Fred Zinnemann há uma crítica contundente à sociedade norte-americana: faz-se uma alegoria do comportamento apático e passivo que uma enorme parte dela teve em relação à caça às bruxas deflagrada pelo senador Joseph McCarthy. Will Kane é vítima de uma cidade que se acovarda: tentando reunir um grupo que o ajudasse no combate a Fred Miller e aos três crápulas que o acompanham, Will é abandonado pelo seu assistente, pelos cidadãos, pelos amigos e, até certo ponto, por Amy, sua mulher, porque uma quaker não pode ser partidária da violência. Resta-lhe o apoio de um antigo caso, Helen Ramirez (Katy Jurado), que sentencia: "Quando ele morrer, esta cidade morrerá também". Usando um recurso raríssimo no cinema, Zinnermann filma sua história em tempo real: os relógios da torre da igreja, da estação de trens, do saloon, vão mostrando os minutos até que, às 12 horas, Frank Miller desembarca.

    5."Os Brutos Também Amam" (1953): "Não há como conviver com assassinato. Não há volta. Certo ou errado, ele deixa uma marca, uma marca que fere". Esta é uma das poucas verdades ditas expressamente em Shane (Os Brutos Também Amam), uma história aparentemente simples, mas que tem suas maiores virtudes naquilo que apenas insinua. Quem é Shane (Alan Ladd) o jovem bonito, sedutor, que chega inesperadamente ao rancho de Joe Starret (Van Heflin), sua mulher Marion (Jean Arthur) e seu filho Joey (Brandon De Wilde)? E que instantaneamente se coloca ao lado de Starret, o líder dos rancheiros, contra Rufus Ryker (Emile Meyer), o grande criador de gado que pretende livrar-se de todos os rancheiros? Um homem que pretende mudar sua vida, talvez criar raízes. Em um primeiro momento ele é o pistoleiro que imediatamente saca sua arma e volta-se para o pequenino Joey, que inocentemente engatilhou sua minúscula espingarda de caça, descarregada. Momentos depois ele é o sujeito que entra em uma loja e compra calças normais, um cinto largo e uma camisa azul com golas largas - um conjunto que dá a ele uma aparência quase efeminada. O efeito é imediato: entrando no bar da mesma loja, ao pedir uma garrafa de soda para o garoto Joey, ele é abordado por um dos capangas de Ryker, Calloway (Ben Johnson). Calloway atira-lhe um cálice de uísque na camisa nova: - Assim você vai cheirar como um homem - diz ele. Shane não reage.

    6."Rastro do Ódio" (1956): John Ford explora o racismo e o preconceito em um filme antológico que hoje receberia imediatamente o carimbo de politicamente incorreto nos Estados Unidos. Nele os índios são maus, cruéis, selvagens. Ethan odeia os Comanches, e seu objetivo não é salvar a sobrinha (que aos 16 anos é interpretada por Natalie Wood), mas matar seus captores e ela própria. Depois de tanto tempo (a caçada dura cinco anos), Debbie, acredita, tornou-se um deles.

    7."O Homem que matou o Facínora" (1962): O advogado almofadinha vem na diligência e tem a viagem interrompida por um assaltante violento. Apanha tanto dele que é abandonado inconsciente no meio do caminho. É socorrido pelo cowboy valente que o leva para sua namorada cuidar. Assim se encontraram o advogado Ransom Stoddard (James Stewart), o bandido Liberty Valance (Lee Marvin), o bravo Tom Doniphon (John Wayne) e a adorável Hallie (Vera Miles).
    A história é contada em flashback em uma cidadezinha progressista chamada Shinbone, que está prestes a sepultar o último elo que a ligava à Shinbone selvagem da época em que se dá a ação principal. Lá, Ransom queria implantar a lei e a ordem usando uma única arma: o código penal. Ele conta com o apoio da imprensa local, o jornalzinho 'Shinbone Star', do repórter, redator, editor, publisher e proprietário Dutton Peabody

    8."Pistoleiros do Entardecer" (1962): Sam Peckinpah mostra aqui, como faria mais tarde em "The Wild Bunch" ("Meu Ódio Será Tua Herança"), um Oeste que se transforma. Essa transformação preserva sentimentos nobres de desbravadores que se aventuraram por aquelas terras à procura de um lugar para fincar raízes e construir uma terra em que tivessem orgulho de viver. Em "The Wild Bunch", um bando de celerados têm o seu código de honra. Em "Ride The High Country" (Pistoleiros do Entardecer), dois xerifes fazem do final de carreira um dos pontos mais altos de suas vidas.

    9."Meu Ódio Será Tua Herança" (1969): Ainda Sam Peckinpah: "O Wild Bunch é simplesmente o que acontece quando um grupo de assassinos vai para o México. A coisa estranha é que você tem um grande sentimento de perda quando aqueles assassinos chegam ao fim da linha".

    10."Os Imperdoáveis" (1992): Will Munny é apenas um criador de porcos sem dinheiro no bolso e com dois filhos para criar. Little Bill é o xerife de Big Whiskey que, no momento, está apenas preocupado em construir sua casa, como costuma dizer. O passado não os recomenda: Munny já foi um bandoleiro sanguinário que, bêbado, não poupava mulheres nem crianças. Sobre Little Bill sabe-se menos, mas em algum momento no passado ele teve problemas não superados com um pistoleiro famoso, English Bob. Will Munny é Clint Eastwood, Little Bill é Gene Hackman e English Bob é Richard Harris. No final, pistoleiro e xerife estão frente a frente."Sou William Munny do Missouri, matei mulheres e crianças. Já matei de tudo o que anda ou rasteja, e estou aqui para matar você, Little Bill". "Os Imperdoáveis" é um filme sobre a violência, suas repercussões e o efeito que provoca naqueles a quem atinge.



    2.10.04

    SPOILER ESPECIAL: OSCAR 2005 - Filme Estrangeiro

    Conheça os filmes que estão na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro


    A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas recebeu na quinta-feira quatro novos candidatos ao Oscar 2005 de melhor filme em língua estrangeira. Os filmes candidatos vieram da Itália, Holanda, Suécia e Noruega.

    Um júri italiano composto 711 profissionais do cinema e da área cultural selecionaram "Le Chiave di Casa" (As Chaves de Casa), de Gianni Amelio, um dos favoritos para receber o Leão de Ouro do Festival de Veneza, este ano, mas que deixou o evento sem nenhum prêmio.

    O filme é estrelado por Kim Rossi Stuart no papel de um pai que procura reaproximar-se de seu filho, deficiente físico de 14 anos representado por Andrea Rossi.

    É a quarta vez que um filme de Amelio é escolhido para representar a Itália na corrida pelo Oscar. Os outros foram "As Portas da Justiça", em 1990, "Ladrão de Crianças", em 1992, e "América", em 1994. Amelio ainda não conquistou nenhum Oscar.

    A Holanda escolheu a tragicomédia de Eddy Terstall "Simon", sobre a amizade improvável entre um traficante de drogas heterossexual e um estudante de odontologia gay. O filme estreou no Festival de Cinema da Holanda, em Utrecht.

    O segundo trabalho de Erik Poppe, "Hawaii, Oslo", é o candidato norueguês ao Oscar. O filme acompanha uma série de histórias interligadas que acontecem em Oslo no dia mais quente do ano.

    "Hawaii" foi saudado com boas críticas quando estreou no Festival Norueguês Internacional de Cinema, em Haugesund, e vem fazendo sucesso comercial em seu país, tendo arrecadado impressionantes 1,2 milhão de coroas norueguesas (180 mil dólares) em seu fim de semana de estréia.

    O candidato oficial da Suécia ao Oscar de filme estrangeiro é "As in Heaven", da roteirista e diretora Kay Pollack. O drama romântico sobre um regente de orquestra que retorna à cidade onde passou sua infância, depois de sofrer um colapso emocional, arrecadou 3,3 milhões de dólares em suas quatro primeiras semanas em cartaz na Suécia.

    O Brasil concorrerá por uma vaga na corrida ao Oscar com o filme "Olga", de Jayme Monjardim.

    A Academia vai anunciar os cinco filmes estrangeiros candidatos ao Oscar em 25 de janeiro, e o vencedor será anunciado na cerimônia de entrega do Oscar, em 27 de fevereiro.

    Confira abaixo a lista completa de inscritos:

  • "The Sea Inside" - Espanha
  • "Hawaii, Oslo" - Noruega
  • "The Keys to the House" - Italia
  • "As in Heaven" - Suécia
  • "Campfire" - Israel
  • "Breath" - Índia
  • "Olga" - Brasil
  • "Yesterday" - África do Sul
  • "Step Forward" - Venezuela
  • "The Alzheimer Case" - Belgica
  • "Producing Adults" - Finlandia
  • "Les Choristes" - França
  • "Crying Ladies" - Filipinas
  • "Simon" - Holanda
  • "Streaks" - Polonia
  • "The Overture" - Tailandia
  • "Punto Y Raya" - Venezuela
  • "The Five Obstructions" - Dinamarca
  • "The Miracle According to Salomé " - Portugal
  • "O Abraço Partido" - Argentina
  • "Machuca" - Chile
  • "Night Watch" - Rússia
  • "Kod Amide Idrize" - Bosnia-Hersegovania
  • "The Far Side of the Moon" - Canada
  • "Producing Adults" - Finlandia
  • "Downfall" - Alemanha
  • "A Touch of Spice" - Grécia
  • "Running on Karma" - Hong Kong



  • 1.10.04

    SPOILER ESPECIAL: 42º Festival de Nova York

    Festival de Cinema de Nova York homenageia Almodóvar


    O Festival de Cinema de Nova York, que começa nesta sexta-feira com o filme francês "Comme une image", de Agnès Jaoui, homenageará o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que estreará nos EUA sua última obra, "Má educação".

    O festival também exibirá uma cópia restaurada do brasileiro "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade.

    Até 17 de outubro, passarão pela sala de projeções do Lincoln Center filmes recentes de diretores consagrados como os franceses Jean-Luc Godard e Eric Rohmer e o sueco Ingmar Bergman.

    A homenagem intitulada "Viva Pedro!" ocorrerá em 7 de outubro, com a exibição de cenas importantes de sua filmografia, a participação de alguns integrantes de seus filmes e uma conversa ao vivo entre Almodóvar e o diretor do festival, Richard Peña.

    "Vinte e cinco anos após seu primeiro filme, Pedro Almodóvar não dá sinais de parar. Pelo contrário, em vez de descansar em sua glória após os grandes sucessos de 'Tudo sobre minha mãe' e 'Fale com ela', volta com o que talvez seja seu filme mais ambicioso e provocante", assinalou Peña.

    Além de "Má educação", outras atrações do festival são as estréias nos Estados Unidos dos filmes "Notre musique", de Godard; "Agente Triplo", de Rohmer, e "Saraband", de Bergman.

    Também participam da mostra os filmes argentinos "Santa menina", de Lucrecia Martel ("O pântano"), e "Família rodante", de Pablo Trapero ("Mundo grúa" e "Do outro lado da lei"), assim como o brasileiro "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade.

    O cinema asiático estará representado pelo taiuanês Hou Hsou-hsien e seu filme "Café Lumiere"; o chinês Jia Zhangke com "The World"; o sul-coreano Hong Sang-soo com "Woman Is the Future of Man"; o chinês Zhang Yimou com "House of Flying Daggers", e o tailandês Apichatpong Weerasethakul com "Mal dos Trópicos".

    Do Oriente Médio vêm "The Gate of the Sun", do egípcio Yusry Nasrallah; "In the battlefields", do libanês Danielle Arbid; e "Or (my treasure)", do israelense Keren Yedaya. Do senegalês Ousmane Sembene, será exibido "Moolaade".

    Uma mostra do festival será dedicada às produções do estúdio dos Irmãos Shaw, de Hong Kong, famoso por seus filmes de artes marciais, e outra exibirá filmes vinculados ao Plano Marshall, intitulada "Vendendo a democracia".

    Outras atrações da mostra são os filmes "Palindromes", do americano Todd Solondz ("Felicidade"), e "Vera Drake", do diretor britânico Mike Leigh, assim como a versão restaurada e reeditada do filme de 1980 "Agonia e Glória", do falecido diretor americano Samuel Fuller.

    O festival será encerrado por "Sideways", do americano Alexander Payne, cujo filme "Confissões de Schmidt", protagonizado por Jack Nicholson, abriu o festival de Nova York de 2002.

    O Festival de Nova York não tem caráter competitivo, mas seu prestígio é comparável ao dos festivais mais importantes do mundo, já que reúne os destaques da produção cinematográfica anual.

    MUNDO OSCAR: "Mar adentro", dirigido por Alejandro Amenábar e protagonizado, entre outros, pelo ator Javier Bardem, representará a Espanha na competição por uma indicação ao Oscar de nelhor filme estrangeiro. O filme foi escolhido hoje pelos membros da Academia espanhola de Cinema, em uma votação na qual o filme de Amenábar competiu com "Má educação", de Pedro Almodóvar, e "Tio Vivo C.1950", de José Luis Garci. Já "O Abraço Partido", de Daniel Burman, foi selecionado para representar a Argentina. O filme conta a história de um jovem judeu que trabalha com a mãe em um armarinho e inicia os trâmites para conseguir a cidadania polonesa e, assim, poder deixar uma Argentina em crise e emigrar para a Europa, mas se reencontra com o pai, que não via há anos. "Machuca", filme sobre a vida de duas crianças durante o golpe militar do general Augusto Pinochet, em 1973, foi escolhida para representar o Chile na cerimônia do Oscar.